Sunday, January 10, 2010

poema ambicioso

se eu ladrasse gemesse ou uivasse em vez de falar

ninguém me levaria a sério ou levavam-me a sério

de maneira errada e ofensiva por isso deve ser por


isso que por vezes passo muito tempo sem dizer

nada o silêncio é discreto ninguém dá por nós podem

limpar-nos o pó da cara e das pernas porque nos


confundiram com a cómoda no canto do quarto e

não tem importância nós ficamos imobilizados

como uma estátua para não os assustar não vale


a pena perturbar-lhes a rotina e se nesse momento

ladrássemos havia de ser engraçada a reacção não

posso evitar tive de me rir ao imaginar a cena se


eu soubesse cantar ou tocar piano também podia

falar sem usar a garganta a boca a língua mas se

tocasse flauta já seria diferente quando me dou


ao trabalho de pensar um pouco descubro coisas

interessantíssimas acontece-me quando aquilo

que designo por inspiração ou ímpeto criativo


me abandona não será curioso claro que é curioso

contribuir para denegrir aquilo a que alguns

ingénuos ainda designam por poesia e que lhes


dá tanto trabalho e tantas emoções fabricadas

na oficina em que cinzelam sem descanso as

peças de oiro que acabarão no fundo de um


armário antes de serem definitivamente enviadas

para a lixeira municipal mais próxima denegrir a

poesia a literatura nem sequer me diverte na


verdade o projecto é muito antigo o que acontece

é que eu nunca tinha tido coragem de ir tão longe

distante da pátria dos escritores dos legisladores


de meia dúzia de tolos tontos que se tomam por

historiadores da literatura e pensam que alguém

lhes presta atenção a minha liberdade é total o que


eles dizem o que eles pensam nem sequer chega ao

meu conhecimento a maior parte das vezes e quando

chega não me merece grande atenção como dizia


no início se pudesse ladrar uivar gemer e até tocar

piano ou oboé a situação mudava radicalmente

só que embora me importe pouco o que possam


pensar do que eu faço a maior parte das pessoas

não tenho competência suficiente em nenhuma

dessas artes daí o meu silêncio quando se esvai


aquilo a que chamo a inspiração o ímpeto criativo

a minha sintaxe desconjuntada não me leva a lado

nenhum bem sei mas se escrevo provo que existo


não abandono o lugar que é meu a ninguém oh não

se alguém o quer ocupar empurre-me rasteire-me

insulte-me tente assassinar-me daqui não saio


(publicado antes)

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