Saturday, March 29, 2008

Zabriskie Point at sunrise











A oferecer ao cronista do Público...


... que insiste em afirmar que B & B não mentiram....


9/11 and Al Qaeda, Afghanistan and Iraq, WMD and the Insurgency, Guantanamo, Abu Ghraib, Fallujah and the Surge. For six years, FRONTLINE has been revealing those stories in meticulous detail, and the political dramas played out at the highest levels — George W. Bush and Tony Blair, Dick Cheney and Colin Powell, Donald Rumsfeld, George Tenet, Condoleezza Rice, Osama Bin Laden.

Bush's War
Expected Availability: 05/27/08
List $29.95


Now, on the fifth anniversary of the Iraq invasion, the full saga will unfold in a special four-hour broadcast over two consecutive nights on PBS, titled "Bush's War."

Friday, March 28, 2008

Charles Bukowski, John Fante, etc.



O Manuel Domingos tinha-me pedido há tempos umas linhas sobre Bukowski. Enviei-lhe agora este texto.



what some poets and pundits don’t realize is how ridiculous it is

to cling forever to the same subject
matter

Charles Bukowski

Devo ter descoberto Bukowski quando ainda vivia em França, através de uns artigos publicados no Libération. O prosaísmo poético de Bukowski agradou-me porque eu também acreditava desde há muito que, contrariamente ao que pensam algumas pessoas, todos os estados de espírito, todas as realidades, todos os sentimentos, todas as palavras podem ser “poéticos” (Fernando Pessoa já ensinara isso mesmo). As convenções pesam e condicionam-nos, mas valem o que valem e nós podemos combatê-las, adoptá-las, ampliá-las, modificá-las. Agora, que conheço a América, entendo melhor a violência verbal e a agressividade de Bukowski, forçado a viver nesta selva, entre hipócritas, comerciantes e políticos sem escrúpulos. A “luta pela vida” na América pode ser extraordinariamente dura. E a literatura - o uso da linguagem, o estilo, os temas que escolhe - não deixará nunca, embora isso se note muito nuns casos e pouco noutros, embora isso seja muito importante nuns casos e menos ou nada noutros, de pôr em cena os valores, o imaginário, as ambições de determinada classe ou estrato social. As histórias de Bukowski retomam em parte os tópicos e a atitude literária de Henry Miller, o que tem algum interesse. Bukowski é sobretudo um provocador. Deve ter-me parecido saudável, apesar de então ainda não conhecer a América, que a literatura reivindicasse liberdades, valores, comportamentos e uma visão do mundo que se poderiam classificar de “mal educados”. Depois disso não li muito Bukowski, provavelmente por ter assimilado o que havia a assimilar. Mas creio que devo a Bukowski (ou terá sido ao Libération de novo?) a descoberta de John Fante, escritor meio desconhecido, que ele admirava e tomara como modelo. Também pode ter sido ao contrário: descobri Bukowski depois de ter descoberto John Fante. O universo de John Fante e de "Arturo Baldini" (Ask the Dust, etc.) é menos corrosivo do que o de Bukowski, menos cansativo, menos agressivo, provavelmente de uma monotonia mais consentânea com a realidade das nossas existências discretas. Não sei se Luís Pacheco e Lobo Antunes leram Bukowski nem isso tem muita importância. Mas parece-me que foram eles quem na literatura portuguesa actual, pelo seu “descaramento” à margem do politically correct e pelo uso de palavrões, abriu caminhos semelhantes, diminuindo o fosso que separa a atitude literária da realidade que lhe serve de ponto de partida (eu sei, sempre existiu, paralelamente à corrente literária mais respeitável, mais bem educada, uma corrente "popular" de língua mais livre, a poesia galego-portuguesa de escárnio e mal-dizer, e Gil Vicente, são exemplos disso; mas eu falo da actualidade). A evolução dos nossos costumes e comportamentos acelerou-se de tal modo que um leitor actual dificilmente poderá entender o pequenino choque e contentamento que sentiram os primeiros leitores de Luís Pacheco e Lobo Antunes. Provavelmente é impossível não confundir o que se sabe da pessoa que foi Luís Pacheco com a sua obra de escritor. A obra, uma rebelião permanente contra as pessoas e atitudes literárias que gozavam de prestígio institucional, tem méritos indiscutíveis; a pessoa, com o comprazimento nas suas encenações, poderá aparecer a muitos como de pouco ou nenhum interesse. O risco que correm aqueles que ganham notoriedade através da provocação é claro: ninguém gosta de viver em estado de permanente revolução e a revolução permanente, por outro lado, deixa de ser revolução para se tornar um vício cansativo e desadaptado da realidade que entretanto também foi mudando. E há outras revoluções a fazer, mais discretas e mais privadas, mais profundas e mais árduas, aparentemente menos relacionadas com os condicionalismos sociais.

