Wednesday, January 28, 2009

Há muitos mundos

Acerca da "blogosfera" tenho lido pacientemente de tudo um pouco. O Manuel Domingos referiu-se agora com pertinência à falsa notícia recente. Eu também devo ter visto a notícia sobre "o fim da blogosfera" em qualquer lado, mas nem me detive, passei à frente. Esse tipo de notícia faz de quem a manda para o ar e de quem lhe dá atenção vedetas passageiras dos meios de comunicação. Mas a blogosfera para mim só acabará quando o blogger e outros servidores da internet deixarem de acolher os meus blogues (os que escrevo e os que leio) ou quando eu já não quiser ter blogues.

Algumas pessoas querem fazer da blogosfera uma instituição e de si mesmos gurus e vedetas dessa instituição. A sede de se elevar acima do destino individual "inscrevendo-se", com outros, numa instituição que seria respeitável, a vontade de se irmanar em "comunidades" - citando, para aprovar ou reprovar, hierarquizando e excluindo outras pessoas - é o prolongamento de uma ambição de poder, de uma necessidade de ordem e desejo de prestígio que nem sequer necessitam de ser repensadas ou elucidadas (Wilhelm Reich já disse o essencial sobre o assunto). Alguns autores de blogues manifestam, se tomados deste ponto de vista, o receio de não pertencer a qualquer coisa que se possa admirar, temer, erigir em modelo, "institucionalizar" - e, claro, controlar.Têm medo de se apresentar diante de nós sem etiqueta que os proteja de serem avaliados apenas pelo que escrevem e fazem, pelo que são? Não suportam estar sós? E acreditam que sempre que falam foram muito ouvidos, muito admirados? 

Em tempos deparei, com muito tédio e não menor cepticismo, no blogue de um professor universitário, com a tentativa de escrever uma espécie de Poética dos blogues (à maneira de Aristóteles, provavelmente). Os professores universitários são pagos para escrever "poéticas", como se sabe. Mas isso não implica que tenhamos de as ler ou de lhes prestar muita atenção; o esforço pareceu-me arrogante, ingénuo, vão.

Algumas pessoas não entendem que ter um blogue é acima de tudo ter um lugar onde escrevemos o que nos apetece com total liberdade, sem preocupações de pertencer a uma instituição e com o direito à futilidade, à literatura ou ao desespero em graus iguais. A blogosfera só acabará quando desaparecer o último blogue. O resto é conversa fiada.

Friday, January 23, 2009

Mirella Freni sings "Si mi chiamano Mimi" (Puccini, "La Bohème")

Mirella Freni sings "Si mi chiamano Mimi" from Puccini's opera "La Bohème"

Luciano Pavarotti as Rodolfo, Mirella Freni as Mimi

San Francisco Opera 1990

Wednesday, January 14, 2009

Tuesday, January 13, 2009

Hilary Hahn Bach Violin Sonata No. 2 Part 4

... happiness never

Messenger to Medea

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As for human life,
It is a shadow, as I have long believed. And this
I say without hesitation: those who most would call
intelligent, the propounders of wise theories –
Their folly is of all men’s the most culpable.
Happiness is a thing no man possesses. Fortune
May come now to one man, now to another, as
Prosperity increases; happiness never.

Euripides, Medea, translation
Philip Vellacott, Penguin Books

Monday, January 12, 2009

Dinu Lipatti - Chopin Nocturne Op. 27, No.2 in D flat Major

Dinu Lipatti - Chopin Nocturne No2 op 27 in D flat Major
More information about Dinu Lipatti (and Clara Haskil, another great piano player) you can find on http://www.lipatti-haskil-foundation....

