Wednesday, October 21, 2009

Dúvidas

O que é que ela quer? Fui ter com ela ao café e ela estava a falar ao telefone, não sei com quem. Dispúnhamos de dez minutos, ela entrava de serviço no hospital e tinha de se ir embora. Mas em vez de falar comigo estava a falar não sei com quem e nem sequer interrompeu a conversa quando eu cheguei para falar comigo. Então eu pergunto: o que é que ela quer? Arrogante, além do mais. Porque eu disse que não me ia queixar e ela respondeu que queixar-me não me serviria de nada. Que vou fazer, como vou resolver este problema? Não sei. Para já decidi deixar de aparecer, não vou dar sinal de vida. Talvez não atenda o telefone se ela telefonar de novo nem responsa às suas mensagens se ela as enviar. A menina precisa de aprender que se não há reciprocidade de deveres e direitos não pode acontecer mais nada entre nós.

Ontem à noite fui ao café aonde ela costuma ir e aonde eu também vou às vezes. Estava despreocupado cá fora a fumar um cigarro quando vi aproximarem-se um rapaz e uma rapariga. Era ela? Pareceu-me. Fiquei alerta, atento, a querer perceber. Não, não era ela. Se fosse ela eu teria ficado desiludido. Ela estava no trabalho, ela disse-me que não mentia e que seria sempre honesta comigo. Ter admitido a possibilidade de ser ela que estava ali àquela hora com outro tipo foi suficiente para me deixar inquieto, cheio de dúvidas e interrogações. Cheguei a pensar que o melhor era não continuar a vê-la, para evitar mais aborrecimentos. Mas ainda não decidi. Não tenho informações que me permitam entender o que se está a passar entre nós, isto é, não tenho elementos novos que justifiquem uma mudança de perspectiva. Excepto que na ultima semana não estive com ela mais do que três ou quatro vezes e sempre por dez ou quinze minutos. O que não me satisfaz, evidentemente. Por isso, apesar de não ter tomado qualquer decisão ainda, comecei a distanciar-me, já percebi. Como se ela não existisse. Não espero nada dela. Nem que me telefone, nem que me escreva. Nada. E entretanto comecei de novo a olhar à minha volta, o meu interesse por outras mulheres renasceu.

Acho que ela não merece confiança. Tirei-lhe duas fotografias quando ela estava a falar ao telefone não sei com quem e quando as revi no computador pude confirmar que ela estava muito divertida, em intimidades secretas talvez, seduzida e encantada, de sorriso na boquinha pintada. Ou era tudo fita para me impressionar e aborrecer? Nunca se sabe. Aposto que era com um homem que ela estava a falar. E se era um homem não posso estar seguro de nada na minha relação com ela, ela não é de confiança. Que significam palavras como “mentir” e “ser honesta” para ela? Eu não sei. Cada um de nós atribui às palavras o sentido que quer. O que para uma pessoa é ser desonesto para outra pode não ser. Uma menina que eu conheci em tempos passava a vida a mentir. Mentiu-me a mim, vi-a mentir com um descaramento inaudito a outras pessoas. Quem não a conhecesse não duvidava dela. Mais tarde, sabendo que eu a acusava de ser mentirosa, começou a dizer às pessoas que o mentiroso era eu. Quem pode proteger-nos da maledicência e do embuste? Ninguém.

