Thursday, March 26, 2009

Madame Bovary valse avec le Vicomte


Après le souper, où il y eut beaucoup de vins d'Espagne et de vins du Rhin, des potages à la bisque et au lait d'amandes, des puddings à la Trafalgar et toutes sortes de viandes froides avec des gelées alentour qui tremblaient dans les plats, les voitures, les unes après les autres, commencèrent à s'en aller. En écartant du coin le rideau de mousseline, on voyait glisser dans l'ombre la lumière de leurs lanternes. Les banquettes s'éclaircirent; quelques joueurs restaient encore; les musiciens rafraîchissaient, sur leur langue, le bout de doigts ; Charles dormait à demi, le dos appuyé contre une porte.
À trois heures du matin, le cotillon commença. Emma ne savait pas valser. Tout le monde valsait, Mlle D’ Andervilliers elle-même et la marquise; il n'y avait plus que les hôtes du château, une douzaine de personnes à peu près.
Cependant, un des valseurs qu'on appelait familièrement le Vicomte dont le gilet très ouvert semblait moulé sur la poitrine, vint une seconde fois encore inviter Mme Bovary, l'assurant qu'il la guiderait et qu'elle s'en tirerait bien.
Ils commencèrent lentement, puis allèrent plus vite. Ils tournaient: tout tournait autour d'eux, les lampes, les meubles, les lambris, et le parquet, comme un disque sur un pivot. En passant auprès des portes, la robe d’Emma, par le bas, s'ériflait au pantalon; leurs jambes entraient l'une dans l'autre ; il baissait ses regards vers elle, eIle levait les siens vers lui; une torpeur la prenait, ils repartirent; et, d'un mouvement plus rapide, le vicomte, l'entraînant, disparut avec elle jusqu'au bout de la galerie, où, haletante, elle faillit tomber, et, un instant, s'appuya la tête sur sa poitrine. Et puis, tournant toujours, mais doucement, il la reconduisit à sa place ; elle se renversa contre la muraille et mis la main devant ses yeux.

Flaubert, Madame Bovary

Gracinha valsa com o Cavaleiro


Na sala grande, a sala dos veludos vermelhos, o lustre rebrilhava solitariamente; pelas três janelas abertas penetrava a serenidade da noite quente, o recolhido silêncio de Oliveira; e embaixo, no largo, alguns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de lã branca pela cabeça, pasmavam para aquela claridade de festa que jorrava dos Cunhais. O Cavaleiro e Gonçalo acenderam os charutos na varanda, respirando a frescura escassa. E o Cavaleiro, com beatitude:

— Pois sempre te digo, Gonçalinho, que se janta sublimemente em casa de teu cunhado!...

Gonçalo desejou que, no domingo, ele jantasse na Torre. Ainda restavam umas garrafas de Madeira do tempo do avô Damião - a que se daria, com socorro do Gouveia e do Titó, um assalto heróico.

O Cavaleiro prometeu, já deliciado - tomando da pesada bandeja de prata, que derreava o escudeiro, a sua chávena de café, sem açúcar.

— E tu, com efeito, Gonçalo, agora não deves arredar da Torre. O teu papel é todo de presença na localidade. O Fidalgo da Torre está no meio das suas terras, por onde vai ser eleito para as Cortes. É o teu papel...

O Barrolo, com um riso enlevado, surdiu entre os dois amigos, que enlaçou ternamente pela cinta:

— E nós cá ficamos, ambos a trabalhar, o Cavaleiro e eu!...

Mas D. Maria, do canapé onde se enterrara, reclamou o primo Gonçalo "para negócios". Junto dum console, João Gouveia e Padre Soeiro, remexendo o seu café, concordavam na necessidade dum Governo forte. E Gracinha, com o primo Mendonça, revolvia as músicas sobre a tampa do piano, procurando o Fado dos Ramires. Mendonça tocava com corredio brilho, compusera valsas, um hino ao coronel Trancoso, o herói de Machumba - e mesmo o primeiro ato duma ópera, A Pegureira. E como não descortinavam o Fado com as quadras do Videirinha - foi justamente uma das suas valsas, a Pérola, duma cadência amorosa e cansada lembrando a valsa do Fausto, que ele atacou, sem largar o charuto.

Então André Cavaleiro, que repenetrara vagarosamente na sala, repuxou o colete, afagou o bigode, e avançando para Gracinha, com um modo meio grave, meio folgazão:

— Se V. Exa. me quer dar a grande honra?...

