Friday, October 24, 2008

Why?

Como é que a "forma" é "significante" e "expressiva"? Porquê? Quem é que decide, como é que se avalia?

Sunday, October 19, 2008

"Significant Form"

WHAT DISTINGUISHES a work of art from a "mere" artifact? (…) To reply, "Its beauty," is simply to beg the question, since artistic value is beauty in the broadest sense. (…) In the words of a well-known critic, Mr. Clive Bell, " 'Significant Form' is the one quality common to all works of visual art." Professor L. A. Reid, a philosopher well versed in the problems of aesthetics, extends the scope of this characteristic to all art whatsoever. For him, "Beauty is just expressiveness," and "the true aesthetic form ... is expressive form." Another art critic, Mr. Roger Fry, accepts the term "Significant Form," though he frankly cannot define its meaning. From the contemplation of (say) a beautiful pot, and as an effect of its harmony of line and texture and color, "there comes to us," he says, "a feeling of purpose; we feel that all these sensually logical conformities are the outcome of a particular feeling, or of what, for want of a better word, we call an idea; and we may even say that the pot is the expression of an idea in the artist's mind." After many efforts to define the notion of artistic expressiveness, he concludes: "I seem to be unable at present to get beyond this vague adumbration of significant form. Flaubert's 'expression of the idea' seems to me to correspond exactly to what I mean, but alas! he never explained, and probably could not, what he meant by the 'idea.' "

There is a strong tendency today to treat art as a significant phenomenon rather than as a pleasurable experience, a gratification of the senses. This is probably due to the free use of dissonance and so-called "ugliness" by our leading artists in all fields - in literature, music, and the plastic arts. It may also be due in some measure to the striking indifference of the uneducated masses to artistic values. In past ages these masses had no access to great works of art; music and painting and even books were the pleasures of the wealthy; it could be assumed that the poor and vulgar would enjoy art if they could have it. But now, since everybody can read, visit museums, and hear great music at least over the radio, the judgment of the masses on these things has become a reality, and has made it quite obvious that great art is not a direct sensuous pleasure. If it were, it would appeal - like cake or cocktails - to the untutored as well as to the cultured taste. This fact, together with the intrinsic "unpleasantness" of much contemporary art, would naturally weaken any theory that treated art as pure pleasure. Add to this the current logical and psychological interest in symbolism, in expressive media and the articulation of ideas, and we need not look far ahead for a new philosophy of art, based upon the concept of "significant form."

Susanne K. Langer, Philosophy in a New Key, A Mentor
Book, Published by the New American Library, New York
and Toronto, 1942, 1951


"The Engineer' s Æsthetic and architecture-two things that march together and follow one from the other-the one at its full height, the other in an unhappy state of retrogression.
The Engineer, inspired by the law of Economy and governed by mathematical calculation, puts us in accord with the universal law. He achieves harmony.
The architect, by his arrangement of forms, realises an order which is a pure creation of his spirit ; by forms and shapes he affects our senses to an accute degree, and provokes plastic emotions ; by the relationships which he creates he wakes in us profound echoes, he gives us the measure of an order which we feel to be in accordance with that of our world, he determines the various movements of our heart and of our understanding ; it is then that we experience the sense of beauty."

Le Corbusier

(sent to me by Stéphane, my preferred architect...)

Tuesday, October 14, 2008

”Por qué no te callas? ”

Parece que Herberto Helder publicou um livro com poemas "inéditos". INÉDITOS: é isso que tem sido posto em evidência. O Henrique Fialho, que é autor de um livro cheio de refexões interessantes sobre poesia (O Meu Cinzeiro Azul), já escreveu sobre o assunto palavras sensatas e convincentes. O Manuel Domingos também. Eu acho que Herberto Helder é um poeta importante, evidentemente, mas o poema inédito que Sérgio Lavos cita no blogue Auto-Retrato – blogue que eu respeito e leio com prazer - merecerá tanta preocupação? Eu não vi nada de "inédito" no poema do Herberto Helder.

O poema citado de Herberto Helder e os poemas do mesmo estilo publicados antes por muitos outros poetas incluem-se num registo conhecido: o do ”porque não te calas?” Isto é: deixa-me falar a mim, que sou poeta - e tu reduz-te à tua insignificância porque não percebes nada do assunto. É um tópico frequente entre os poetas e entre os críticos de poesia que têm os seus poetas preferidos e recusam os que não aderem ao código que lhes serve de norma.

Porque perdem os poetas e os críticos tanto tempo a vituperar ou insultar os outros poetas, os que são maus e nem poetas são afinal, em vez de utilizar a lucidez, a sabedoria, a experiência e competência linguística próprias para escrever os melhores poemas, aqueles que não serão banais e hão-de suscitar por séculos sem fim admiração sem limites? O poema de Herberto Helder citado pelo Sérgio não resolve a questão, limita-se a relançá-la - e portanto, mesmo se o que o poema diz é acertado e justificado, é um poema falhado ou um poema apenas interessante sobre a própria incapacidade poética do seu autor. O tópico que ele trata é tão velho como a própria poesia e já se encontra na poesia medieval galego-portuguesa. E não há mal nenhum nisso. Mas tanto barulho acerca de inéditos que nada acrescentam à obra de Herberto Helder nem à poesia portuguesa contemporânea é sintoma de enorme confusão e de falta de assunto.

A poesia de Joaquim Manuel Magalhães, também citado pelo Sérgio, que considera Magalhães um dos raros poetas que depois de Herberto Helder teriam escrito uma poesia diferente e digna de atenção, está cheia de diatribes semelhantes às do poema citado de Herberto Helder contra os outros poetas, contra os críticos, contra as pessoas irritantemente "boçais" e "vulgares" que o poeta, ser imaculado e de excepção, tem a infelicidade de cruzar na rua durante as suas deambulações metafísico-estéticas pela cidade. A poesia de Magalhães é um cocktail bizarro elaborado a partir da poesia de Jorge de Sena, de Ruy Belo e de Vitorino Nemésio (a secção da agressividade vem directamente de Jorge de Sena, o desprezo pela vugaridade das pessoas banais vem daí e também aparenta Magalhães ao romancista Lobo Antunes). A versão segundo a qual Magalhães teria operado um "retorno ao real" (whatever that means...) na poesia portuguesa contemporeânea, que algumas pessoas fazem correr por aí e que Sérgio Lavos retoma, não tem qualquer fundamento nem sentido, só é prova de muita falta de leituras e vontade de inventar histórias.

Nem sequer os blogues cortaram ainda o cordão umbilical com a história da literatura tal como ela tem sido e é contada pelos velhíssimos e muitas vezes superficiais, apressados e infundados manuais de papel que vão amarelecendo irremediavelmente nas estantes das bibliotecas e de algumas livrarias?

A vontade de manter vivo o canon e de o reconstruir regularmente nasce do respeito que nos ensinaram a ter pelas pessoas mais velhas e supostamente experientes, estudiosas e sábias. Nasce do medo do caos e do medo da desordem que seria viver num país sem história, sem escritores e sem outros ídolos canonizados. Nasce da necessidade de ter património cultural nacional, da necessidade de ciência e de certezas para nos sentirmos seguros e na posse de alguma coisa. Nasce da necessidade de ter um fio e uma meada. O que alguns escritores ainda não entenderam foi a insignificância actual, no contexto mais geral da existência, da sua própria grandeza. Quanto aos críticos, antes de fazerem generalizações, leiam tudo ou pelo menos leiam um pouco mais, trabalhem em full time, façam um esforço - em vez de se limitarem a repetir ou citar os críticos que só leram (obliquamente) meia dúzia de livros dos amigos ou dos ídolos já reconhecidos mas pretendem ter lido tudo o que foi publicado.

P. S. Acabo de ler as reflexões de Sérgio Lavos sobre o que eu tinha escrito aqui e gostaria de eliminar de vez algum malentendido que possa ter subsistido: a) os comentários que o Sérgio tinha feito acerca da poesia de Herberto Helder, que também eu considero um poeta importante, nunca estiveram em causa para mim; b) o que Herberto diz no poema citado pelo Sérgio não me chocou nem me pareceu injustificado, embora me pareça vago de mais e nada original.

Como foi no blogue de Sérgio Lavos que eu encontrei um dos poemas inéditos de Herberto, o poema que li no Auto-Retrato surpreendeu-me e serviu-me sobretudo de pretexto para reflectir sobre as questões que o Henrique e outros tinham levantado (nomeadamente a da importância que se tem dado em alguns casos ao "ineditismo" dos poemas de Herberto saídos agora).

Haverá poeta, por grande que seja, que não tenha escrito pelo menos dois versos ou um poema a escarnecer da poesia que outros escrevem ou dos críticos de poesia? Mas alguns poetas abusam no desprezo que manifestam por bocas que não sejam a sua e no contentamento de si. Não creio que seja caminhando por essa vereda que se chegue à poesia.

É preciso sorrir: a nossa visão do mundo e a nossa decisão de nos expressarmos de determinada maneira entram sempre em conflito, mais explícito ou mais subtil, mais polémico ou menos agressivo, com as dos outros. E não é por termos mais seguidores (não são forçosamente leitores, mas enfim) que alguma "imortalidade" nos será concedida, embora haja quem se oxigene nesse balão de vento artificial.

Não se tratava portanto de reduzir a obra de Herberto Helder ao poema citado pelo Sérgio, nem de excluir HH do parentesco eventual com Novalis, Holderlin e outros grandes poetas. Tratava-se de constatar que mesmo Herberto Helder pode escrever esse tipo de poema sem ter criado com ele nada de inédito, antes pelo contrário.

Nos anos 60 Mário Castrim inventou e dirigia o
Diário de Lisboa Juvenil, onde se publicou muita coisa de que se perdeu a memória. Embora 30 anos possam parecer muito tempo a algumas pessoas, talvez haja semelhanças entre o que aí se passou e o que aconteceu no Diário de Notícias dos anos 90 que o Sérgio evoca. Mas quem tem paciência para ir ver que de então para cá as coisas não evoluíram, em muitos domínios, tanto como se pensa?