Sunday, December 28, 2008

Católicos e Protestantes: as razões da Reforma segundo Max Weber

A historical question then arises however as to the reason for this particularly strong predisposition of the economically most developed regions toward a revolution in the Church. And here the answer is by no means as simple as one might at first believe. Certainly, the casting aside of economic traditionalism seems to be one phenomenon that was bound to lend strong support to the tendency to call into question religious traditions and to rebel against traditional authorities. But what is often forgotten is that the Reformation meant less the entire removal of ecclesiastical authority over life than the replacement of the previous form of authority by a different one. It meant, in fact, the replacement of an extremely relaxed, practically imperceptible, and scarcely more than formal authority by an infinitely burdensome and earnest regimentation of the conduct of life [Lebensfuhrung], which penetrated every sphere of domestic and public life to the greatest degree imaginable. Today, even peoples of thoroughly modern economic character can tolerate the rule of the Catholic Church- "punishing heretics, but treating sinners gently," a principle that applied even more strongly in the sixteenth century than it does today; but the rule of Calvinism, as exercised in the sixteenth centuy in Geneva and Scotland, at the turn of the sixteenth and seventeentt centuries in large parts of the Netherlands, in the seventeenth centuy in New England, and at times even in England, would be for us simply the most unbearable form of ecclesiastical control over the individual that it would be possible to imagine.

What the reformers in the countries with the highest economic development disapproved of was not that there was too much but rather that there was too little ecclesiastical and religious control of life.

Max Weber, The Protestant Ethic and the “Spirit” of Capitalism, 1905/1920

Friday, December 26, 2008

"Clever beasts invented knowing"

Once upon a time, in some out of the way corner of that universe which is dispersed into numberless twinkling solar systems, there was a star upon which clever beasts invented knowing. That was the most arrogant and mendacious minute of "world history,” but nevertheless, it was only a minute. After nature had drawn a few breaths, the star cooled and congealed, and the clever beasts had to die. - One might invent such fable, and yet he still would not have adequately illustrated how miserable, how shadowy and transient, how aimless and arbitrary the human intellect looks within nature. There were eternities during which it did not exist. And when it is all over with the human intellect, nothing will have happened. For this intellect has no additional mission which would lead it beyond human life. Rather, it is human, and only its possessor and begetter takes it so solemnly - as though the world's axis turned within it. But if we could communicate with the gnat, we would learn that he likewise flies through the air with the same solemnity, that he feels the flying center of the universe within himself. There is nothing so reprehensible and unimportant in nature that it would not immediately swell up like a balloon at the slightest puff of this power of knowing. And just as every porter wants to have an admirer, so even the proudest of men, the philosopher, supposes that he sees on all sides the eyes of the universe telescopically focused upon his action and thought.

in The Nietzsche Reader, edited by Keith Ansell Pearson
and Duncan Large, Blackwell Publishing, 2006, p. 114

Monday, December 22, 2008

Reflexões ingénuas sobre a linguagem (2)




1. As maquinações do desejo provavelmente são inexplicáveis. Ou não temos coragem de assumir as razões ou não temos capacidade de as entender. Como há mil interpretações e justificações possíveis para os nossos actos e decisões, a filosofia e a literatura florescem. Sem linguagem que nos permite especular, como seria a nossa existência? Mais verdadeira? Mais confusa? Seria insuportável não poder explicar, não poder justificar-se?

2. Antes de morrer, Schumann, que atravessava grave crise mental, quis reescrever toda a sua música. Achava que o que tinha escrito estava fora do tom. O que é o tom, então, e qual é a importância da tonalidade na organização da sintaxe musical? Aplicada à linguagem falada e escrita qual seria a consequência de tamanha dúvida e remorso?

3. Aqueles que nos adulam, e os que dizem que nos amam ou que nos odeiam, não deviam estar tão seguros de si quando falam connosco. Os aduladores, se não estamos temporariamente ou definitivamente corrompidos pela vaidade, é fácil ignorá-los, ouvi-los sem lhes prestar muita atenção ou dar crédito. Nos casos em que é o pretenso amor ou o pretenso ódio que se exprimem directamente e veementemente através da linguagem as coisas não são tão simples. Facilmente podemos acreditar no que ouvimos. É possível que quem nos fala seja sincero, acredite no que está a dizer. Mas não seria difícil, em cada caso, provocar alguma dúvida no espírito de quem se crê tão seguro de si. A vontade de agradar ou ofender são evidentes, as palavras têm um valor que se pode considerar eticamente monetário. Mas as fronteiras entre os sentimentos são muito ténues. O que será aquilo a que chamamos amor ou ódio, o que é um sentimento exactamente? A que entidades obscuras e sem nome se referem as palavras que usamos com tanta aparente segurança como moeda de troca no comércio das relações humanas?

