Tuesday, March 03, 2009

Reflexões sobre a poesia (XI)


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A maneira como as pessoas no quotidiano das relações que estabelecem entre si falam da realidade, da sua experiência, da vida em geral e do seu sentido, é imperfeita. Haverá uma maneira perfeita de falar seja do que for? Há outras coisas a dizer, há sempre outras coisas a dizer e outra maneira de as dizer. Há aspectos da realidade e da experiência que no nosso uso corrente da linguagem provavelmente não conseguimos revelar. Haverá? Wittgenstein creio que achava que não, que não há, mas esqueçamos isso. É por haver quem esteja em desacordo com Wittgenstein sobre a capacidade da linguagem corrente quotidiana em falar de tudo e com suficiente competência que há poetas e filósofos.

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A poesia e o discurso filosófico têm, ou pretendem ter, como formas de discurso especializado, uma solidez de pensamento e de organização que, em princípio, não se encontraria nos discursos correntes quotidianos, mais ou menos desorganizados, com as suas elipses, repetições, imprecisões, as suas mudanças bruscas e não anunciadas de perspectiva ou de assunto, a sua real ou aparente incapacidade de desenvolver longamente e em profundidade uma ideia.


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Além disso a poesia aspira a tocar-nos, enquanto linguagem, esteticamente, o que, sendo coisa vaga e difícil de definir, leva algumas pessoas ao puro disparate. A linguagem corrente de todos os dias, se não for imitação provinciana da linguagem literária (da linguagem da poesia, nomeadamente) tem ou pode ter beleza natural, tudo depende de quem a usa e da adequação do que se tem a dizer ao estilo que se adopta. Em contrapartida os vagidos estéticos da maior parte dos poetas são claramente pura excrescência, gordura balofa, celulite, infantilidade. Platão tinha toda a razão em querer ver-se livre dos poetas.

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Concentrada na resolução de problemas imediatos, a linguagem corrente não aprofundaria aquilo de que fala, seria apressada e pouco rigorosa. E no entanto há pessoas que desmentem na prática a pretensa imperfeição, superficialidade e carácter rudimentar da linguagem corrente. Desmentem-no pelo uso eficiente e até esplendoroso que fazem dela.

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Convém não esquecer que a linguagem pretensamente sem especialização, sem rótulo, sem ambição estética de todos os dias é também aquela em que falamos, nas nossas relações com outras pessoas, dos nossos problemas, do mundo, dos pormenores complexos da experiência em geral. A linguagem falada – ou, às vezes, escrita - de todos os dias é a linguagem da sedução amorosa, da intriga política. É a linguagem dos sonhos e dos projectos, das promessas e das traições, da verdade e da mentira com consequências graves, é a linguagem das recordações, dos lamentos e das alegrias. Não é apenas a linguagem de que nos servimos para explicar na garagem o que têm a fazer quando levamos o carro à revisão, pois não? Nem a linguagem em que o poeta fala da sua obra como se ela tivesse alguma importância.

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Se a ambição da poesia e do discurso filosófico é propor-nos um discurso capaz de superar, com a sua organização sólida, o seu pensamento profundo ou as suas graças gentilmente pueris, as deficiências atribuídas à linguagem de uso quotidiano corrente, o sucesso da ambição não está, porém, de modo algum garantido de antemão. Quero dizer: não é seguro que o discurso da poesia e da filosofia sejam por natureza superiores, em capacidade de aprofundamento e de revelação da experiência, em capacidade de falar da realidade, às formas de discurso despretensiosas. E não estou a inventar nada, pois outros, mais competentes do que eu, já o disseram antes de mim.

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A ambição estética pode tornar-se uma mania perniciosa. Uma compreensão defeituosa do que é o valor estético da linguagem dá origem a formas de discursos ridículas, que não só não trazem nada de novo ao mundo como provocam, num espírito lúcido e experiente, a consternação ou o riso. Que desperdício.

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Para entendermos em que consiste a poesia, o que é a poesia, devíamos concentrar-nos mais naquilo que a poesia diz e, isolando artificialmente a forma do conteúdo, esquecermos momentaneamente a maneira que a poesia tem de o dizer. Claro que é impossível: o conteúdo é forma, a forma é conteúdo; o sentido é forma, a forma tem sentido. E o problema é esse, precisamente: a forma, a roupa do poema, ou convive harmoniosamente com o que diz e a gente não sente um desnível entre o corpo (o sentido) e a roupa que o veste, revelando-o; ou o esforço domingueiro do poema, com a sua pretensão de se elevar acima da linguagem de toda a gente, torna o exercício e o autor do exercício risíveis. Mas as pessoas têm medo de se rir em público destas coisas porque embora vejam o rei nu receiam estar a ser vitimas de uma ilusão óptica.

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Casaco com mangas longas de mais, camisa com os colarinhos ao contrário, saia ou calças com dois metros a mais. O homem da aldeia ou da cidade quis deixar de ser homem da aldeia ou do seu bairro, não se sabe porquê, e vestiu roupa que em vez de o tornar elegante faz dele um palhaço. Não seria melhor ele ir de jeans à cidade, em mangas de camisa? Em vez disso aperaltou-se de tal modo que se assemelha, pela excentricidade involuntária, a uma prostituta decadente que perdeu a noção da sintaxe que rege o uso da maquilhagem e do vestuário nos lugares que frequenta. O homem da aldeia ou o homem do bairro não queria provavelmente dar nas vistas, queria apenas ser elegante, elevar-se acima da sua condição de homem do bairro ou da aldeia (que todos nós somos). Mas exagerou na brilhantina, no lustro dos sapatos, no nó e na cor da gravata, no corte do cabelo, nas atitudes, nos tamanhos, nos formatos. Exagerou no estilo, na ambição estética. Traiu-se. Olha-se para ele e imediatamente pensa-se: donde é que esta ave rara acaba de sair?

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É precisamente porque o conteúdo ou o sentido é forma e a forma é conteúdo ou sentido que a poesia, adoptando uma forma distinta da forma da linguagem corrente, denuncia a sua ambição de se elevar acima dessa linguagem corrente. A eficiência e a clareza imediatas, sem profundidade - elementares, espontâneas - seriam, por natureza, a ambição ou falta de ambição natural da linguagem corrente quotidiana, pouco preocupada com o que se designa por estilo. A poesia diz: a profundidade do pensamento e a beleza da linguagem e da experiência escapam à linguagem corrente, por isso eu sou necessária. A linguagem corrente comenta: vanitas vanitatis, vai indo que logo falamos.

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A poesia não existe? Claro que existe, mas nem sempre a encontramos onde parece que está. E muitas vezes aquilo que se pretende poesia é nitidamente inferior ao uso despretensioso da linguagem dita corrente e quotidiana que fala da experiência, do mundo, de nós. Demorei algum tempo a percebê-lo, mas para mim o mal-entendido terminou.

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