Wednesday, February 25, 2009

Reflexões sobre a poesia (X)


1. A poesia, a ficção, a literatura. Fazem-se com sentimentos e com ideias? Isto é: sem sentimentos e sem ideias não se pode escrever poesia nem ficção? A resposta, provavelmente, é: e há alguém desprovido de sentimentos e de ideias? Comentário inevitável que alguém acrescentaria logo a seguir: os computadores podem escrever poesia e ficção, ao que parece, e os computadores não têm sentimentos nem ideias.

2. O produtor do texto (pessoa ou computador) não necessita de ter sentimentos nem ideias, basta-lhe ter capacidade de juntar palavras numa frase. Quem lê ou ouve é que tem sentimentos e ideias. As palavras e as frases criam e evocam sentidos e os sentidos sempre se referem de algum modo, em última análise, a sentimentos e a ideias. Mas sem haver quem lhes atribua a responsabilidade pela criação ou evocação de sentidos, de sentimentos, de ideias, as palavras são apenas desenhos que sujam a página, garatujas sem sentido.

3. A linguagem, então, sempre evoca e cria sentidos, sentimentos e ideias? Parece que sim. Mas se não houver quem olhe para o desenho das letras e identifique as palavras, não há linguagem, há apenas garatujas, desenho.

4. O sentido, os sentimentos, as ideias, estão nas pessoas, não na linguagem. As árvores, os rios, as montanhas também não têm sentido nem sentimentos nem ideias. Não significam nada. Mas contemplando a árvore, o rio e a montanha nós podemos sentir e pensar, podemos ter ideias e sentimentos. A árvore, o rio e a montanha têm, no processo da significação encarado desta perspectiva, o mesmo valor, o mesmo estatuto de existência que a linguagem. Limitam-se a ser, a existir, desprovidos de significação em si mesmos. Não há, depositados neles, sentimentos nem ideias. Eu é que, ao contemplá-los, posso sentir e pensar alguma coisa. Eles serviram de estímulo, mas quem cria sentidos e atribui significações, quem sente e pensa sou eu.

5. É impossível escapar ao sentido. Tudo tem sentido. Tudo tem sentido se houver quem, diferente dos objectos e fora dos objectos, sinta e pense. Os sentimentos e as ideias estão no receptor, que tem capacidade de interpretação (a competência para decifrar ou inventar sentidos, sentimentos e ideias está intimamente dependente da nossa experiência do “humano” ou da nossa experiência enquanto seres humanos). Nas palavras e nos objectos não estão depositados sentimentos nem ideias (se aquele que as juntou tinha sentimentos e ideias, semelhantes ou diferentes daqueles que as palavras nos inpiram, nós não poderemos nunca sabê-lo). O sentido, os sentimentos e as ideias estão, potencialmente, naquele que observa.

6. A linguagem é um produto humano, nela estão depositados séculos de experiência humana. Por isso é normal que as palavras - pouco importando quem ou o que as produziu - enquanto houver um ser humano que as leia ou oiça sempre acabem por ter algum sentido. Seja ele qual for, tenha ele, para quem interpreta, a coerência ou incoerência que tiver.

7. Embora a experiência da linguagem e a experiência da contemplação da natureza sejam experiências bastante diferentes, acontece qualquer coisa de semelhante quando contemplamos as montanhas, os rios, as árvores e o mar: eles não nos propõem nenhum sentido nem sentimento; somos nós que, inspirados por eles, sentimos, pensamos e atribuímos sentidos. O que aborrecia bastante Alberto Caeiro, como se sabe.

8. O processo que me leva a atribuir sentido a uma montanha, a um rio, a uma árvore, é inseparável da minha experiência. O sentido, os sentimentos e as ideias, consequentemente, têm a ver comigo, são produzidos por mim. Os objectos que me fizeram pensar e sentir são inocentes, serviram-me de estímulo mas não têm responsabilidade no que eu pensei e senti. O que eu pensei e senti é certamente diferente do que pensaria e sentiria outra pessoa, eu mesmo pensarei e sentirei diferentemente em ocasiões diferentes.