Badwater



Thursday, March 27, 2008

Thursday, March 20, 2008

Poesia



Quando tiver tempo vou citar aqui alguma poesia que encontro nos blogues e que me parece despretensiosamente viva e interessante. É como ir na rua ou estar no café e ver e ouvir alguém dizer alguma coisa que nos chama a atenção. Levantamos a cabeça e ficamos contentes, sorrimos à beleza da vida naquele rosto de rapariga ou mulher. Não é bem cultura ainda exactamente, entendem? É muito diferente de estar num anfiteatro a escutar o sábio professor que é poeta perorar aborrecidamente confusamente - vaidosamente na sua modéstia e humildade - sobre a poesia.

Isabel C. Hungerland publicou, em 1958, Poetic Discourse (University of California Press, Publications in Philosophy). Aí pode ler-se o seguinte:

"In brief, there is not such thing as a poetic language, either as a diction or as a mode of sentential meaning. The nearest approach to this occurs when a tradition in poetry has so cut itself off from the ordinary spoken language as to have a diction and grammar confined almost exclusively to itself. Whether or not the separation is always a deathbed phenomenon I leave for the historians of literature to decide." (p. 13)

Wednesday, March 19, 2008

How interesting....

Lido no New York Times:

Sexual promiscuity is rampant throughout nature, and true faithfulness a fond fantasy. (...) As David P. Barash, a professor of psychology at the University of Washington in Seattle, put it with Cole Porter flair: Infants have their infancy; adults, adultery. Dr. Barash, who wrote “The Myth of Monogamy” with his psychiatrist-wife, Judith Eve Lipton, cited a scene from the movie “Heartburn” in which a Nora Ephronesque character complains to her father about her husband’s philanderings and the father quips that if she’d wanted fidelity, she should have married a swan. Fat lot of good that would have done her, Dr. Barash said: we now know that swans can cheat, too. (...)

Mais à frente, no mesmo artigo:

Dr. Gumert determined that male macaques pay for sex with that all-important, multipurpose primate currency, grooming. He saw that, whereas females groomed males and other females for social and political reasons — to affirm a friendship or make nice to a dominant — and mothers groomed their young to soothe and clean them, when an adult male spent time picking parasites from an adult female’s hide, he expected compensation in the form of copulation, or at the very least a close genital inspection.
(Natalie Angier)

A atitude dos macacos que caçam os piolhos da macaca na esperança de ter intimidades sexuais com ela não me surpreende nada. Claro que nós, seres humanos, somos uma raça mais evoluída e não começamos por aí: levamos ao cinema, oferecemos champagne, jantares, chocolates, um livro, um emprego, piropos, um poema. A propósito: o governador David A. Paterson, que substituiu o governador
Eliot Spitzer depois do escândalo sexual em que este se viu envolvido, veio confessar em público, assim que tomou posse, que também ele teve em tempos "extramarital afairs". Estas confissões públicas de arrependimento trazem-me à memória as que tiveram lugar na Rússia há muitos anos, embora as culpas confessadas sejam diferentes em cada caso: os comunistas só estavam interessados em confissões de quem tinha "traído o povo"; os americanos acham que quem traiu a esposa também traiu os eleitores. Claro que ao lado destes gravíssimos crimes conjugais invadir o Iraque invocando razões fabricadas e matar milhares de pessoas não tem, aos olhos da moral privada ou pública, qualquer importância... A visão do mundo americana ainda não parou de me chocar.

