Tuesday, February 10, 2009

O canon

Há dias o Carlos Almeida chamou a minha atenção para a "recensão crítica" feita num blogue à prestação do Nuno Júdice numa sessão pública em Coimbra. Segundo entendi lendo a "recensão" , o Nuno é um chato. E além de ser um chato, está convencido de que é o Papa actual da poesia portuguesa, o que inspira revoltas indignadas nalguns círculos. A questão passa-me completamente ao lado e nem me parece merecer discussão séria. Cada um tem os Papas que lhe apetecer e de que necessita para ser feliz ou infeliz e fazer andar o negócio da sua existência. Eu sou ateu e a consolação metafísica das religiões não está ao meu alcance. Mas se convidaram o Nuno a ir a Coimbra exibir-se em público, provavelmente foi porque de algum modo lhe reconhecem mérito e certa autoridade em questões de poesia. Que o Nuno, convidado como Papa, se tenha recusado a decretar, ou pelo menos a sugerir amavelmente, quem são os cardeais da poesia portuguesa actual (alguns dos quais, segundo o autor da "recensão crítica", se encontrariam na sala) chocou, decepcionou, entediou. Fica-me a impressão pelo que li na "recensão crítica" que o Nuno, solicitado a "cooperar" gregorianamente, fez um manguito. É lá com ele, está no seu direito, a reputação dele é dele. Falo nisto porque me parece que estamos perante um episódio interessante (o que não quer dizer original nem importante) das letras portuguesas actuais: na contemporaneidade não é só nas páginas literárias dos jornais nem nos manuais de literatura que se vai travando a luta por um lugar ao sol do canon, seja o que for que isso possa valer aos beneficiados; os blogues, sem esquecer os comentários muitas vezes solidários dos seus leitores, e outras semelhantes mundanas diversões, querem desempenhar um papel semelhante. Certamente desempenham, em círculos restritos. Eu não acho bem nem acho mal, a realidade é o que é e se me aflige é por razões mais terra a terra.


P. S. Depois de ler o que ficou escrito acima é indispensável ler a versão que Osvaldo Silvestre, em sério desacordo com o autor da "recensão crítica" citada (Luís Januário?), escreveu nos Livros Ardem Mal (só agora a vi).

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