Oferecia, abria os braços. E Gracinha, toda escarlate, cedeu, levada logo nos largos passos deslizados que o Cavaleiro lançou sobre o tapete. Barrolo e João Gouveia correram a afastar as poltronas, clareando um espaço, onde a valsa se desenrolou com o suave sulco branco do vestido de Gracinha. Pequenina e leve, toda ela se perdia, como se fundia, na força máscula do Cavaleiro, que a arrebatava em giros lentos, com a face pendida, respirando os seus cabelos magníficos.

Da borda do canapé, com os finos olhos a fuzilar, D. Maria Mendonça pasmava:

— Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Sr. Governador Civil!...

Ao lado Gonçalo torcia nervosamente o bigode, na surpresa daquela familiaridade, assim renovada pelo Cavaleiro com tão serena confiança, por Gracinha com tanto abandono... Eles torneavam, enlaçados. Dos lábios do Cavaleiro escorregava um sorriso, um murmúrio. Gracinha arfava, os seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava nas calças do Cavaleiro. E Barrolo, em êxtase, quando eles o roçavam, atirava palmas carinhosas, bradava:

— Bravo! Bravo! Lindamente... Bravíssimo!

Eça de Queirós, A Iluste Casa de Ramires

Wednesday, March 25, 2009

About love



"The mothers know it, especially mothers educated by their own husbands - they know it very well. While pretending to believe in the purity of men, they act quite differently. They know with what sort of bait to catch men for themselves and for their daughters.
"You see it is only we men who don't know (because we don't wish to know) what women know very well, that the most exalted poetic love, as we call it, depends not on moral qualities but on physical nearness and on the coiffure, and the colour and cut of the dress. Ask an expert coquette who has set herself the task of captivating a man, which she would prefer to risk: to be convicted in his presence of lying, of cruelty, or even of dissoluteness, or to appear before him in an ugly and badly made dress - she will always prefer the first. She knows that we are continually lying about high sentiments, but really only want her body and will therefore forgive any abomination except an ugly tasteless costume that is in bad style.

Tolstoy, The Kreutzer Sonata
(translated by Louise and Aylmer
Maude)

Monday, March 23, 2009

Rilke: The Lovers


(Robert Doisneau)

    See how in their veins all becomes spirit;
    into each other they mature and grow.
    Like axles, their forms tremblingly orbit,
    round which it whirls, bewitching and aglow.
    Thirsters, and they receive drink,
    watchers, and see: they receive sight.
    Let them into one another sink
    so as to endure each other outright.

    Translated by John J.L.Mood



Kissin plays Grand Valse by Chopin

Saturday, March 21, 2009

Aksel Schiotz - Schumann - Lieder from Dichterliebe

Robert Schumann
1. Im wunderschönen Monat Mai
2. Ich will meine Seele tauchen
3. Ich grolle nicht
4. Und wüssten's die Blumen
5. Ein Jüngling liebt ein Mädchen
6. Am leuchtenden Sommermorgen
7. Ich hab im Traum geweinet

Wednesday, March 18, 2009

Marie Laforet singing "MON AMOUR MON AMIE"

About Love



"What kind of love ... love ... is it that sanctifies marriage?" he asked hesitatingly.
Noticing the speaker's agitation, the lady tried to answer him as gently and fully as possible.
"True love ... When such love exists between a man and a woman, then marriage is possible," she said.
"Yes, but how is one to understand what is meant by 'true love'?" said the gentleman with the glittering eyes timidly and with an awkward smile.
"Everybody knows what love is," replied the lady, evidently wishing to break off her conversation with him.
"But I don't," said the man. "You must define what you understand.... "
"Why? It's very simple," she said, but stopped to consider. "Love? Love is an exclusive preference for one above everybody else," said the lady.
"Preference for how long? A month, two days, or half an hour?" said the grey-haired man and began to laugh.
"Excuse me, we are evidently not speaking of the same thing."
"Oh, yes! Exactly the same."

Tolstoy, The Kreutzer Sonata

Tuesday, March 17, 2009

Santa Barbara Portuguese Studies, Vol. IX (2007)


Acaba de sair e estará em breve disponível em Amazon.com, além de poder ser encomendado directamente no Center for Portuguese Studies da UCSB. O volume X (2008) sairá antes do fim do ano. O volume XI (2009) está em preparação e sairá muito provavelmente no primeiro trimestre de 2010. Um volume que estava previsto sobre poesia portuguesa e brasileira moderna e contemporânea foi cancelado.