4. Nós dizemos a alguém “não posso viver sem ti” – mas vivemos. Alguns sentimentais suicidam-se, mas são a excepção rara. Que valem as palavras, então? Não se podem levar à letra, pelos vistos. A poesia medieval galaico-portuguesa já glosou ironicamente e sarcasticamente o tema: o poeta morria de amor mas em breve, farsante, ressuscitava. A nossa consciência da pouca validade das palavras ditas surge noutros poemas galaico-portugueses da Idade Média em que o narrador se queixa dos embusteiros que enganam as mulheres dizendo-lhes que as amam quando na realidade só querem aproveitar-se delas. Por causa desses falsos amadores, diz um poeta, sofrem aqueles que amam de verdade, sinceramente. Quem nos garante, no entanto, e quem garante àquela ou àquele que ouve as palavras de amor, que quem as pronuncia não é apenas um exímio e talentoso trapaceiro? Ou alguém que simplesmente não sabe o que diz e diz não importa o quê?

5. Interpretar as frases de uma língua em sentido literal é ao mesmo tempo necessário, tem de se começar por aí, e muito arriscado. O dicionário não tem em conta outros elementos indispensáveis à compreensão da mensagem, nem pode prever as intenções dos interlocutores. A situação em que surgem as palavras, a personalidade e a competência de quem as diz e de quem as ouve, são no entanto elementos que não podem nunca deixar de ser tidos em conta. Além disso, e independentemente das outras condições já referidas, as palavras adquirem importância e sentidos diferentes quando se juntam a outras palavras, quando estão em companhia. O sentido literal é apenas a primeira cara com que nos aparecem as palavras e as frases e por isso, mesmo se nos induz em erro ou se revela imperfeito à partida, seria difícil querer evitar essa etapa ou querer diminuir a sua importância.

6. A linguagem nunca é totalmente clara, se é que alguma vez o é satisfatoriamente. Os mal-entendidos nunca terão fim: por deficiência, à partida, da própria linguagem; muitas vezes por incompetência ou competência imperfeita de quem usa a linguagem; e porque, conscientes apesar de tudo dessa insuficiência da linguagem - e talvez da sua própria incompetência - os seres humanos têm tendência a utilizar as debilidades da linguagem em seu proveito, a priori ou a posteriori. Ainda assim vamos indo, surgem edifícios novos todos os dias em qualquer parte na cidade, abrem-se estradas, joga-se futebol, a tuberculose deixou de ser uma doença a que não se pode escapar, Obama já prometeu fechar o campo de concentração de Guantanamo. Apesar de tão imperfeita, a linguagem serve, tem servido para alguma coisa – e nem sempre para destruir, para mentir e deformar, para subjugar, nem sempre para complicar o que deveria permanecer simples.

7. Será possível um dia fazer um back-up completo do cérebro humano semelhante ao que hoje se faz do disco duro de um computador? Seria divertido por mil razões.