Cai o fim da tarde, arrefece. Devia ir para casa. Aborrecer-me em casa. Detesto este país. Isto não é vida para mim. Há quanto tempo é que isto dura? Há vinte anos? Desaparecido no subsolo da casa vou escrevendo estas notas. Quando a conheci, no entusiasmo do início, cheguei a admitir que podia mudar de ideias, não me ir embora tão depressa, ficar mais uns anos. Passou-me a vontade. Apetece-me de novo ir-me embora. Desde que aqui cheguei que me apetece ir-me embora, fico mais um ano ou dois e depois vou-me embora de vez, chega. Sou preguiçoso, os dias e os anos vão passando, deixo-me estar. O amor de uma mulher podia levar-me a mudar de ideias, a encontrar algum interesse e projecto de vida decente neste pais abominável onde as pessoas só agem motivadas pelo interesse, pelo rendimento, pelos juros que podem cobrar no investimento do capital. Penso estas coisas e preocupo-me. É preciso tão pouco para que a nossa atitude, a nossa visão do mundo e do nosso destino, os nossos sentimentos mudem radicalmente? O que é o amor, afinal? Uma tábua de salvação para o tédio e a falta de sentido da existência? A única razão para vivermos? Que não é fácil amar nem ser amado, que o amor é a maior parte das vezes um mal-entendido a gente já sabe. Eu sei. E o que eu sei não é teoria, o que eu sei não o aprendi nos livros. Se amar e ser amado fosse fácil eu não passava tanto tempo só. Pressinto, entretanto, que a explicação está nos pormenores. Ela sorri ou não sorri? Fala ao telefone com outro homem quando está comigo como se eu não existisse ou presta-me atenção? Há dias ela disse que ninguém pode preencher, só porque nos ama, o espaço vazio que temos dentro de nós, o espaço da nossa solidão que nada pode contrariar. Achei cinismo a mais e escrevi-lhe: não há espaços vazios em nós, o vazio por natureza não existe, só existiria se um espaço que está ocupado deixasse de o estar. Ora em nós não há espaços ocupados que deixem de o estar, pois não? Discurso contraditório o meu. Eu sabia-o, mas não quis ficar calado. O exemplo que lhe dei prova-o: vou na auto-estada a conduzir, penso numa pessoa, a imagem, a recordação dela fazem-me sentir menos só, nada só. Toma aí, entende. Alguém está a ocupar um espaço em mim, a fazer-me mentalmente, sentimentalmente companhia. Não digas, portanto, que ninguém pode preencher o espaço da nossa solidão, que o amor não existe. O problema é teu e foi isso que começou a preocupar-me porque se para ti o amor é impossível então eu estou a perder o meu tempo. Eu conheço-me, porém. Enquanto não conseguir modificar a situação não vou abandonar a luta. Não tenho estratégia segura. Decidi apenas não solicitar, não tomar iniciativas, abandonar-te a ti própria. E logo se vê. Mas se continuares a dar sinal de vida talvez eu não tenha coragem de me afastar de vez, talvez eu acabe por te convencer de que o amor existe.


Estava sentado no café pensar em tudo isto quando ela me enviou uma mensagem. A seguir telefonou. Agora estou sentado perto dela no café do costume. Mas ela está ocupada. E eu tenho de ir à casa de banho. Os seres humanos são apaixonantes. Cada pessoa um mistério, um romance, um filme, um problema. Deve ser disso que eu gosto. Deve ser por isso que a vida é interessante. As pedras, os rios, as montanhas deixam-se olhar - e se têm mistérios são os que nós lhes atribuímos. As pessoas é diferente. Conhecer uma pessoa a sério é um trabalho que exige tempo, concentração, paciência, imaginação, por vezes alguma inteligência, por vezes alguma estupidez. Eu amo a vida, embora desperdice constantemente possibilidades de a aproveitar melhor. Em vez de agir, ponho-me a reflectir e a escrever. Burrice. Consequências de uma educação nefasta. Sou demasiado boa pessoa ou sou pouco corajoso? Não sei. Ela, ao meu lado, noutra mesa, medita com um ar grave, depois rabisca num caderno não sei que conclusões. Acho-a inacessível, distante, despótica. O que é péssimo. Sem generosidade, sem curiosidade, sem amor não se obtém nada na vida, não se vai a lado nenhum. Pôs-se a morder as unhas, agora, uma mania dela. Ignoro-a e talvez ela não aprecie a minha indiferença aparente. Não sei como é que este episódio vai terminar. Cometi um erro. Não devia ter vindo. Mas agora já está. Agora trata-se apenas de encontrar uma saída airosa para a situação. Fácil. Ela levantou-se, disse-me antes de se levantar que se ia embora. Porquê, perguntei eu, é por eu estar aqui? Não, eu é que já estou aqui há muito tempo, disse ela. O que é que se passa, perguntei eu. De que é que estás a falar, respondeu ela. Tenho impressão que evitas falar comigo, disse eu. Não, não é isso, disse ela, mas este lugar não é o lugar mais indicado para falarmos, falamos mais tarde. De acordo, disse eu.