Sunday, March 15, 2009

OVNI: Melhor Projecto Gráfico

OVNI

(Eu seleccionei os textos e escrevi um breve prefácio para este volume. Obrigado, Álvaro, pelo excelente trabalho gráfico - e parabéns.)

Monday, March 09, 2009

Sunday, March 08, 2009

Madame Bovary c'est nous

Madame Bovary c'est moi, disse Flaubert. Creio que demorei a entender o que ele queria dizer. Charles não parece merecer-lhe grande consideração, Flaubert exagera na coerência da sua caracterização como homem insignificante, bondoso e ingénuo (o romance seria melhor e corresponderia melhor à nossa experiência se Flaubert não justifcasse o comportamento de Emma fazendo de Charles um pobre diabo; passons...). Mas Flaubert acompanha Emma com interesse em todas as situações. Mostra-a sonhadora, frágil, infeliz, desorientada, iludida, cruelmente ou infantilmente astuciosa, mesquinha, ridícula, desamparada? Parece que sim. Os episódios em que se esboçam e preparam os passeios a cavalo com Rodolphe e as lições de piano em Rouen são simplesmente extraordinários e não se podem esquecer. Mas onde parece haver apenas distanciação crítica de Flaubert em relação a Emma podemos entender que há outra coisa: se Madame Bovary c'est moi, os mal-entendidos do desejo, a mentira, os delírios da insatisfação e da identidade, os excessos da esperança e os devaneios, o desespero da frustração e a parte de comédia que se inflitra na tragédia para a apressar não são apenas dela, são meus também.

Midori - Brahms Sonata no1 1st mvmt (1/2)

Midori partnered by Robert McDonald, Barbican, London, 2004

Tuesday, March 03, 2009

Reflexões sobre a poesia (XI)


1

A maneira como as pessoas no quotidiano das relações que estabelecem entre si falam da realidade, da sua experiência, da vida em geral e do seu sentido, é imperfeita. Haverá uma maneira perfeita de falar seja do que for? Há outras coisas a dizer, há sempre outras coisas a dizer e outra maneira de as dizer. Há aspectos da realidade e da experiência que no nosso uso corrente da linguagem provavelmente não conseguimos revelar. Haverá? Wittgenstein creio que achava que não, que não há, mas esqueçamos isso. É por haver quem esteja em desacordo com Wittgenstein sobre a capacidade da linguagem corrente quotidiana em falar de tudo e com suficiente competência que há poetas e filósofos.

2

A poesia e o discurso filosófico têm, ou pretendem ter, como formas de discurso especializado, uma solidez de pensamento e de organização que, em princípio, não se encontraria nos discursos correntes quotidianos, mais ou menos desorganizados, com as suas elipses, repetições, imprecisões, as suas mudanças bruscas e não anunciadas de perspectiva ou de assunto, a sua real ou aparente incapacidade de desenvolver longamente e em profundidade uma ideia.


3

Além disso a poesia aspira a tocar-nos, enquanto linguagem, esteticamente, o que, sendo coisa vaga e difícil de definir, leva algumas pessoas ao puro disparate. A linguagem corrente de todos os dias, se não for imitação provinciana da linguagem literária (da linguagem da poesia, nomeadamente) tem ou pode ter beleza natural, tudo depende de quem a usa e da adequação do que se tem a dizer ao estilo que se adopta. Em contrapartida os vagidos estéticos da maior parte dos poetas são claramente pura excrescência, gordura balofa, celulite, infantilidade. Platão tinha toda a razão em querer ver-se livre dos poetas.

4

Concentrada na resolução de problemas imediatos, a linguagem corrente não aprofundaria aquilo de que fala, seria apressada e pouco rigorosa. E no entanto há pessoas que desmentem na prática a pretensa imperfeição, superficialidade e carácter rudimentar da linguagem corrente. Desmentem-no pelo uso eficiente e até esplendoroso que fazem dela.

