Monday, June 15, 2009

Uma importância "exagerada"

A frase saiu-me sem premeditação, ia eu a conduzir o carro pelas ruas da cidade: nas relações amorosas todos os acontecimentos adquirem uma dimensão exagerada.

O que acontece não tem em si mesmo, nunca, importância nenhuma. Se eu atropelar um gato e a vida de um gato me for indiferente, a morte do gato não me afectou e só pode ter importância para o gato e para quem eventualmente me tiver visto atropelar o gato. Isto é, o que acontece só tem importância porque há alguém que atribui alguma importância, uma importância particular, ao que acontece. Mas se eu não atribuir importância ao que acontece, isto é, se eu não interpretar o que acontece, se eu não investir de sentido o que acontece... então o que é viver, em que é que consiste a vida, andar no mundo? Se eu não lhe atribuo sentido, o que vale aquilo que acontece?

A questão reside, portanto, em saber o que é que eu queria dizer quando falava de atribuir ao que acontece uma importância “exagerada”. Se eu atribuo uma importância (uma significação) determinada a um acontecimento quando ele acontece e mais tarde lhe atribuo uma importância diferente – uma importância menor, por exemplo, mas pode também ser uma importância maior – isso implica que o acontecimento em si, como eu dizia há pouco, não tem qualquer significação independente da minha interpretação. “Exagerado”, portanto, só quer dizer alguma coisa se eu tiver uma referência, um termo de comparação. Isto é, eu só posso falar de importância “exagerada” se souber qual é a importância exacta, a importância correcta a atribuir ao que acontece. Ora quem sabe o que é a importância correcta, não exagerada, de seja o que for? Isso nem sequer existe, pois não há interpretação que seja independente da circunstância, dos interesses e da sensibilidade daquele que interpreta. Ou estou enganado e existe um critério de normalidade humana que permite em todos os casos avaliar a importância do que acontece sem a exagerar ou a diminuir?

Eu ia na rua e ouvi uma mulher dizer a outra: “se fosse hoje não me tinha divorciado, mas então eu era jovem e dei uma importância exagerada à infidelidade do meu marido”. O que a mulher disse corroborava a lógica do meu raciocínio, mas ainda assim fiquei confuso. O tempo que passa não devia ter tanta influência na nossa maneira de avaliar a importância do que acontece. Ou deve?

No comments: