Thursday, July 31, 2008

O tempo

O lugar é o mesmo. As pessoas são as mesmas. Mas o tempo é outro, os anos passaram. O tempo é isso: o envelhecimento do corpo e das paixões. Ficam os restos: a memória dos anos antigos, o medo do fim que se vai aproximando. Ainda se sorri. Ainda se dizem as palavras que restabelecem as relações antigas. Mas há rostos que já não estão na fotografia, corpos de que apenas se conserva a recordação. Um dia, daqui a algum tempo, a fotografia há-de mostrar apenas as árvores da floresta, a água do lago, o jardim da casa, os quartos vazios, as mesas a que já ninguém está sentado. O amor, a paixão, as palavras, desapareceu tudo.

Å girl



Saturday, July 26, 2008

Desvio metafórico

A metáfora é um desvio. Da qualidade do desvio, quando se trata de poesia, depende a qualidade do poema. Há desvios que iluminam aquilo de que se desviaram. Outros desvios, provavelmente a maior parte, deixam à mostra a indigência do pensamento e do sentir, do entendimento e da experiência, tornando mais nítida a indigência daquilo de que se desviaram.

Em vez de se desviar da realidade numa metáfora, talvez seja preferível, para começar, enfrentar essa realidade: tentar entendê-la, captá-la, penetrar na sua aparente simplicidade. Investigar. Reflectir. Não é pela fuga artificial à aparente simplicidade do real que se acede à poesia. Os subterfúgios, se a fuga ao real na metáfora é prova da incapacidade de ver, de entender e de sentir, cedo se revelam o que são: subterfúgios para encobrir o vazio do entendimento e do sentir.

À poesia não se acede mecanicamente, pelo uso superficial de processos tidos por literários. Se a metáfora é usada como tentativa de disfarce – que seria poético – da realidade a que só se acedeu superficialmente, que só se confrontou superficialmente - a metáfora é inútil, pura brincadeira inconsequente.

Se se aspira a ser poeta pelo uso de uma linguagem artificialmente elaborada, para criar à peu de frais a ilusão de que se possui muita cultura, o resultado final não é a poesia mas apenas uma imitação do que é a poesia.

Wednesday, July 23, 2008

Je est un autre

1. A paciência que é preciso ter para nos darmos com pessoas que pensam que são aquilo que não são e que pensam que nós pensamos aquilo que nós de facto não pensamos, que pensam que nós gostamos daquilo de que de facto não gostamos. Elas não entendem e nós sabemos que elas não entendem. Apesar disso acedemos a falar com elas, ouvimo-las, deixamo-las dirigir-se a alguém que não somos nós. A vida é, deste ponto de vista, uma sucessão de mal-entendidos.

2. O erro tem os seus méritos. Através do erro a realidade renova-se: temos de reavaliá-la.

3. Como se justifica a paixão? Porquê e para quê um amor tão exagerado a um objecto - pessoa ou coisa - que nós isolámos na imensidão das possibilidades? Porque o isolámos, porque o distinguimos dos outros objectos possíveis da nossa concentração exclusiva? Não sabermos ou não querermos explicar não significa que não haja explicação.

4. O que é o isolamento? É sentar-se num café e começar a ouvir, nas mesas próximas, as discussões e conversas mais despropositadas, mais estúpidas, mais banais. Tudo com uma veemência que torna a insignificância odiosa.

5. A falta de pudor e de respeito que alguns jornalistas revelam pelas pessoas inspira-me nojo. A maneira como tem sido tratada a tragédia da menina inglesa desaparecida é um bom exemplo da actual mediocridade portuguesa: a de alguns jornalistas e a do público que lhes presta atenção. A tonta que a RTP envia a Londres e que se permite, com um ar de vedeta sorridente e segura de si, fazer suposições e comentários inadmissíveis sobre o comportamento dos pais da criança, também nos dá uma boa ideia da mediocridade que reina na sociedade portuguesa actual. Que os polícias que falharam e deviam calar a boca publiquem - para se redimir de uma frustração pessoal - livros a dizer o que imaginam que aconteceu e que a televisão corra a entrevistá-los longamente é inacreditável. É o país que temos, saído de uma suposta revolução.

Lisboa (Baixa)



Janela

Cabo Espichel


Friday, July 18, 2008

O jogo das identidades

Que importância tem a identidade colectiva na elaboração da identidade individual? Por outras palavras: que papel desempenha naquilo que eu sou e penso ser o facto de eu ser português ou francês ou inglês? Uma sólida e moralizada identidade nacional provavelmente protege-me das crises de identidade individual que eu possa atravessar. Se faço parte de uma sociedade bem organizada e que pensa, com realismo, bem de si própria, posso correr riscos no meu projecto de realização pessoal, pois nessa sociedade uma segunda ou terceira ou quarta oportunidades não me são recusadas. Na sociedade portuguesa actual, com a confusão de valores e a crise das instituições a que se assiste quotidianamente, é difícil sentir-se bem individualmente e olhar para o futuro com um mínimo de tranquilidade. Os mitos antigos continuam a alimentar em parte os discursos públicos e o nosso imaginário, mas de que adianta hoje orgulhar-se de D. Afonso Henriques, de Camões e dos Descobrimentos?

O FMI diz que Portugal vive acima das suas possibilidades. Vasco Pulido Valente diz, no Público, hoje, que "a desigualdade continua porque o país não produz, não exporta, não investe e não poupa". As confusões do futebol têm um ar de feira ou arruaça popular capaz de desanimar quem quer que ainda tenha alguma consideração pelas instituições. Ser português é de momento apenas um problema e uma doença, um problema e uma doença para os quais parece não haver qualquer solução satisfatória.

Wednesday, July 16, 2008

A internacionalização da língua...