Parabéns, Patrício



Patricio da Silva winner of the II International Barto Prize (2008)

Patricio da Silva was announced as the winner of the II International Barto Prize Composition Competition with the work "Three Movements for Solo Piano" (2007), juried by Tobias Picker, composer, USA, Tzimon Barto, pianist, USA, Wolfgang Rihm, composer, Germany, Bright Cheng, composer, China and USA, and Marc-André Dalbavie, composer, France. Mr. Barto performed Patricio da Silva's work at the Bay State Theatre on March 15 and 16, in Eustis, Florida, and will feature it his next two years concert seasons. Among the upcoming concerts with Mr. Barto, da Silva's work will be heard in April at the Rudolfinum/Dvorak Hall of the Czech Philharmonic in Prague and Bellinzano (Switzerland), and in August at the Wiener Klavier Sommer. For more information, please visit: http://www.patriciodasilva.com

P. S. Patrício, eu não tenho culpa de que em Portugal quase não haja espaço para jovens compositores como tu, nem sei explicar por que razão a Gulbenkian parece só reconhecer o Emanuel Nunes. Não entendo nada dessas coisas.

Monday, March 17, 2008

O marginal, o bom e o mau, etc.

Li o comentário recente do Henrique Fialho no Insónia, que eu tinha citado há dias a propósito de um texto em que o Henrique comentava um post de Pedro Mexia (post de que só conheço o que o Insónia citou). O Henrique volta ao assunto e e eu também, com mais algumas reflexões.

Quando escrevi há dias que se se pudesse definir a literatura caracterizando-a como "aquilo que por natureza é marginal", não havia a escrever sobre ela nos jornais as pessoas que lá encontramos, devia ter escrito também que se a literatura fosse por natureza marginal não havia tantos escritores. Identificar "marginalidade" com "literatura" apenas porque quem escreve se sente em conflito com os valores atribuídos à maioria, ou frustrado e ressentido e em desacordo com a sociedade em que vive, por exemplo, é ambíguo e exagerado, além de pouco convincente aos meus olhos. Continuo a pensar que "escrever", a "literatura", não são por natureza actividades "marginais". Posso tê-lo pensado há muito tempo, não o penso hoje. O que há é "literatura marginalizada" - o que é vago, amplo, e não é a mesma coisa. Que significa ser "marginal" ou "marginalizado"? Marginal é o que vive nas margens e marginalizado é o que foi posto nas margens. Podia dizer que tudo aquilo que eu (ou um grupo mais ou menos coeso de pessoas) não leio (não lemos), tudo o que não me (nos) interessa na vida, é vítima de marginalização da minha (da nossa) parte. Creio que é o único critério razoável de entendimento da "marginalidade". A "literatura de cordel" e outras formas de "literatura marginal" (sobre este tópico a revista Santa Barbara Portuguese Studies tem pronto para publicação um volume organizado por Arnaldo Saraiva) são marginais em relação a quê? Em relação aos gostos e códigos culturais das pessoas que escrevem as histórias da literatura, à sociedade que arruma os textos escritos em gavetas diferentes, ao poder e aos valores da maioria "esclarecida". É natural: a sociedade necessita de tranquilizar a dissidência esforçando-se por criar consensos. As divergênias assustam-na: há risco de algazarra e confusão. Faz parte da vida em sociedade quererem aqueles que nela têm poder e direito à fala hierarquizar tudo o que nela acontece e estabelecer como "bom" o que corresponde aos valores e ambições dessa sociedade. Trata-se de evitar confusões e a "desordem", de definir o que é excelente e desejável. Por essa razão e para que isso se concretize existem os "prémios" e as "marginalizações"- escolhas de quem tem o poder na sociedade. Mas tudo tem o seu tempo, há evoluções, mudanças, adaptações e desadaptações, interesses particulares (por vezes excepcionalmente ocasionais) a influenciar a selecção. E nós podemos situar-nos em relação a essas hierarquizações diferentemente em épocas diferentes da nossa existência, sendo ora ou em parte marginalizadores, ora ou em parte marginalizados. Nada deixa de mover-se nunca, a estabilidade é uma ilusão. E todos somos, de algum modo, parte desse poder que oprime, embora possamos ao mesmo tempo situar-nos ou imaginar que nos situamos à margem.

