Friday, January 15, 2010

Eça através de Fradique ainda

"O homem, mentalmente, pensa em resumo e com simplicidade, nos termos mais banais e usuais. Termos complicados são já um esforço de literatura - e quanto menos literatura se puser numa obra de arte, mais ela durará, por isso mesmo que a linguagem literária envelhece e só a humana perdura. (...) Um romance que não possa ser lido sem um dicionário é uma obra grotesca. Você tem um personagem e quer dizer dele - 'que era afortunado nas suas coisas, mas nunca fora generoso e por vezes se mostrara falso'. Somente estes termos: afortunado, generoso, falso, são certamente usados por toda a gente, e, não se sabendo outros, provam escassez de léxico. Você, portanto, procura sinónimos estranhos e raros, que mostrem riqueza de léxico, e põe a sua frase assim: - 'Era varão escançado, porém nunca se mostrara largueado e no seu convívio despontava de honra por mendacíssimo e lançadiço'. Você escreve esta coisa monstruosa que certamente prova opulência de léxico - e em redor estoira uma imensa gargalhada! (...) E como ninguém tem paciência para folhear o dicionário, você ficou incompreendido - e foi como se não escrevesse! Nunca me esqueceu o que um dia me disse Chardron de um romance assim escrito. Perguntei-lhe se a coisa vendia; ele teve um gesto de amargura: - Pas du tou! Il paraît que, pour comprendre ça, il faut acheter aussi un dictionaire, et ça revient trop cher!
Além da riqueza de léxico, nos termos, há a riqueza de léxico no desenvolvimento da ideia, isto é, a apresentação da ideia sob uma forma copiosa e folhuda. Isto é ainda mais fatal. "

Eça de Queirós, Cartas Inéditas de Fradique Mendes e mais páginas esquecidas, VI, A E.

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