Sunday, November 30, 2008

Parker String Quartet plays Ligeti for NAXOS records

Um poema de Bruno Béu

lux aeterna, depois de ligeti

escrevo isto porque é importante
dizer-te que acabaram as velas
cá em casa e se a luz um dia
faltar fico completamente às escuras

Saturday, November 29, 2008

Um poema de Susana Miguel


há muito tempo que conversamos sobre as coisas
que não têm um lugar fixo nos móveis. a moldura é pequena
e mesmo assim, nela a imagem, a única a lembrar-nos
o apartamento e alguns objectos que aconteceram
naquele dia. às vezes, as plantas eram colocadas no chão
da varanda, perto da sombra causada pela roupa do estendal
ou ao lado da estante de pinho, no quadrado da sala.
temos de dar um lugar certo às coisas, um lugar onde
possam morrer para depois ficarem aqui, presas aos olhos
como uma luz sépia a confundir-nos o corpo todo e
a parte mais funda da terra. não havia mais nada
para dizer e tu inventavas as horas da tarde e o bairro
da tua rua era uma extensão de pessoas a esquecer
promessas e a olhar ao cimo, as duas torres da igreja.
naquela manhã pouco importaram as conversas. ela deixara
o quarto meticulosamente arrumado e a sopa ainda
ao lume. ninguém diria que teria sido possível vê-la
morrer assim, de pulsos cortados.

Thursday, November 27, 2008

Frágeis consensos



Um autor, um livro, podem ser descobertos ou redescobertos ciclicamente por gerações sucessivas. Em vida do autor ou depois de ele ter deixado de escrever. Que significa ser “descoberto” ou “redescoberto”? Significa que em vez de ler e passar à frente, a outra coisa, o leitor se detém, intrigado, e voltará mais tarde aos textos com atenção, curiosidade, interesse, interrogações. O que confere a um texto essa capacidade de suscitar e merecer a atenção que lhe dá existência já é mais difícil de explicar e depende da formação, competência, experiência e interesses do leitor. Como os leitores divergem na formação, nos interesses e na experiência, o mesmo texto pode não merecer qualquer atenção ou merecer atenção sincera em graus diferentes e por razões diferentes. E é assim que se vai escrevendo a história literária, se vai construindo, corrigindo, fazendo e desfazendo aquilo a que chamamos “o canon”. Consenso na formação, na experiência, na competência, nos interesses são a origem da história cultural de um país.

Mas os consensos, como as democracias, não nascem da superioridade, nascem da existência de maiorias. E as maiorias, por vezes ou em certos aspectos, têm razão, estão acima da suspeita de incompetência, e outras vezes não têm razão e limitam-se a partilhar conhecimentos e opiniões que para quem não faz parte dessas maiorias democráticas são contestáveis ou fruto de alguma forma de imaturidade, alienação ou incompetência.

Os consensos, em questões de literatura, são tão políticos e ideológicos como o consenso politico propriamente dito. Embora eventualmente nos queiram fazer crer o contrário. Separar opiniões, politicas ou culturais, das razões ideológicas e da competência que as justificam é um erro de perspectiva alimentado pelo carácter supostamente excepcional e particular, específico, das actividades ditas culturais: nenhuma actividade humana escapa às leis da competência, do saber, nem à ideologia entendida num sentido amplo (não no sentido de oposições simplistas do tipo esquerda/direita, liberalismo/socialismo, evidentemente). E não servirá de muito discutir ou entrar em polémicas: situados em lugares diferentes na galeria dos espectadores, na assembleia das diferenças de classe e de interesses, na escada do tempo, cada indivíduo ou grupo terá as suas razões válidas para escolher o que escolheu, valorizar e desvalorizar o que valorizou e desvalorizou. O mundo não é um espaço uniforme, nele coexistem os tempos mais diversos, alguns estão no início do percurso da aprendizagem e do conhecimento, outros estão no meio, outros estão no fim, sem que se possa esclarecer com rigor em todos os casos a posição de cada um.

Querer explicar uma sociedade sem ter em conta que ela é constituída por indivíduos e grupos sociais que apesar de coexistirem no mesmo espaço geográfico, político, cultural, são dotados de competência e de interesses diferentes, e que além disso se encontram em tempos diferentes na escada do tempo é um curioso mal-entendido.

P. S. Referindo-se a estas observações, Carlos Almeida lembra-me no seu blogue a existência de Stanley Fish - e podia ter-me lembrado também a de Wolfang Iser e outros. Acontece que estive há dias num exame preliminar de PH.D. e que ao ouvir discorrer, entusiasticamente, inteligentes colegas latino-americanos mais jovens não me senti forçosamente membro obediente da comunidade de interpretação a que teoricamente ou institucionalmente pertenço. Donc, je ne suis pas d'accord avec Fish sur ce point - ni sur d'autres, pois eu vejo o texto de um lado e o leitor do outro, sim, mas ambos cheios de potencialidades imprevisíveis e nenhum deles auto-suficiente. A relação do leitor com o texto é uma relação condicionada nos dois sentidos, não num só. Por outro lado a minha noção de "competência" não tem nada a ver com "competência universitária" e só parcialmente corresponderá a qualquer comunidade. A chamada "competência universitária" e aqueles que a tentam imitar sem fazerem parte do grupo têm frequentemente uma característica muito particular: a preocupação de conferir legitimidade e vestimenta de cerimónia à interpretação banal dos textos confere elevação e complexidade despropositadas àquilo de que se quer fazer assunto e tese, complica o que é simples e passa ao lado do que é importante, recorre à citação abundante e despropositada de Freud, de Nietzsche, de Derrida, de Benjamin, etc., para explicar situações que a linguagem e a sabedoria mais comuns podem explicar sem cair no ridículo da solenidade inadequada. As universidades e os jornais estão cheios de especialistas da alma com muito estilo mas cuja sabedoria e gosto não ultrapassa muitas vezes o grau de entendimento e de experiência de qualquer doméstica mãe de familia ou consciencioso contabilista comercial, tomados ambos aqui apenas como tipos sociais eventualmente inexistentes.