Os grandes escritores e as obras que eu considero importantes ensinaram-me a ver, a entender, a interrogar, a duvidar, a decidir, a viver de maneira que considero "melhor"; deram-me coragem para pensar o que penso, sentir o que sinto, e ir mais além ainda; mas pôr a nu, elucidar, incentivar, tornar mais claras as coisas não é indício de marginalidade. A "marginalidade" de Baudelaire, de Verlaine, de Rimbaud não faz de todos os escritores, nem sequer da maioria, marginais. E Paul Celan e Trakl foram marginais? O percurso solitário de Pessoa faz dele um "marginal"? Teríamos de definir a "marginalidade" de maneira muito particular para responder que sim. Parece-me que é assunto para discussões mais aprofundadas.

Não há de facto critério científico nem universal, Henrique, que permita distinguir a boa literatura da má (talvez seja mais fácil distinguir o "maior" e o "menor", o "grande" e o "pequeno"). Nem é necessário, a meu ver, preocupar-se tanto com essas classificações. É mais fácil - e parece-me que aceitável - dizer "para mim é bom", "para mim não presta". Repare que eu tinha escrito há marginais chatos e marginais interessantes, marginais inteligentes e marginais estúpidos, portanto ser marginal só por si, I'm sorry, não significa nada. O "valor" precisa de razões suplementares. E só há dois tipos de literatura: a boa e a má. Depende da capacidade, da necessidade e dos gostos de cada um. Literatura boa, ou "grande", ou maior, para mim é aquela que me interessa; e literatura má ou "pequena" ou menor é, não exactamente aquela que não me interessa, mas aquela que a minha experiência e conhecimentos me levam a considerar como rudimentar ou insuficiente - ou me impedem, independentemente da minha vontade, de considerar "grande". Haverá outra maneira de decidir? Mas o que é insuficiente e desinteressante para mim hoje não o teria sido ou não o foi há alguns anos, provavelmente. E se há pessoas que gostam actualmente daquilo de que eu não gosto embora possa ter gostado, a hipótese de haver consenso ou "verdade" complica-se. Não vejo onde está o problema. Não há classificações nem definições absolutas nem intemporais neste domínio. O bom e o mau serão sempre relativos e discutíveis. Cada um de nós tem o seu percurso a fazer, a sua vida para viver. E como coexistimos no mundo com pessoas de idades, experiência e educação muito diferentes da nossa, é natural que não estejamos de acordo em muita coisa. É importante? Se não aspirarmos a estar de acordo em tudo com toda a gente, se não sofrermos por ver o mundo tão dividido em gostos e opiniões, se não andarmos à pancada com quem gosta da literatura que não nos interessa, não vejo onde está o problema. A História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes considera que as narrativas de naufrágios não são boa literatura, nem sequer exactamente "textos literários", mas apenas "documentos"; e o neo-realismo merece-lhe as mesmas considerações. Imagino que não é fácil discordar do que as Histórias da Literatura afirmam porque o "saber" inspira respeito e exige humilde subserviência; mas entretanto a gente cresce, reflecte, aprende mais alguma coisa, perde o medo de discordar. O que parece marginal a outros pode não ser marginal para nós; o que a eles lhes parece respeitável, nós marginalizamo-lo com o nosso desinteresse. Se somos professores de literatura ou críticos literários podemos dar conta a quem nos ouve ou lê da opinião dominante ou oficial, de opiniões diferentes da nossa; mas também é normal que argumentemos a favor da nossa própria opinião e perspectiva. É entre essas duas "verdades", na medida em que for possível estabelecê-las e evocá-las, que tudo se joga.

