Tuesday, May 26, 2009

A poesia é...

A poesia é o brinquedo dos adolescentes. Deixaram de brincar com os automóveis e com as bonecas, começaram a brincar com as palavras. Era inevitável: para explicar o que se sente, para desbravar a selva imensa (e intensa !) de tudo o que acontece na cabeça e no corpo, para tornar mais claras (digamos...) as relações com os outros. Para escapar ao grau zero da existência e da realidade (e ao tédio).

Talvez brincar com as palavras (language-games) seja menos perigoso (e mais barato) do que brincar com os objectos (casas, mesas, ruas, sentimentos, emoções, pessoas, conceitos, etc.) a que as palavras se referem. Mas se se tem em conta absolutamente tudo o que acontece não é seguro que seja verdade.

As palavras têm sabores, cores, formas, usam-se como a roupa da última moda. A realidade (o corpo?) em si mesma (em si mesmo?) é sempre chata (insuficiente); mas as palavras (a roupa, o estilo, as ideias) podem mudar tudo, se forem convincentes. Viver "como poeta" é defraudar-se através da ilusão para escapar à fraude que a existência é.

É preciso mostrar e corrigir o que os outros pensam que é a realidade a partir do nosso ponto de vista - e cada um de nós é o centro do mundo ou é o mundo, por isso é natural querermos contrapor a nossa ordem à daqueles que se imaginam detentores da sabedoria e da verdade. Nunca vamos suficientemente longe, a nossa rebelião tem fronteiras logo ali, nós somos tímidos. Apesar disso receamos excessivamente ter desrespeitado o senso comum.

Deixei de ler jornais há muito tempo. Os jornalistas têm todos os dias muitas visões do mundo (e da poesia) a propor-nos. Mas quem é que eles pensam que são?

As pesssoas têm uma maneira curiosa de considerar a poesia: servem-se dela para se afastar da realidade, usam-na como uma droga que lhes permite inventar a realidade à sua maneira ou para se deleitarem imaginariamente nos aspectos da realidade que ou estão escondidos (layers, layers, layers... Heidegger...) ou escapam à lógica da experiência do senso-comum e das necessidades consideradas primárias.

Os outros são sempre, aos nossos olhos, um tanto ou quanto (ou muito?) cegos.

A poesia é uma forma de mundanidade (eu não disse de humanidade, disse de mundanidade!) como qualquer outra. Nem sequer, a maior parte das vezes, superior.

A poesia é tanta coisa. E não é nada.

No fim só nos resta o corpo e o corpo morre.

E os outros ficam cá a brincar com as palavras. Good luck!

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