Friday, November 21, 2008

Sobre os mortos

Honrar os mortos é honrar os vivos. Os antigos gregos honravam ou aviltavam os mortos segundo o respeito ou desrespeito que tinham mostrado, no seu comportamento, pelas leis da cidade. Não somos cães, não é?

As palavras ditas diante dos mortos conseguem às vezes ter sentido e transmitir emoção verdadeira. Mas quando se escreve sobre os mortos cai-se quase sempre numa banalidade confrangedora. Encontrar palavras para a dor, para a perplexidade, é muito difícil. Por isso o discurso sobre a dor é em geral pobre: em vez de nos calarmos, falamos em vão. A experiência directa da morte é chocante porque a morte acontece com a mesma ilusória banalidade com que se fecha uma porta ou uma folha cai de uma árvore.

Thursday, November 20, 2008

Tadeusz Kantor, avant-garde theater

Há muitos anos assisti, no Festival de Avignon, duas vezes, à representação da peça Que Crèvent les Artistes. Kantor estava de pé à entrada do palco, de fato escuro, como um chefe de orquestra atento e silencioso. Numa das noites alguns espectadores, como havia falta de lugares, foram sentar-se nuns degraus muito perto da cena. Kantor interrompeu o espectáculo e mandou-os sair de lá. A segunda vez que assisti ao espectáculo não tinha bilhete, mas como tinha conhecido uma pessoa que fazia parte da troupe ajudei a levar um cesto com fruta e pude entrar. Na minha vida toda devo ter visto uns 3 espectáculos de teatro realmente importantes e por isso inesquecíveis. A peça de Kantor em Avignon foi o que mais me tocou. Kantor fez-me compreender, entre muitas outras coisas, que o teatro não tem de ser escrito, pois pode ser construído com os actores.

Sunday, November 16, 2008

There are no educators

As a thinker, one should speak only of self-education. The education of youth by others is either an experiment, conducted on one as yet unknown and unknowable, or a leveling on principle, to make the new character, whatever it may be, conform to the habits and customs that prevail: in both cases, therefore, something unworthy of the thinker - the work of parents and teachers, whom an audaciously honest person has called nos ennemis naturels. One day, when in the opinion of the world one has long been educated, one discovers oneself: that is where the task of the thinker begins; now the time has come to invoke his aid - not as an educator but as one who has educated himself and thus has experience.

Nietzsche, "The wanderer and his shadow"

Tuesday, November 11, 2008

Subtilezas

Na primeira página do jornal O Público de hoje, dia 12 de Novembro, leio, num título em letras maiores do que o texto da notícia, que "Sócrates diz estar preocupado com dificuldades sentidas pelas empresas". Tudo bem, Sócrates terá dito isso. Na mesma página leio outro título: "cinco dezenas de empresas fugiram ao pagamento de um milhão de euros em impostos". No texto desta última notícia acrescenta-se que "o Ministério Público, a Direcção de Finanças de Lisboa e a GNR identificaram hoje, na Grande Lisboa, mais de cinco dezenas de empresas, maioritariamente do sector da construção, que estarão envolvidas na emissão de facturas falsas e que terão conseguido fugir ao pagamento de um milhão de euros em impostos." A minha perplexidade era inevitável: no primeiro caso, o título da notícia distancia-se de Sócrates, que diz que está preocupado... mas não se sabe bem se está. No segundo caso a informação sobre quem diz que as empresas fugiram ao pagamento de impostos vem de organismos governamentais, mas é apresentada no título como sendo uma verdade indiscutível. Não sei o que é que terá justificado a diferença de tratamento, visto que Sócrates, como se lê no corpo da notícia, também terá dito que "o Governo está preocupado com as empresas e tudo fará para as ajudar a enfrentar as dificuldades". Subtilezas de jornalistas.

Wednesday, November 05, 2008

The American way: survive, multiply, transform...

“I interpret this remark [truth is a mobile army of metaphors”, Nietzsche] along the lines of my discussion of Davidson’s treatment of metaphor in Part II of Volume I. I take its point to be that sentences are the only thing that can be true of false, that our repertoire of sentences grows as history goes along, and that this growth is largely a matter of the literalization of novel metaphors. Thinking of truth in this way helps us switch over from a Cartesian-Kantian picture of intellectual progress (as a better and better fit between mind and world) to a Darwinian picture (as an increasing ability to shape the tools needed to help the species survive, multiply, and transform itself).”

Richard Rorty, Philosophical Papers, volume II,
Essays on Heidegger and others. Cambridge
University Press, 1991