A literatura pode ser o lugar real ou imaginário da nossa "marginalidade". Mas isso não faz da literatura enquanto tal uma actividade marginal ou para marginais - nem faz de nós seres marginais. Quanto à questão de ser a linguagem ou o estilo a marca de um grande escritor só posso estar de acordo se essa linguagem e esse estilo "falarem" de alguma coisa que se me imponha como importante - ou, eventualmente, sejam tão surpreendentes, mas talvez seja a mesma coisa, que reinventem, ressuscitem, transfigurem genialmente aquilo de que "falam". Confesso que surpresas dessas, porém, são raríssimas. Hjemslev parece-me que esclareceu estas questões de maneira inteligente há algum tempo ao explicar que a "forma" é "conteúdo" (a forma tem sentido, é uma parte do sentido, amalgama-se com o sentido das palavras e das frases) e o "conteúdo" é "forma" (faz parte das qualidades formais da obra, amalgama-se com aquilo que de maneira mais primária se considerava até há pouco como "a forma como coisa oposta ao "conteúdo").

P.S. Não tinha lido o post indignado de João Barrento contra Pedro Mexia acerca de Gabriela Llansol. O facto de as pessoas que João Barrento cita lerem Llansol faz dela uma grande escritora e deles a medida do mérito literário? E eu e o meu vizinho e os meus primos não contamos, só contam os amigos de João Barrento? Que falta de lucidez.

Sunday, March 16, 2008

Pergunta


Será possível escapar à insignificância e superar a vulgaridade e a banalidade na existência sem escrever poesia? Muita gente pensa que não. Eu penso que sim.

Kern Hall


Don't cheat

Saturday, March 15, 2008

Mil dólares à hora


As meninas ou senhoras com quem o imprudente governador de NY se encontrava cobram mil dólares à hora. A publicidade da empresa que as recruta apresentava-as como raparigas cultas, com classe, inteligentes, fora do comum, certamente aristocratas nas maneiras finas. Tocarão Schubert no piano e cantarão os últimos lieder de Brahms? Jogarão ténis e golfe, talvez conduzam carros de fórmula um. Creio que o anúncio, citado pelo Los Angeles Times, refere vagamente uma educação universitária, carreiras brilhantes, posições de chefia, ambição, sucesso, distinção, poder. Uma mulher assim é como uma dádiva inesperada e breve de Deus, recompensa a saborerar em todos os milésimos de segundo enquanto dura o milagre. Mas uma mulher assim não está ao alcance de todas as bolsas. E a não ser que se seja dono de uma fortuna incalculável, uma mulher assim só se pode usufruir em part time.
Há homens casados com mulheres assim, porém, embora a maior parte deles não possa pagar mil dólares por hora à esposa se ela fizer valer a lei do mercado. O próprio governador colocou-se numa situação muito difícil. Há um conto de Maupassant que trata desta questão. A esposa de um "coureur de jupons" rebelou-se e exigiu: agora, para estares comigo, pagas como às tuas amantes, eu não sou menos do que elas. O governador, se a esposa lhe fizesse tal exigência, não teria meios para viver com ela, o que o devia ter feito pensar antes de prevaricar. Entende-se que o amor - ou será o casamento apenas? - torna as mulheres mais baratas, deixa-as ao alcance de bolsas mais modestas. Mas a lógica do capitalismo sempre ameaçou a tranquilidade masculina. Agora que se tornou público o preço, vão surgir mais descaradamente à luz do dia tabelas de vencimentos e exigências relativas ao horário de trabalho conjugal e familiar. Há mulheres a poucos dólares à hora e mulheres a milhares de dólares à hora? É o que se vai discutir, sem meias palavras nem temores. A competição aumentou. O que é que nos vai acontecer?

P. S. O episódio recente da ex-esposa de Sir Paul McCartney, que conseguiu sacar quase 24 milhões de libras ao homem com quem esteve casada 4 longos anos, também me parece muito interessante. Cerca de 6 milhões por ano. Quanto à hora?

