Friday, January 15, 2010

Eça e a linguagem

"As palavras são, como se diz em pintura, valores: para produzir, pois,
um certo efeito de força ou de graça, o caso não está em ter
muitos
valores, mas em saber agrupar bem os três ou quatro que são
necessários."

(Fradique Mendes)


É possível ter estilo sem ter ideias dignas de atenção - e até sem ter nada de que se possa dizer "é uma ideia". Será possível ter ideias sem ter estilo, porém? Creio que sim, mas ideias desorganizadas correm o risco de não passar de citações vagas do texto que nunca chegou a existir - e o que não é "escrito" (o que não se realiza em alguma forma de "narrativa") permanece em estado caótico ou incompleto e não contribui para um claro e convincente entendimento do mundo. Frases soltas não vão para lugar nenhum, ficam-se em si mesmas, a patinar nos limites do pensamento que não chegou a organizar-se. Não é forçosamente inútil, mas é assim.

Nas Cartas Inéditas de Fradique Mendes Eça surge a dado momento cheio de ironia contra os puristas da língua, maníacos estéreis e desinteressantes da caça ao galicismo. Creio que Eça se estava defender a si próprio através de Fradique dos que em Portugal o denegriam e acusavam de pensar e escrever "francêsmente". Eu dou-lhe razão. Mas não deixo de anotar que, no texto a que me refiro, a diatribe contra Camilo é prova da cegueira de Eça e do antagonismo que o espicaçou - e entende-se porquê: o adversário literário neste caso não era qualquer Zé insignificante - na crítica ao autor de Eusébio Macário. Leia-se isto: "Camilo, cujo verbo é prodigioso, acumulando tudo o que o génio nacional inventou para se exprimir (...) não sabia usar essa imensa riqueza" - e por isso, comparado com Ramalho e Oliveira Martins, "não alcançou jamais, como eles, o vigor, o relevo, a cor, a intensidade, a imagem, a vida, mesmo naqueles assuntos em que o romancista, o crítico e o historiador se encontram: na pintura exterior dos homens e do drama humano." Não sabia, ó José Maria? E o Ramalho e o Oliveira Martins, etc.? Sabes o que estás a dizer? Incapaz de se libertar da sua necessidade de se construir por oposição a Camilo, Eça vai mais longe ainda e é penoso e faz sorrir lê-lo, mesmo se é através de Fradique: "Camilo, com o verbo completo de uma raça na ponta da língua, hesita, tataranha, amontoa, retorce, embaralha e faz um pastel confuso - que nem o Diabo lhe pega, ele que pega em tudo!" A sério? Tataranha?

Apesar disso gosto desta carta de Fradique. Nela é dito, tomando exemplos nos grandes autores da literatura francesa, que "a melhor prosa, a mais perfeita, a mais lúcida, a mais lógica, a que tem sido a grande educadora literária e tem civilizado o mundo, é feita com meia dúzia de vocábulos que se podem contar pelos dedos".* Eça (Fradique) continua, antecipando Wittgenstein:

"Faça uma experiência: leia, durante uma semana, meia dúzia de páginas de cada um dos grandes mestres: Bossuet, La Bruyère, La Fontaine, Diderot, Voltaire, Beaumarchais, e diga-me se os termos com que é trabalhada cada uma dessas páginas, não são os mesmos da linguagem familiar, os mesmos que sabe e emprega qualquer modista da Rue de la Paix?"

Podia continuar, mas por ora fico-me por aqui. Termino com uma reflexão pessoal (que também necessita de ser retomada): os escritores menores, que são a maioria, têm medo das palavras simples e mais corrrentes - deve ser porque quando as usam caem numa banalidade que irrita e ofende. Procuram a literatura pelo caminho errado, porém.

Inseguros de si, os escritores menores pensam que para ser escritor é necessário distinguir-se (da gente da rua) pelo estilo. Na realidade o que distingue um autor maior de um autor menor são outras coisas: talento, experiência, conhecimento dos mecanismos de funcionamento da linguagem - e terem coisas a dizer e capacidade de as dizer de maneira que suscita interesse e atenção. Os escritores menores deviam reflectir no que diz Fradique: "Flaubert catava dos seus livros todos os termos que não pudessem ser usados na conversa pelo seu criado: daí vem ele ter produzido uma obra imortal." Esta observação deveria ser útil aos romancistas. Mas muito mais útil ainda àqueles que se crêem poetas.


* Perdoo a Eça a acumulação de caracterizações da "melhor prosa" - sintoma de incapacidade: quando um escritor necessita simultaneamente ou sucessivamente dos duvidosos, ou relativamente inadequados para o caso, "perfeita", "lúcida" e "lógica", é porque na realidade não sabe dizer bem o que é "a melhor prosa": falta-lhe a palavra suficiente. Já se notara a mesma debilidade e insegurança de Eça numa frase anterior:a referência ao "vigor", ao "relevo", à "cor", à "intensidade", à "imagem", à "vida" - trop devient trop peu - para distinguir os grandes Ramalho e Oliveira Martins do Camilo que "tataranha".

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