5

Convém não esquecer que a linguagem pretensamente sem especialização, sem rótulo, sem ambição estética de todos os dias é também aquela em que falamos, nas nossas relações com outras pessoas, dos nossos problemas, do mundo, dos pormenores complexos da experiência em geral. A linguagem falada – ou, às vezes, escrita - de todos os dias é a linguagem da sedução amorosa, da intriga política. É a linguagem dos sonhos e dos projectos, das promessas e das traições, da verdade e da mentira com consequências graves, é a linguagem das recordações, dos lamentos e das alegrias. Não é apenas a linguagem de que nos servimos para explicar na garagem o que têm a fazer quando levamos o carro à revisão, pois não? Nem a linguagem em que o poeta fala da sua obra como se ela tivesse alguma importância.

6

Se a ambição da poesia e do discurso filosófico é propor-nos um discurso capaz de superar, com a sua organização sólida, o seu pensamento profundo ou as suas graças gentilmente pueris, as deficiências atribuídas à linguagem de uso quotidiano corrente, o sucesso da ambição não está, porém, de modo algum garantido de antemão. Quero dizer: não é seguro que o discurso da poesia e da filosofia sejam por natureza superiores, em capacidade de aprofundamento e de revelação da experiência, em capacidade de falar da realidade, às formas de discurso despretensiosas. E não estou a inventar nada, pois outros, mais competentes do que eu, já o disseram antes de mim.

7

A ambição estética pode tornar-se uma mania perniciosa. Uma compreensão defeituosa do que é o valor estético da linguagem dá origem a formas de discursos ridículas, que não só não trazem nada de novo ao mundo como provocam, num espírito lúcido e experiente, a consternação ou o riso. Que desperdício.

8

Para entendermos em que consiste a poesia, o que é a poesia, devíamos concentrar-nos mais naquilo que a poesia diz e, isolando artificialmente a forma do conteúdo, esquecermos momentaneamente a maneira que a poesia tem de o dizer. Claro que é impossível: o conteúdo é forma, a forma é conteúdo; o sentido é forma, a forma tem sentido. E o problema é esse, precisamente: a forma, a roupa do poema, ou convive harmoniosamente com o que diz e a gente não sente um desnível entre o corpo (o sentido) e a roupa que o veste, revelando-o; ou o esforço domingueiro do poema, com a sua pretensão de se elevar acima da linguagem de toda a gente, torna o exercício e o autor do exercício risíveis. Mas as pessoas têm medo de se rir em público destas coisas porque embora vejam o rei nu receiam estar a ser vitimas de uma ilusão óptica.

9

Casaco com mangas longas de mais, camisa com os colarinhos ao contrário, saia ou calças com dois metros a mais. O homem da aldeia ou da cidade quis deixar de ser homem da aldeia ou do seu bairro, não se sabe porquê, e vestiu roupa que em vez de o tornar elegante faz dele um palhaço. Não seria melhor ele ir de jeans à cidade, em mangas de camisa? Em vez disso aperaltou-se de tal modo que se assemelha, pela excentricidade involuntária, a uma prostituta decadente que perdeu a noção da sintaxe que rege o uso da maquilhagem e do vestuário nos lugares que frequenta. O homem da aldeia ou o homem do bairro não queria provavelmente dar nas vistas, queria apenas ser elegante, elevar-se acima da sua condição de homem do bairro ou da aldeia (que todos nós somos). Mas exagerou na brilhantina, no lustro dos sapatos, no nó e na cor da gravata, no corte do cabelo, nas atitudes, nos tamanhos, nos formatos. Exagerou no estilo, na ambição estética. Traiu-se. Olha-se para ele e imediatamente pensa-se: donde é que esta ave rara acaba de sair?

10

É precisamente porque o conteúdo ou o sentido é forma e a forma é conteúdo ou sentido que a poesia, adoptando uma forma distinta da forma da linguagem corrente, denuncia a sua ambição de se elevar acima dessa linguagem corrente. A eficiência e a clareza imediatas, sem profundidade - elementares, espontâneas - seriam, por natureza, a ambição ou falta de ambição natural da linguagem corrente quotidiana, pouco preocupada com o que se designa por estilo. A poesia diz: a profundidade do pensamento e a beleza da linguagem e da experiência escapam à linguagem corrente, por isso eu sou necessária. A linguagem corrente comenta: vanitas vanitatis, vai indo que logo falamos.

11

A poesia não existe? Claro que existe, mas nem sempre a encontramos onde parece que está. E muitas vezes aquilo que se pretende poesia é nitidamente inferior ao uso despretensioso da linguagem dita corrente e quotidiana que fala da experiência, do mundo, de nós. Demorei algum tempo a percebê-lo, mas para mim o mal-entendido terminou.