Thursday, March 13, 2008

Intertextualidades



A actualidade é sempre fecunda. Na minha memória alguma coisa, bruscamente, saiu da sombra. Vou reler Leo Spitzer.

Se o Sporting não ganhar ao Bolton, arrumo também essas botas, pelo menos por algum tempo. Já basta de aborrecimentos que me chegam por causa dos outros.

Se a literatura fosse coisa tão marginal , se se pudesse definir a literatura caracterizando-a como "aquilo que por natureza é marginal", não havia a escrever sobre ela nos jornais as pessoas que lá encontramos - pessoas de quem a mentalidade no poder gosta o bastante, pois de outro modo não lhes dava papel para pintar com letras. Nem havia nas livrarias tantos livros em cima das mesas e nas estantes. Sejamos claros: há marginais chatos e marginais interessantes, marginais inteligentes e marginais estúpidos, portanto ser marginal só por si, I'm sorry, não significa nada. O "valor" precisa de razões suplementares. E só há dois tipos de literatura: a boa e a má. Depende da capacidade, da necessidade e dos gostos de cada um.

Provavelmente nunca deixamos de amar aquelas que amámos.
Como fantasmas inexistentes a acenar-nos do meio do nevoeiro. Mas amar fantasmas leva-nos por estradas de bruma e faz de nós seres irreais. Perdemos os contornos, a realidade perde os contornos. É capaz de ser perigoso. Talvez não seja. Elas, entretanto, ligeiras, descuidadas, pintam-se e perfumam-se de manhã antes de sair de casa. Andam por aí a enganar os espíritos incautos prometendo-lhes o paraíso que nos recusaram a nós.




Wednesday, March 12, 2008

The problem of meaning



397. Suppose it were part of my day-dream to say: "I am merely engaged in phantasy", would this be true? Suppose I write such a phantasy or narrative, an imaginary dialogue, and in it I say "I am engaged in phantasy" - but, when I write it down, how does it come out that these words belong to the phantasy and that I have not emerged from the phantasy?


Might it not actually happen that a dreamer, as it were emerging from the dream, said in his sleep "I am dreaming"? It is quite imaginable there should be such a language-game.

This hangs together with the problem of 'meaning'. For I can write "I am healthy" in the dialogue of a play, and so not mean it, although it is true. The words belong to this and not that language-game.
(Q. E. D. "O poeta é um fingidor..." não é uma "boutade" do Pessoa)


Wittgenstein, Zettel, translated by G. E. M. Anscombe and edited by G. E. M. Anscombe and G. H. von Wright, University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 2007 (1967)

Monday, March 10, 2008

Língua "artística" e língua "natural"?


Manuel Gusmão refere-se, num texto citado por Osvaldo Silvestre, à literatura como sendo "o uso artístico de uma língua natural" e ao ensino da literatura como favorecendo ou permitindo o "acesso à complexidade dos usos da linguagem". O assunto é delicado e propício a mal-entendidos. Não sei se a expressão "uso artístico" da linguagem não será ela própria uma explicação parcial da crise de prestígio e de atenção que a literatura atravessa. O "uso artístico" da linguagem feito por Camões, por Eça de Queirós, por Camilo, por Cesário Verde, por Fernando Pessoa, por Sá Carneiro, por Carlos de Oliveira, por Herberto Helder, por exemplo, agrada-me porque me parece ao mesmo tempo elevado sem ser pretensioso, sensato, adequado ao assunto, justificado nas próprias obras. Mas a língua "artística" que alguns ditos poetas e prosadores actuais usam não passa de tontice fastidiosa, de exagero "literário"artificial para dar credibilidade a experiências sem qualquer interesse, de pretensão que se apresenta como complexidade profunda a decifrar quando infelizmente não há nela nenhuma "figure in the carpet" a encontrar. Presumo que é ao uso simultaneamente desajustado e "artístico" da linguagem, ao facto de não se ter em conta que por muita "artística" que seja a linguagem é o assunto que em última análise acaba sempre por ser determinante, tanto como a factores conhecidos de natureza social que se deve a diminuição actual do número de leitores. Não devíamos esquecer que apesar da crise e da persistência de certo analfabetismo, o Portugal de hoje conta com um número muito superior de pessoas com educação académica e de licenciados pelas universidades. Pessoas que mesmo se não lêem ou não lêem muito também não admiram nem se sentem inferiores a quem escreve. Se a esse público não se propõem obras que respeitem a educação recebida e a qualidade da sua experiência - que a televisão e a internet enriquecem abundantemente de "textos", literários ou não, vindos de outras culturas - não surpreende que tenha diminuído em Portugal o número dos leitores de obras consideradas literárias. A literatura é útil, ler tem utilidade, se não ninguém lia. As "précieuses ridicules" actuais creio que continuam sem entender isso.

