Sunday, March 08, 2009

Madame Bovary c'est nous

Madame Bovary c'est moi, disse Flaubert. Creio que demorei a entender o que ele queria dizer. Charles não parece merecer-lhe grande consideração, Flaubert exagera na coerência da sua caracterização como homem insignificante, bondoso e ingénuo (o romance seria melhor e corresponderia melhor à nossa experiência se Flaubert não justifcasse o comportamento de Emma fazendo de Charles um pobre diabo; passons...). Mas Flaubert acompanha Emma com interesse em todas as situações. Mostra-a sonhadora, frágil, infeliz, desorientada, iludida, cruelmente ou infantilmente astuciosa, mesquinha, ridícula, desamparada? Parece que sim. Os episódios em que se esboçam e preparam os passeios a cavalo com Rodolphe e as lições de piano em Rouen são simplesmente extraordinários e não se podem esquecer. Mas onde parece haver apenas distanciação crítica de Flaubert em relação a Emma podemos entender que há outra coisa: se Madame Bovary c'est moi, os mal-entendidos do desejo, a mentira, os delírios da insatisfação e da identidade, os excessos da esperança e os devaneios, o desespero da frustração e a parte de comédia que se inflitra na tragédia para a apressar não são apenas dela, são meus também.

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