Sunday, January 11, 2009

Wednesday, January 07, 2009

Madamina, il catalogo è questo - Allen, Te Kanawa (Don Giovanni ROH'88)

Date: 7 July 1988
Venue: Royal Opera House, Covent Garden, London
Composer: Wolfgang Amadeus Mozart
Librettist: Lorenzo da Ponte

Conductor: Colin Davis

Leporello: Stafford Dean
Donna Anna: Makvala Kasrashvili
Don Giovanni: Thomas Allen
Il commendatore: Gwynne Howell
Don Ottavio: Stuart Burrows
Donna Elvira: Kiri Te Kanawa
Zerlina: Joan Rodgers
Masetto: Gordon Sandison

Friday, January 02, 2009

Reflexões ingénuas sobre a linguagem (3)




Gosto de andar à vontade, visto uns jeans e uma camisa, raramente visto um fato ou uso gravata. Mas uma vez fui a um funeral e antes de voltar a casa entrei num café e conheci uma rapariga. Ela perguntou-me se eu era médico ou advogado, eu respondi que era médico, a mentira divertiu-me. Ficámos amigos e desde então todas as semanas nas quintas-feiras eu visto um fato e ponho uma gravata, vou ao mesmo café para estar com ela. Ela pergunta-me como vão as coisas no hospital, eu tenho sempre novidades para lhe contar. Inventei-me uma biografia fictícia só para um dia da semana, só para uso dela.

É uma loucura, eu sei, mas à medida que o tempo foi passando e as nossas relações se aprofundaram percebi que não quero decepcioná-la, não posso destruir a ilusão. Quando se começa a representar um papel torna-se difícil arrepiar caminho. Pouco a pouco tenho vindo a compreender que entre a nossa identidade real, aquilo que nós somos, e as identidades fictícias que às vezes adoptamos a diferença é mínima.

Na realidade eu trabalho numa empresa de informática, nunca fui médico. Mas posso desempenhar sem problemas, alternadamente, o papel do médico e o papel do engenheiro informático. Pelo menos durante algumas horas por semana.

Nas tardes de quinta-feira, portanto, todas as semanas, como já se entendeu, sou um aldrabão. A minha capacidade de dissimulação tem-me deixado surpreendido. Quem me garante, no entanto, que ela é advogada, como ela diz? Quem me garante que ela não muda de roupa e não vem também às quintas-feiras para me fazer acreditar que é aquilo que não é, movida talvez por um receio de decepcionar e um desejo de manipular semelhantes aos que me levam a mim a prosseguir a dissimulação excêntrica? Representamos bem o nosso papel, ela dá-me as informações que alimentam em mim a ficção da sua identidade, eu forneço-lhe os argumentos que são indispensáveis para ela acreditar que eu sou quem de facto não sou.

Temos pena um do outro, da solidão em que imaginamos que o outro vive, é por isso que mentimos? Partilhamos a mesma repugnância pela rotina que acinzenta grande parte dos nossos dias? Ou depois de iniciada a brincadeira levianamente percebemos que confessar a verdade provocaria uma reacção furiosa da pessoa que de certo modo tomámos por parva, também pode ser. Há quem aceite sem se zangar ter sido tomado por um ou uma pobre de espírito e perdoe a ofensa. Mas nem toda a gente tem tanta tolerância para com a falta de carácter e de perspicácia alheia.

Andamos a manipular-nos um ao outro com um talento diabólico e inocente, impregnado de uma curiosa e disfarçada amabilidade? E tudo isto gratuitamente, com intuitos misteriosos ou sem razão que o justifique? Posso levar as coisas na direcção que eu quiser, tudo o que eu quiser inventar terá algum sentido e será convincente, a minha força agora é essa. Ela recebe a informação, assimila-a, não pode imaginar que é tudo construção sofisticada da minha mente doentia, talvez perturbada.

Mas ela pode estar a fazer o mesmo, não é? De qualquer modo acho que não tem importância. O que conta é esta espécie de carinho atencioso, confirmação constante e cuidadosa, da parte de cada um de nós, da personalidade que criámos para o outro e ele já se habitou a atribuir-nos. E vamo-nos mantendo mutuamente informados do que se vai passando na nossa vida, quer o que nós contamos se tenha passado ou não.

Há dias disse-lhe, inesperadamente: estou-me a divorciar. Pareceu-me, naquele milésimo de segundo que devia ter-me passado despercebido, que ela torceu o nariz e sorriu por instantes ironicamente. Olhou para mim surpreendida, disse que não sabia que eu era casado. Pois sou, confirmei eu, hipocritamente. Quando voltei a casa interroguei-me sobre a razão que me tinha levado abruptamente, sem antes ter preparado tal mentira, a enriquecer a minha biografia inventada com mais uma peripécia insensata. Concluí que estou a prepará-la a ela e a preparar-me a mim, subtilmente, misteriosamente, para outros acontecimentos. Quais? Ainda não sei. Mas não me esqueço da cara que ela fez, da expressão de surpresa que lhe surgiu no rosto. O que é que ela terá pensado?