Monday, December 15, 2008

Parvoíces

Não sei que fazer com as pessoas que, tomando-me por mais parvo do que sou, me vêm contar histórias inverosímeis. Querem dinheiro, querem favores, querem aproveitar-se da situação para levar a cabo os seus projectos manhosos. Convidam-me para jantar ou para tomar café, eu pergunto-me logo porquê, mas dou-lhes o benefício da dúvida, quem sabe, talvez queiram conversar comigo e passar algum tempo na minha companhia por amizade. Engano-me. Eles não têm consideração pela pessoa que eu sou, devem imaginar que eu sou tolo, pensam que é fácil convencer-me de que sou uma pessoa importante, por exemplo, coisa que eu não sou, nunca fui, nunca serei. Sentam-se na minha frente, fazem umas caretas, movem o corpo na cadeira, começam o processo da sedução. E então põem-se a falar. Com alguns cuidados, mas não os necessários, pois eu vou-me apercebendo do andar da carruagem, vou tomando nota, vou aguardando pelo momento da verdade. Nada a fazer, eles não têm cura nem salvação. É só interesse, é só manha nos sorrisos e nas falsas confidências, é só adulação, é só subterfúgio. Que fazer, digam-me, com gente assim, sem escrúpulos, sem miolos, sem vergonha? Quando chego a casa, meio irritado por ter perdido o meu tempo com pessoas que não souberam aproveitar a oportunidade que eu lhes dei de arrepiar caminho e de se redimir, devia escrever-lhes: quem é que você acha que é para acreditar que me pode enganar tão facilmente com as suas histórias estúpidas, com os seus sorrisos teatrais, com as suas estratégias doentias de débil mental? Quem? Mas não faço nada. Devia cortar relações com gente assim definitivamente. Mas tenho pena deles, o mundo é imperfeito, nós, seres humanos, somos muito imperfeitos. E perdoo-lhes. Não me vão ver tão depressa, não aceitarei convites para ir jantar ou tomar café, é certo, mas não tomo medidas mais drásticas. Fico em casa ou vou sozinho ao café ou jantar ao restaurante, pelo menos sei com o que posso contar. O espectáculo degradante da luta mesquinha pela vida deprime-me. Apetece-me muitas vezes e cada vez mais fugir para longe, para muito longe, nunca mais os ver. Mas ainda não chegou o momento, tenho de suportá-los ainda durante algum tempo. Eles não me impedem de me concentrar no essencial, não me desviam do meu caminho, não conseguem fazer-me duvidar. Se eles percebessem isso. Mas eles sabem uma coisa: por distracção, por indiferença, ou num gesto brusco de generosidade nascido do cansaço, acontece-me às vezes dar-lhes o que eles pedem. E eles ficam convencidos de que foram brilhantes, de que não foi muito difícil dar-me a volta. Unem-se uns aos outros, conversam em segredo nas minhas costas, criticam a maneira desabrida como às vezes, farto de assistir aos episódios em que sua ambição vai tentando perverter o decorrer das coisas, os meto na ordem. Bom proveito, penso eu. Às vezes desabafo sozinho em casa, enquanto vou da cozinha para a casa de banho: o que é que eu estou aqui a fazer no meio desta cambada de imbecis sem princípios nem cultura nem bom senso? Puta que os pariu, deixem-me em paz. De qualquer modo, quando me vem a vontade de fugir, de me afastar de vez desta podridão, sou obrigado a cair em mim: onde é que há gente diferente, que não ande constantemente a intrigar para proteger e promover os seus interesses, mesquinhamente? O mundo está cheio de vícios. Vivemos no meio do vício, da ignorância, da estupidez. É melhor fecharmos um pouco os olhos para não cairmos na tentação de dar um pontapé em tudo, de denunciar na praça pública a podridão em que eles se atolam e nos querem atolar. Algumas pessoas vão tentando remar contra a maré. Mas são uma minoria ridícula. E dessa minoria ridícula nem todos entenderam ainda suficientemente os requintes malvados da ambição à procura de satisfazer-se. A vida continua, nada muda. As coisas já eram assim quando nós chegámos, continuarão assim quando nós nos formos embora para sempre.