O que é a "língua natural" senão uma ilusão nossa, de universitário na torre de marfim, quando os processos retóricos da literatura - artísticos, se se quiser, na manipulação que fazem da língua - aparecem afinal por todo o lado e são visíveis, em grau maior ou menor, no uso quotidiano da linguagem e no uso que dela se faz permanentemente nos tribunais, na televisão, na igreja, na rádio, na imprensa, nos discursos e debates políticos? O que seria o uso considerado literário da linguagem se escritores e leitores não tivessem a experiência, como sujeitos e consumidores, dessas outras linguagens, desses outros" jogos de linguagem"? A complexidade da linguagem não é, felizmente, competência exclusiva dos professores nem dos escritores - que em certos casos nem sequer produzem textos que se recomendem e têm o desmérito de induzir as pessoas em erro e de alimentar fantasias ingénuas. A complexidade da linguagem é uma resposta e uma interrogação à complexidade da experiência - ou não vale nada. Há "complexidades" que são pura fraude e não têm qualquer interesse; fazer delas objectos de adoração e interpretação é uma perda de tempo e uma perversão da inteligência inexperiente. É de lamentar que na escola não se aprenda melhor e com pelo menos algum prazer, através de textos interessantes (e importantes), a manipular a língua e a decifrar as manipulações que dela fazem os outros. Mas a crise é mais geral, mais profunda, e nos justificados lamentos actuais sobre a decadência do livro e da leitura talvez se revele algum saudosismo em relação a formas enganosas e ultrapassadas
de pensar a literatura e a cultura. Assunto sobre o qual é necessário continuar a reflectir, sem dúvida.

Monday, March 03, 2008

Finisterra


Finisterra, de Carlos de Oliveira, é uma obra-prima. Se o fim oficial do neo-realismo e dos seus ideais ou utopias se torna evidente com a publicação de Signo Sinal (1979), de Vergílio Ferreira, de Sem Tecto entre Ruínas (1979), de Augusto Abelaira, e de Finisterra (1978), de Carlos de Oliveira, a atitude e o estado de espírito dos três romancistas difere radicalmente.

Abelaira, sempre silogisticamente perturbado pela existência de alternativas teóricas para a resolução dos problemas práticos, exprime em Sem Tecto entre Ruínas o desencanto com a revolução antes de ela ter chegado: andámos nós, os intelectuais de esquerda, a desejar a revolução; ora o povo, as pessoas, queriam era um carro, televisão, máquinas de lavar a roupa e a loiça; quem nos encomendou o sermão?

Vergílio Ferreira não perdeu a oportunidade de provar uma última vez triunfantemente com Signo Sinal (um romance apressado, mal alinhavado, cheio dos mais típicos lugares comuns do autor) que tivera razão em abandonar o projecto neo-realista muitos anos antes: moralizado pelo insucesso caricato da revolução de Abril, Signo Sinal desanca desabridamente, por falta de fé e por convencimento de superioridade intelectual, em tudo o que é ideologia e projecto de uma sociedade melhor; é na solidão da praia que o protagonista parece reencontrar a dignidade, algum prazer em viver e o sentido existência. Hoje essa aparente solução individualista de salvação pelo retorno à natureza através da meditação filosófica sobre o “ser” pode parecer muito ingénua, um chavão (foi o que sentiram os meus alunos que leram o romance recentemente). E tão cansativa e artificial como os lugares-comuns convencionais do neo-realismo.