9. Os objectos que nos são exteriores, tudo o que nos é exterior, funcionam como estímulos. Montanhas, rios, árvores, pessoas que andam na rua, tudo objectos que me são exteriores. O meu próprio corpo também me é exterior: olhar ou tocar o meu braço pode provocar em mim sentimentos ou ideias nas quais o braço não tem qualquer responsabilidade, pois os braços não nos estimulam dirigindo numa direcção determinada a nossa reacção, condicionando o resultado do estímulo.

10. O que nos estimula não é responsável pela nossa resposta ao estímulo. A qualidade, as características do resultado do estímulo são da minha exclusiva responsabilidade. Eu sou apenas um dos inúmeros, incontáveis intérpretes ou produtores de sentido a partir de objectos que me são exteriores e que em sim mesmos nada significam. Cada ser humano é um criador e intérprete de sentidos a partir de objectos exteriores que funcionam como estímulos mas que não podem ser responsabilizados pelas consequências do estímulo.

11. O caso da linguagem enquanto estímulo exterior é distinto do caso da árvore, da montanha e do rio. No caso da linguagem as palavras são sinais, significam alguma coisa, porque fazem parte de um sistema de significação rigorosa, profundamente organizado. Convencionalmente organizado: produto humano, contrariamente às árvores, aos rios, às montanhas (embora haja lagos artificiais, montanhas artificiais, etc., isso não modifica a situação no essencial). As palavras significam alguma coisa porque eu aprendi a língua a que elas pertencem. As palavras das línguas que eu não conheço, se não se assemelham por alguma razão a palavras da língua que eu conheço, são para mim estímulos com um estatuto semelhante ao das árvores, dos rios, das pedras da calçada: objectos com uma forma, uma aparência exterior que me pode estimular, mas sem significação.

12. O que é um escritor, então? O que é um poeta? É alguém que escreve escolhendo e organizando as palavras de modo a suscitar no leitor (ou no ouvinte) determinadas ideias e sentimentos (quando falo de sentimentos talvez pudesse falar de emoções, mas eu prefiro usar a palavra “sentimentos” por me parecer mais neutra e ter um sentido mais alargado). Escrever poesia e ficção pressupõe capacidade de organização dos materiais utilizados (palavras e frases) para construir um objecto (o texto) com sentido (e intenções). Os escritores trabalham como os compositores musicais, com unidades de sentido que organizam em função dos objectivos em vista (e não quero dizer que os objectivos em vista sejam claros na mente ou no espírito do escritor). Isto é, os escritores escrevem de modo a provocar no leitor ou ouvinte determinados sentimentos e ideias – e não outros sentimentos e ideias nem quaisquer sentimentos e ideias.

13. Ao produzir o seu texto, o escritor estabelece simultaneamente limites de interpretação do que escreve, eliminando a possibilidade de o texto sugerir ou suscitar sentidos, sentimentos e ideias que ele abomina.

14. Todos os textos propõem ao leitor limites de interpretação definidos, mais ou menos rígidos e mais ou menos claros. Sem eliminação dos sentidos que não interessam não pode haver criação dos sentidos que interessam. É uma lei básica dos sistemas de significação. Com um R, a palavra PARA difere da palavra PAPA, que tem um P no ligar do R: presença do R ou do P, ausência do P ou do R.

15. Mas foi o escritor suficientemente competente e claro na realização da sua ambição? A perfeição, a coincidência perfeita entre as intenções e as realizações são sempre incertas, discutíveis e de algum modo também imprevisíveis. Todos sabemos o suficiente acerca da variedade e do conflito das interpretações (das diferenças no sentir e no entender) suscitadas pela mesma obra. A actividade do escritor é, por isso, uma actividade arriscada, os seus resultados são incertos. E o leitor é soberano. Prever com rigor absoluto o que a máquina de interpretar e de sentir que cada ser humano é não está ao alcance de ninguém. A literatura é uma actividade cheia de incertezas no que respeita aos resultados obtidos porque não existe uma interpretação única, nem um interprete único, perfeita uma e ideal o outro. Os intérpretes são sempre indivíduos como nós, não há intérpretes colectivos nem dotados de poderes e qualidades divinos, embora os diferentes intérpretes possam estar de acordo, ou pelo menos não estar em desacordo, em partes ou aspectos da interpretação que fazem do texto.


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