Thursday, December 11, 2008

Invasão

Cada palavra uma complicação, um mundo. Episódios, cenas, confusões, umas atrás das outras, umas dentro das outras. Por isso achei preferível calar-me e fazer por não ouvir tudo o que se diz. Evitava a companhia de outras pessoas, gostava de estar em casa, só. Olhava para a parede. Fazia por não pensar. Ia a caminho do silêncio, fazia por criar à minha volta o vazio, no espírito. Não era fácil. As palavras atacavam-me de todos os lados, não renunciavam. Eu punha a mão no rosto impertinente da palavra que se aproximava de sorriso nos dentes, que tentava seduzir-me. Empurrava-a sem piedade para o precipício do nada. Logo a seguir surgia outra palavra e eu repetia o processo: mão firme na cara da palavra, empurrão para o despenhadeiro de onde não se volta. Mas elas voltavam, renasciam das cinzas, não desistiam de me atacar. Cansado, eu sentava-me na cama. Distraía-me de ter cuidado e as palavras, então, reorganizavam-se com mais subtileza e manha, era um exército experiente e tenaz a querer invadir a minha solidão. Tanta insistência era despropositada. O que é que elas queriam? Queriam, cheias de ambição, forçar a entrada. Vinham com o seu mundo, o seu sentido, os pesadelos e as mágoas, os risos e as alegrias de que era necessário desconfiar. Cada palavra uma caixa repleta de surpresas, cheia de sentimentos contraditórios. Mais tarde eu adormecia. Mas a luta repetia-se quotidianamente. A invasão do sentido, a agressão, o desplante, não paravam. Um dia eu seria capaz de as enfrentar friamente, sem ir alem da superfície. Deixaria de ver para além da sua materialidade insignificante, não teria necessidade de me cansar a empurrá-las para fora da minha vista. Seria como olhar para o vazio sem sofrer a ausência do mundo. Por ora faltava-me ainda a experiência, eu não era suficientemente forte para correr riscos inúteis, por isso tinha de me libertar delas afastando-as como se afasta uma mosca obstinada. As palavras não são pessoas exactamente, embora se lhes possam comparar.

Sunday, December 07, 2008

Reflexões ingénuas sobre a linguagem

1. Em francês diz-se lapin, em inglês diz-se rabbit, em português diz-se coelho. Aquilo a que se referem as palavras é sempre a mesma coisa, o mesmo “objecto”, mas as palavras são diferentes em cada caso. É necessária uma prova mais convincente do carácter arbitrário, na origem, da relação entre uma palavra e o seu referente? A relação entre a palavra e o referente pode parecer natural porque nós aprendemo-la em vez de apreender outra: o que se apreende no berço, inocentemente, tem tendência a ser visto e sentido como “natural”, como a única solução possível, como a palavra de Deus sobre o mundo. Mas como o prova a existência em línguas distintas de palavras diferentes para o mesmo objecto, essa relação é artificial, é aprendida, nasce de uma convenção. Esta simples observação tem enormes consequências na minha maneira de entender o mundo e tudo o que me acontece.

2. O acordo ortográfico, a que não tenho prestado grande atenção porque é uma coisa supérflua para mim, parece que quer que eu escreva predileção em vez de predilecção. Quer que eu tire da fotografia mental que tenho da palavra uma letra: o c. Não estou de acordo. Acho um abuso. Eu aprendi o que aprendi e não estou disposto a mudar as coisas só porque os detentores do poder político decretaram que eu devo fazê-lo. Já agora, não querem tirar mais nada? Se eu escrever prdileção não me afasto muito do que de facto pronuncio quando digo a palavra, por isso tirem também o e. Só que a palavra tem uma cara e o que me estão a pedir é que mude a cara à palavra. Eu sei que a cara das pessoas vai mudando com o tempo e a gente habitua-se a isso. Mas as palavras não são pessoas exactamente, embora se lhes possam comparar. Continuarei a escrever predilecção.

3. Os analfabetos não distinguem uma cadeira de uma mesa nem uma árvore de uma montanha ou de um banco de jardim? Claro que distinguem. Além disso, mesmo sem saberem ler nem escrever, podem falar, namoram, fazem filhos, jogam futebol, aparecem na televisão, ajudam a apagar os incêndios, insultam os árbitros. Por exemplo. Qual é a utilidade da linguagem escrita, então, em que é que a existência de quem não sabe ler nem escrever é menos profunda, mais desorganizada ou mais absurda do que a de quem sabe? Estou aqui sentado no café a escrever, mas podia estar apenas aqui sentado no café a pensar em tudo o que escrevi ou noutra coisa. Qual seria a diferença? Não sei, não me apetece pensar no assunto. Se eu não soubesse escrever não podia contar o que contei, é certo. Mas o que é que se perdia por isso?

Tuesday, December 02, 2008

Cellist Matt Haimovitz Plays Ligeti mvmt I

To safeguard an easy life

When the first cities were formed from families, the lawless liberty of the nobles caused them to resist any checks and burdens: witness the aristocracies in which the nobles rule as lords. Later, when the plebeians become numerous and grown warlike, the nobles were obliged to bear the same laws and burdens as the plebs: witness the nobility in democracies. Finally, to safeguard their easy lives, the nobles were naturally inclined to submit to a single ruler: witness the nobility under monarchies. 

Giambattista Vico