Vou mas é para casa. Se eu não lhe tivesse respondido à mensagem que ela me enviou, ela não me tinha telefonado a seguir. Mas se ela me enviou uma mensagem foi para restabelecer o contacto comigo. Portanto. Portanto o quê? Já não entendo nada. É melhor manter a distância, evitar estes encontros de última hora, sempre quando ela quer. Não se pode esperar nada de ninguém. Não entendo as mulheres deste país. As pessoas parece que só se interessam por quem não se interessa seriamente por elas. Algumas pessoas. Esta rapariga faz-me sentir um estranho, ela própria é uma estranha para mim. Onde estão agora os beijos, as palavras que trocámos sobre o futuro, o que é que ela quer? E o que eu é que quero, realmente? Não se pode saber. Não, não me vou pôr a citar Freud nem Lacan para justificar a minha incapacidade de compreender as mulheres. Ou é a mim mesmo que eu não compreendo? Que ciência é que eu adquiri sobre as pessoas, que teorias é que orientam a minha vida que a tornam impossível?

Cheguei a casa, não me apetecia fazer nada. Nem responder a inquéritos, nem escrever cartas, nem enviar ao meu advogado umas informações que ele me tinha pedido há mais de uma semana. Deitei vinho num copo e pus-me a ver The End of the Affair. Pela terceira ou quarta vez. O contacto com pessoas que acreditam no amor é estimulante. Bendrix, Sarah, Henry. Ralph Fiennes, Julianne Moore, Stephen Rea. Que estranhos amores, não é? Visto de perto ou por dentro o amor é sempre estranho. Falta-nos a capacidade de entender. Ou talvez não, talvez a gente já saiba tudo desde sempre. Imaginei-me na figura do marido, na figura do amante. Qual é a diferença? Podia fazer os dois papéis sem problema. Londres. A chuva de Londres. Um marido como Henry e um amante como Maurice Bendrix não são pessoas comuns, não se encontram por aí facilmente, à esquina das ruas. E uma amante como Sarah? Também não. Nem sequer, imagino, às esquinas das ruas de Londres, embora nós pouco saibamos em geral das vidas secretas que se vão desenrolando em todas as cidades. Acreditar no amor é bom, é saudável. Fica-se optimista. Vemo-nos como personagem de um filme, de uma novela interessante. A monotonia e o tédio ofuscam-se. A vida enche-se de sentido. Nunca me cansarei de rever o filme desta história de amor incoerente, insensata, e no entanto mais humana e comovente do que a maior parte das histórias de amor que já se escreveram ou filmaram. Creio que sendo eu Henry odiaria Maurice. E que sendo Maurice odiaria talvez menos Henry. Não sei. Há mulheres que modificam o nosso destino imprevisivelmente e só nos damos conta disso quando já passou. Depois só se pode olhar para trás, a própria dor e a decepção atenuaram-se, ficou apenas algum rancor. Rancor pela traição da amizade. Rancor porque trocarem-nos por uma história de amor reles, medíocre, nos humilha, nos deixa desconsolados. E o tempo perdido com quem não valia a pena? Aquela que nós amámos e que prometia ser digna do nosso amor transformou-se num monstro de insignificância: roupas, sapatos, colares, móveis, cortinas, o sentido profundo da vida para ela resumia-se a isso. Obsessões e manias vulgares. O que a gente aprende, sem querer, sobre o destino, sobre o amor. E não ficamos mais sábios nem mais felizes. Mas o que se passava no filme que eu estava a ver era mais trágico, eu seria incapaz de condenar Sarah. O amor só é banal e vulgar quando é vivido por pessoas banais e vulgares.


A outra, a que prometeu amar-me e parece ter guardado o meu coração e o dela no frigorífico à espera de melhores dias, à espera de não sei que libertação, por onde andará? O que é que eu hei-de fazer? Eu entendo tudo, sempre entendi, e perdoo às pessoas que me desiludem porque sei que nós não somos deuses. As obrigações profissionais, por exemplo, são árduas, levam-nos a atenção e todas as energias. Desculpo-a por isso, a vida não é fácil, a nossa subsistência não é nenhuma treta e tem de ser levada a sério. Tenho de ser paciente, tenho de aprender a esperar. Nem só de amor vive o homem. E para as mulheres, contrariamente ao que nos ensinam, comecei a suspeitar que o amor é ainda menos importante do que para os homens.

