Tuesday, January 26, 2010

A pátria e a língua

1. Essa velha história de a “minha pátria” ser a “língua portuguesa” tem sido usada abusivamente para dizer o que Pessoa nunca disse. Releia-se o texto e deixemo-nos de patriotismos que Pessoa nunca teve em mente neste trecho; o seu único patriotismo, aparentemente, é aqui a perfeição (maníaca?) da “página escrita”.

O texto de Pessoa é contraditório: por um lado ele aceita que não se saiba sintaxe, que se escreva mal, que se simplifique a ortografia; por outro, depois, diz que detesta “a página mal escrita”, a “sintaxe errada” e que "a ortografia também é gente". Em que ficamos? Eu entendo e aceito que as palavras e as frases têm cara, têm uma identidade, são como “gente” – e perante a inutilidade absurda do acordo ortográfico é também nisso que penso. Mas o texto de Pessoa é confuso. Releia-se:

“Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. A minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

2. Nem por ser confusa a frase de Pessoa perde o seu interesse, porém, se reinterpretada noutra direcção. Para quem vive fora de Portugal há muito tempo e foi progressivamente, por uma fatalidade a que seria difícil escapar, deixando atenuar-se ou cortar-se as ligações ou as cumplicidades com aquilo a que se chama “a pátria”, a língua é de facto uma amarra incómoda de que poderá ou poderia apetecer libertar-se. Só que essa libertação como libertação absoluta e definitiva se revela impossível: o disco duro do cérebro foi formatado para sempre pela educação, pela aprendizagem do mundo através de uma língua; e mesmo quando já nada se tem a ver ou muito pouco - ou quando já não se quer ter nada a ver - com as pessoas que falam a mesma língua que nós, a amarra subsiste, limita-nos, impede-nos de totalmente ser outra pessoa. Uma língua é uma visão do mundo de que se deve desconfiar, contra a qual é necessário bater-se. Língua e identidade confundem-se. Incomodam-se mutuamente. É um problema, se for problema, sem solução ou de resolução difícil. Com estranha teimosia, parece que somos nós que não queremos libertar-nos totalmente desse amor irracional ao passado, dessa fidelidade às "origens".

3. Escrever para quê? Para quem? A língua limita-nos: escrevemos para quem nos pode ler e quem nos pode ler são as pessoas que falam a mesma língua que nós. Ora as pessoas que falam a mesma língua que nós têm na prática quotidiana, e na própria burocracia que rege as relações e a política, problemas diferentes dos nossos, hábitos diferentes dos nossos, aspirações e uma vivência permanentemente diferentes das nossas. Não é que seja impossível vencer o obstáculo, mas é um obstáculo. E quando se vê o que os comentadores profissionais (professores, jornalistas, não importa quem, etc.) fazem de textos alheios, quando se lê o que descobrem neles, o que, no seu delírio “académico”, inventam sobre a pessoa que os escreveu, é de ficar aterrorizado. Se pelo menos no espaço da língua que falamos as pessoas tivessem rigor, competência, cautela e pudor quando falam do que os outros escreveram. Mas não têm, a gente morre e os textos que escrevemos e a nossa biografia complicada ficam abandonados à simplificação com que as feras letradas espetam a mandíbula em tudo o que é carne textual. Pior ainda do que enquanto estivemos vivos e tivemos de conviver com incompreensões e desatenções.

4. Os donos da linguagem vivem na “pátria”, são eles que mandam nos jornais e nas revistas, na televisão e na rádio, no Parlamento e em Belém. Eles quer dizer: a minoria esclarecida e poderosa, a gente que define e hierarquiza, que venera e repudia, que define o que é o bem e o que é o mal. Que decide o que se vende e se deve consumir. Aliás há várias tribos em actividade e sobretudo duas: a da política e a da arte (deixo de lado a do desporto, e em particular a do futebol, porque é assunto que não me interessa neste momento). Cada tribo tem, naturalmente, vários "poderes" ou "governos" instalados e várias "oposições"; tudo se passa antagonicamente. Nem assim há espaço para todos os gostos? Sim e não, as minorias podem não se notar mas vão existindo. O mau gosto ou a preferência pela banalidade, a ignorância, uma educação insuficiente e uma competência muito discutível dominam, são o que mais se vê e ouve, com frequência? É o que se pode pensar e há quem o pense.

5. Tudo isto - o que existe - pode parecer natural, as coisas são assim porque é assim que elas são. Mas por detrás da “naturalidade” das coisas escondem-se o enormíssimo privilégio daqueles que decidem o que é natural e as preferências daqueles que, perseguindo determinada ideia da identidade, separam o que “é “natural” do que não o é, o que é válido e o que não o é. Contra esta situação é ilusório bater-se, cada um gosta do que pode e valoriza o que aprecia. A pátria, a identidade, as obras-primas são utopias, construções mentais, devaneios, uma ambição, uma bíblia, um código civil adaptado.

6. Nenhuma língua, por muito que os “ourives” da gramática e da sintaxe pretendam o contrário, é a priori superior a outra nem mais bela do que outra. Esse tipo de orgulho nacionalista nasce da cegueira. A língua é apenas uma fatalidade a que não se pode escapar - e nós assumimos essa fatalidade. A quantidade de imbecis ou de gente inculta que fala a mesma língua que nós mas se exibe nos espaços do poder e abusa dessa autoridade devia desanimar quem quer que sinta a necessidade de escrever. Não desanima (felizmente ou infelizmente?).

7. O privilégio é ser-se proprietário da linguagem. Isto é: de todos os valores que através da linguagem se afirmam, prevalecem, constituem a “ordem” particular de determinada sociedade. Não é por outra razão que os jovens “modernistas” de todas as épocas começam por se opor - sem no entanto, sintomaticamente, abandonarem a ambição “estética” - ao mesmo tempo à linguagem dominante e àqueles que em seu entender a vigiam, a controlam, a veneram nas formas literárias admiradas. O mais curioso é que em vez de se estabelecer como critério adequado e nobre a eficiência da linguagem se aspire de modo tão obsessivo à beleza da “página escrita”, como se houvesse, para além da eficiência e da clareza, outro critério razoável e superior de distinção no uso que se faz da língua. Ter piada "literariamente" através da linguagem pode divertie e distrair e não há nada a criticar nessa atitude, mas não acrescenta forçosamente nada de muito importante ao que já existe nem ao nosso prazer e conhecimento do mundo - e poesia a sério continua a ser, por exemplo, a de Rilke. Não, não estava a defender o uso tacanho da língua porque me interessam tão pouco os poetas elegantes, políticos e mundanos que continuam a imitar lindamente Camões como certos autores que se tornaram famosos e admirados apesar de na minha opinião dominarem mal a língua e escreverem muitas vezes mal e dizerem coisas ou patetices que me parecem sem interesse.

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