Desde que cheguei a Portugal só oiço queixas: está tudo a correr mal, desde o ensino às pensões de reforma - e o governo, que cada vez saca mais impostos aos contribuintes da classe média, nada faz ou pouco faz para pôr termo à crise... No meio de tanta desgraça e falta de esperança li há pouco no Público que o governo e o Carlos Reis têm um projecto de "internacionalização da língua portuguesa"... Hmm... Se não fossem os políticos, como diria Brecht, o trigo em vez de crescer para cima crescia para baixo... O que é preciso é dar nas vistas e ter projectos, muitos projectos, é assim que se faz carreira e se conserva o poder.... Presume-se que o conselheiro Acácio havia de gostar muito disto e que também havia de contribuir com muitas ideias para o progresso da nação... A internacionalização? Da língua?

Sunday, July 13, 2008

Things?

"That things possess a constitution in themselves quite apart from interpretation and subjectivity, is a quite idle hypothesis: it presupposes that interpretation and subjectivity are not essential, that a thing freed from all relationships would still be a thing."

Nietzsche

Wednesday, July 09, 2008

Veredas



É melhor falar ou preservar o silêncio? Frequentemente – a não ser que seja sempre – naquilo que dizemos o mais importante é o que não foi dito. O que nós dissemos pode ter iniciado um diálogo: alguém retomou a meada e puxou dela fios a necessitar de um comentário, de esclarecimento, de aprofundamento. Confrontados com o sentido que foi atribuído ao que nós dissemos, entendemos a imperfeição, a insuficiência, o desajuste ou o desvio que se manifestou no que foi dito. Devolveram-nos as palavras pronunciadas, partilham-nas connosco sabendo que elas foram nossas, mas para nós elas parece terem mudado de rosto, não são as mesmas - e nós não as queremos assumir. Começámos a perceber o que não tínhamos percebido. Ao responder, tentamos levar a discussão noutra direcção. Queremos corrigir. Só que quem dialoga connosco não nos ouve, ficou preso nas malhas do texto inicial, aquele que provocou o diálogo. O desentendimento não é absoluto, porém, nem inútil. Embora as palavras dêem forma a inquietações que agora vão ou parecem ir em direcções distintas - talvez vagas, talvez opostas - o diálogo prossegue. Abrem-se outras perspectivas, outros caminhos de reflexão. Pressentem-se aspectos do problema – aquilo de que falamos é sempre, por natureza, problemático, pois de outro modo não sentiríamos a necessidade de falar - que antes nos tinham escapado. Vamos, a dois, numa direcção difícil de clarificar. As palavras surgem progressivamente não se sabe bem de onde, suscitam-se e sucedem-se numa zona não acessível ao pensamento claro. Não sabemos aonde vamos, ao encontro de quê, mas é essa ignorância que provavelmente torna apaixonante e tão importante o estranho diálogo.

Tuesday, July 08, 2008

Micronarrativas

Luís Ene, Ana Melo, Fernando Gomes, Carlos Seabra, Paulo Rodrigues Ferreira. O papel, a tinta, as palavras estão caros. E já todos lemos muitos livros, não vale a pena repeti-los. Há quem já o tenha entendido.

Small is beautiful!

Sunday, July 06, 2008

Questioning, no answers


We inquire into the nature of art. Why do we inquire in this way? We inquire in this way in order to be able to ask more truly whether art is or is not an origin in our historical existence, whether and under what conditions it can and must be an origin.

Such reflection cannot force art and its coming-to-be. But this reflective knowledge is the preliminary and therefore indispensable preparation for the coming of art. Only such knowledge prepares its space for art, their way for the creators, their location for the preservers.

In such knowledge, which can only grow slowly, the question is decided whether art can be an origin and then must be a head start, or whether it is to remain a mere appendix and then can only be carried along as a routine cultural phenomenon.

Are we in our existence historically at the origin? Do we know, which means do we give heed to, the nature of the origin? Or, in our relation to art, do we still merely make apeal to a cultivated acquaintance with the past?

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The whole essay, "The Origin of the Work of Art "deliberately and tacitly moves on the path of the question of the nature of Being. Reflection on what
art may be is completely and decidedly determined only in regard to the nature of Being. Art is considered neither an area of cultural achievement nor an appearance of spirit; it belongs to the disclosure of the appropriation by way of which the "meaning of Being" (cf. Being and Time) can alone be defined. What art may be is one of the questions to which no answers are given in the essay. What gives the impression of such an answer are directions for questioning.

Martin Heidegger, "The Origins of the Work of Art"(tradução de Albert Hofstadter, Perennial Classics)

Friday, July 04, 2008

O circo dos deputados

Ontem fiquei uns minutos a assistir na televisão aos debates da Assembleia da República. Parecia um circo. Há muitas razões para criticar o Governo, não tenho a mínima dúvida sobre isso. Mas se os deputados do PCP, do Bloco de Esquerda e da direita, em vez de vociferar parvoíces e fazer propostas tolas, estivessem a cumprir responsavelmente com as suas obrigações, Sócrates e os deputados do PS não teriam tanta facilidade em responder-lhes. Espectáculo estúpido e degradante.


P. S. Hoje na televisão a Ministra da Educação, com os seus argumentos nada convincentes sobre os progressos do ensino, abusou insistentemente e descaradamente da inteligência das pessoas. A matemática, diz ela, não é coisa só para especialistas nem para quem tem explicadores privados, temos de pô-la ao alcance de todos. Solução (ela diz que não é verdade, mas os professores de matemática dizem que foi o que aconteceu este ano): exames simplificados. As estatísticas de aproveitamento mudam, claro, mas a senhora não quer entender porquê. Resultado final: José Rodrigues dos Santos - 5 Ministra - 0.

Rostos