Uma pessoa pode sentir-se superior quando é proprietária de uma história inventada. Mesmo que seja verdade que ela também se apossou de maneira fraudulenta de uma identidade que não é a sua, sinto que ela está à minha mercê. Como ela parece acreditar na minha identidade das quintas-feiras, posso, se quiser, tratá-la com a condescendência paternalista com que o psiquiatra trata aqueles que toma por doidos. Isto é: a ingenuidade dela, a boa-fé com que ela acredita em tudo o que eu digo, a facilidade com que ela aceita a personalidade que vou construindo para seu uso exclusivo, tudo faz de mim uma espécie de deus poderoso a quem os devaneios e abusos de poder mais extravagantes são concedidos. Devo ficar preocupado? Terei ido, estarei a ir demasiado longe?

Tenho de reflectir sobre o meu comportamento. À força de inventar histórias para consumo alheio, corro o risco de acreditar nelas e de me levar a sério na personalidade imaginária. Às vezes já não sei bem o que pensar de mim. Algumas noites tenho passado mal, não durmo muito. Há dias, numa estação de metro, quando o comboio vinha a chegar, entrei em pânico durante breves segundos porque pensei que um tipo que vinha a correr na minha direcção me ia empurrar para debaixo da primeira carruagem. Eu estava, meio distraído, a folhear um livro do Eça que tinha acabado de comprar - Alves & Companhia, uma história divertida sobre o adultério de que os literatos profissionais têm falado pouco - e sobressaltei-me quando o vi, como uma sombra rápida, vir contra mim. Imaginem que para lhe fugir eu caía à linha? Teria sido desastroso.

Na próxima quinta-feira devia aparecer-lhe de jeans, em mangas de camisa, para me revelar aos seus olhos como outra pessoa. Qual seria a sua reacção? A noite passada tive um sonho que me deixou preocupado: como no conto conhecido de Machado de Assis, olhava-me no espelho e não via ninguém. A falsidade da situação em que me envolvi assusta-me. À força de agir em função do que quero que alguém pense de mim, à força de me inventar uma vida que não é a minha para satisfazer outra pessoa estou a desapossar-me deliberadamente da minha identidade real - e a minha identidade real pode atenuar-se, diluir-se no meu próprio espírito. Fico desamparado na vida porque comecei a assumir uma vez por semana uma personalidade e uma existência que não são as minhas. Ora a minha existência de médico não me parece suficientemente elaborada, suficientemente sólida para me servir de refúgio no caso de me faltar a identidade do engenheiro informático. Repito: tenho de pensar no assunto seriamente, talvez haja qualquer coisa nesta história que já não bate certo.

Entretanto assaltou-me outra ideia: ela provavelmente é casada e encontra-se comigo clandestinamente uma vez por semana. Se for o caso, a situação torna-se ainda mais interessante, senão picante, pois as pessoas de modo geral têm ideias feitas sobre o amor, convicções que se lhes enraizaram no espírito e que não põem à prova, e a realidade é bem diferente, muito mais contraditória e surpreendente do que aquilo que nos querem fazer crer.

Antes de iniciar esta aventura nunca tinha escrito uma linha, mas começo a acreditar que tenho algum futuro como escritor. Não que isso me excite particularmente, mas estou a descobrir mais uma maneira de fazer da breve existência que temos na terra um acontecimento menos previsível do que eu imaginava até há pouco tempo. Ficar diante de uma folha de papel a inventar histórias dá-me prazer, ir descobrindo pouco a pouco as relações frequentemente inesperadas entre os acontecimentos que fazem a nossa vida corrente é uma actividade que me põe de bem comigo mesmo, que tranquiliza o meu espírito tantas vezes perturbado por ebulições confusas.

Conhecem a anedota do judeu polaco que encontra outro judeu no comboio? Ele pergunta-lhe aonde vai. Resposta: vou a Varsóvia. E o outro, rápido, com um sorriso de desdém: tu dizes que vais a Varsóvia porque queres que eu pense que vais a Cracóvia, mas eu já te conheço, na realidade tu vais é a Varsóvia.