Em Finisterra Carlos de Oliveira não esquece nem nega a validade da problemática social que inspirara os seus romances anteriores. Mas a maturidade e um desencanto mais sereno levaram-no a desligar em Finisterra a intriga romanesca dos problemas particulares de alguns indivíduos ou famílias com nome próprio - e a distanciar-se dos pormenores mais anedóticos das lutas de classe em que eles andam envolvidos. Em Finisterra os problemas postos pela vida em sociedade não desapareceram. Mas Carlos de Oliveira, que escreveu antes deles, fez em 1978 o que nem Vergílio Ferreira nem Abelaira conseguiram fazer em 1979: não diminuiu a importância dos problemas nascidos da injustiça social e conferiu-lhes ao mesmo tempo uma convincente dimensão filosófica. A questão da lei, a questão da propriedade, a questão do poder da ciência, a questão da organização social misturam-se, alternam e confundem-se com a obsessão frustrada em reencontrar, nas imagens guardadas, a realidade perdida, o passado. E a consciência de que tudo, a nossa existência e os objectos em que ela se torna palpável, está destinado a ser destruído, a desaparecer sem deixar traços, é uma perturbação que não elimina preocupações mais terra a terra do dia a dia.

Que sentido teria, nestas circunstâncias, continuar a fazer incidir a reflexão sobre a luta das classes deixando ainda aberta, nem que fosse apenas entre parênteses, a necessidade de lutar contra os opressores? Para o Carlos de Oliveira de Finisterra as lutas entre as classes, o factor económico, a questão da lei, a questão da propriedade privada são apenas um episódio importante e que não se pode ignorar da luta mais vasta e mais trágica que o ser humano trava com a existência. Não há aqui espaço para a fuga idílica e literária da realidade e da problemática social num individualismo de dândi, filosófico, à Vergílio Ferreira; nem espaço para os lamentos e remorsos teóricos de Abelaira relativos aos erros cometidos. Carlos de Oliveira foi na realidade o único que conseguiu, com Finisterra, transcender seriamente uma visão da realidade centrada sobretudo ou unicamente na questão da injustiça social e do poder sem denegrir ou desvalorizar ao mesmo tempo as suas preocupações, modelos estéticos e ideais de reforma social do passado. As interpretações de Finisterra que se têm aproveitado sobretudo da forma elíptica e da ambiguidade da narrativa para elaborar perspicazes divagações parece-me que têm passado totalmente ao lado do sentido imediato e da importância desta obra. Finisterra não era de modo nenhum a reconciliação de Carlos de Oliveira com uma visão mais formalista ou mais esteticista do romance ou da literatura. Não é uma obra parnasiana nem foi escrito certamente para proporcionar em primeiro lugar devaneios delirantes a jovens e talentosos investigadores universitários. Devíamos reler e tentar perceber: o pudor e rigor formal de Finisterra eram ainda negação da inútil ou inexistente arte pela arte e da prevalência alienada de mundanas preocupações estéticas sobre as graves questões existenciais. Uma preocupação exclusiva, irrealista ou exagerada da parte da crítica com a forma de uma obra literária pode revelar sintomática incapacidade de leitura, de entendimento ou interpretação dessa obra. Mas passaram anos. Já era tempo de percebermos. Olhar para a roupa e não querer ver o corpo não resolve problema nenhum.

P. S. Um dos meus alunos descobriu um livro que eu não conhecia (imperdoável): José Manuel Lopes, Foreground Description in Prose Fiction, Toronto, University of Toronto Press, 1995. Um dos capítulos é dedicado a Finisterra.

Sunday, March 02, 2008

O estado de solidão, uma vez aceite, não é um estado negativo.