É difícil suportar a solidão, viver na incerteza. Como saber que a pessoa que parece amar-nos e que promete amar-nos vai cumprir a sua promessa? Como saber? Ninguém pensa seriamente no que diz, as promessas não valem nada. Vi-a emocionada, é verdade. Ouvi-a dizer-me palavras convincentes. Gosto da maneira como ela me olha. Mas nem por isso sei mais do futuro das nossas relações. O que é que eu sei dela, pensando bem? Nada. Ela é um mistério, eu não a conheço. E eu para ela também sou um mistério, ela sabe lá quem eu sou. Nem eu sei, não é? Que importa, é preciso que aconteça alguma coisa. Tenho de decidir o que vou fazer nos próximos meses. Temos de voltar em breve a falar nas nossas relações de maneira séria. Sim, eu sei, ela veio a minha casa há alguns dias para se justificar, para me pedir desculpa, para me pedir que fosse paciente e que não me enervasse. Eu não me enervo. Dá-me tempo, disse ela, a minha vida não é nada simples e eu não quero trazer problemas para a minha relação contigo, deixa-me fazer a limpeza. Não percebi nada do que ela disse. E faltam-me razões para acreditar nela tanto como ela quer que eu acredite. Falou-me de inquietações que a atormentam sem especificar nada, que inquietações é que a atormentam? Se ela mudar de ideias ou de sentimentos não me deve explicação nenhuma. Sinto-me a pairar no vazio, incapaz de assumir qualquer papel em particular na tragicomédia da vida. Tudo pode acontecer e pode não acontecer absolutamente nada.

Apetecia-me vê-la, estar com ela. Gastá-la, gastar já o amor, em vez de estar sempre à espera? Sei lá. Ela está ocupada a preparar um concurso para o hospital, tenho de respeitar. Depois vai ser melhor, vai ser bom, diz ela, vamos ter mais tempo para nós. Talvez, penso eu sem dizer nada. Já acreditei. Agora não sei se acredito, não depende da minha vontade. Não estou seguro de nada. Como tenho tendência a agir quando devia era estar quieto preciso de me vigiar, de ter cautela comigo. Não há razão para mostrar a minha impaciência ou inquietação. Mesmo que haja, é preferível manter a calma, ir vivendo como se não houvesse problema nenhum. A impaciência e o nervosismo com frequência complicam tudo, estragam tudo. Como aquele pobre Stendhal quando se disfarçou de maneira ridícula para seguir a mulher que amava, uma senhora casada e responsável: ela fartou-se das parvoíces dele, escreveu-lhe um bilhetinho, despediu-o do amor que nesse momento não passava, ainda, de um sentimento em lenta gestação. A experiência e o bom senso aconselham-me a ir-me treinando para atingir a impassibilidade Zen. Nada do que acontece fora de mim me diz realmente respeito. Tomo consciência do meu corpo, das pernas, dos braços, dos dedos, da cabeça, respiro lentamente. Fecho os olhos. Acalmo em mim os demónios da dúvida e os desejos de fornicação ou de contacto com a pele dela.

Há outras razões para eu ter cuidado: ela é desconfiada. Já entendi, embora ela, de modo geral, seja bastante vaga quando fala do passado. Está escaldada por uma ou duas experiências amorosas negativas, por isso tem dificuldade em acreditar em mim e em apaixonar-se. Mesmo que se apaixone, porém, não vai deixar de ser quem é. E o que é que ela é? Receio que seja uma mulher autoritária, uma chata, pessoa de poucas ternuras, cruel e dominadora. Talvez para se defender da vida, que não é tão fácil como se pensa, ela se tenha tornado fria e calculista. ÀS vezes acho que ela tem um carácter endurecido. Não sei que fazer, não sei o que posso esperar. Sei que estou aqui sozinho em casa às oito da noite a ouvir cantar a Lilly Pons e a Rose Poncelle e que a minha vida é um aborrecimento sem fim e um desperdício. É melhor esquecer, deixar-me de divagações e elucubrações inúteis, o que tiver de ser será. Há-de tudo correr bem, ela vai amar-me, há-de amar-me talvez como nunca ninguém me amou. Não tanto, provavelmente, como Sarah amou Maurice Bendrix e Maurice Bendrix amou Sarah, mas eu contento-me com um pouco menos. O que me encanta e seduz é a possibilidade de conhecer enfim esse grande amor que só se vê nos filmes e que nos deixa a sonhar sentados no sofá à noite com um copo de vinho numa mão e um cigarro na outra, melancolicamente. O puro amor que resgata uma vida. O grande, o sublime amor. Hei-de conhecê-lo de novo antes de morrer, nem que para isso tenha de arriscar a minha própria vida, abandonar-me, correr o risco de perder o sentido da realidade e enlouquecer.

13 Fev. 2007

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