Sunday, December 07, 2008

Reflexões ingénuas sobre a linguagem

1. Em francês diz-se lapin, em inglês diz-se rabbit, em português diz-se coelho. Aquilo a que se referem as palavras é sempre a mesma coisa, o mesmo “objecto”, mas as palavras são diferentes em cada caso. É necessária uma prova mais convincente do carácter arbitrário, na origem, da relação entre uma palavra e o seu referente? A relação entre a palavra e o referente pode parecer natural porque nós aprendemo-la em vez de apreender outra: o que se apreende no berço, inocentemente, tem tendência a ser visto e sentido como “natural”, como a única solução possível, como a palavra de Deus sobre o mundo. Mas como o prova a existência em línguas distintas de palavras diferentes para o mesmo objecto, essa relação é artificial, é aprendida, nasce de uma convenção. Esta simples observação tem enormes consequências na minha maneira de entender o mundo e tudo o que me acontece.

2. O acordo ortográfico, a que não tenho prestado grande atenção porque é uma coisa supérflua para mim, parece que quer que eu escreva predileção em vez de predilecção. Quer que eu tire da fotografia mental que tenho da palavra uma letra: o c. Não estou de acordo. Acho um abuso. Eu aprendi o que aprendi e não estou disposto a mudar as coisas só porque os detentores do poder político decretaram que eu devo fazê-lo. Já agora, não querem tirar mais nada? Se eu escrever prdileção não me afasto muito do que de facto pronuncio quando digo a palavra, por isso tirem também o e. Só que a palavra tem uma cara e o que me estão a pedir é que mude a cara à palavra. Eu sei que a cara das pessoas vai mudando com o tempo e a gente habitua-se a isso. Mas as palavras não são pessoas exactamente, embora se lhes possam comparar. Continuarei a escrever predilecção.

3. Os analfabetos não distinguem uma cadeira de uma mesa nem uma árvore de uma montanha ou de um banco de jardim? Claro que distinguem. Além disso, mesmo sem saberem ler nem escrever, podem falar, namoram, fazem filhos, jogam futebol, aparecem na televisão, ajudam a apagar os incêndios, insultam os árbitros. Por exemplo. Qual é a utilidade da linguagem escrita, então, em que é que a existência de quem não sabe ler nem escrever é menos profunda, mais desorganizada ou mais absurda do que a de quem sabe? Estou aqui sentado no café a escrever, mas podia estar apenas aqui sentado no café a pensar em tudo o que escrevi ou noutra coisa. Qual seria a diferença? Não sei, não me apetece pensar no assunto. Se eu não soubesse escrever não podia contar o que contei, é certo. Mas o que é que se perdia por isso?

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