Monday, December 22, 2008

Reflexões ingénuas sobre a linguagem (2)




1. As maquinações do desejo provavelmente são inexplicáveis. Ou não temos coragem de assumir as razões ou não temos capacidade de as entender. Como há mil interpretações e justificações possíveis para os nossos actos e decisões, a filosofia e a literatura florescem. Sem linguagem que nos permite especular, como seria a nossa existência? Mais verdadeira? Mais confusa? Seria insuportável não poder explicar, não poder justificar-se?

2. Antes de morrer, Schumann, que atravessava grave crise mental, quis reescrever toda a sua música. Achava que o que tinha escrito estava fora do tom. O que é o tom, então, e qual é a importância da tonalidade na organização da sintaxe musical? Aplicada à linguagem falada e escrita qual seria a consequência de tamanha dúvida e remorso?

3. Aqueles que nos adulam, e os que dizem que nos amam ou que nos odeiam, não deviam estar tão seguros de si quando falam connosco. Os aduladores, se não estamos temporariamente ou definitivamente corrompidos pela vaidade, é fácil ignorá-los, ouvi-los sem lhes prestar muita atenção ou dar crédito. Nos casos em que é o pretenso amor ou o pretenso ódio que se exprimem directamente e veementemente através da linguagem as coisas não são tão simples. Facilmente podemos acreditar no que ouvimos. É possível que quem nos fala seja sincero, acredite no que está a dizer. Mas não seria difícil, em cada caso, provocar alguma dúvida no espírito de quem se crê tão seguro de si. A vontade de agradar ou ofender são evidentes, as palavras têm um valor que se pode considerar eticamente monetário. Mas as fronteiras entre os sentimentos são muito ténues. O que será aquilo a que chamamos amor ou ódio, o que é um sentimento exactamente? A que entidades obscuras e sem nome se referem as palavras que usamos com tanta aparente segurança como moeda de troca no comércio das relações humanas?

4. Nós dizemos a alguém “não posso viver sem ti” – mas vivemos. Alguns sentimentais suicidam-se, mas são a excepção rara. Que valem as palavras, então? Não se podem levar à letra, pelos vistos. A poesia medieval galaico-portuguesa já glosou ironicamente e sarcasticamente o tema: o poeta morria de amor mas em breve, farsante, ressuscitava. A nossa consciência da pouca validade das palavras ditas surge noutros poemas galaico-portugueses da Idade Média em que o narrador se queixa dos embusteiros que enganam as mulheres dizendo-lhes que as amam quando na realidade só querem aproveitar-se delas. Por causa desses falsos amadores, diz um poeta, sofrem aqueles que amam de verdade, sinceramente. Quem nos garante, no entanto, e quem garante àquela ou àquele que ouve as palavras de amor, que quem as pronuncia não é apenas um exímio e talentoso trapaceiro? Ou alguém que simplesmente não sabe o que diz e diz não importa o quê?

5. Interpretar as frases de uma língua em sentido literal é ao mesmo tempo necessário, tem de se começar por aí, e muito arriscado. O dicionário não tem em conta outros elementos indispensáveis à compreensão da mensagem, nem pode prever as intenções dos interlocutores. A situação em que surgem as palavras, a personalidade e a competência de quem as diz e de quem as ouve, são no entanto elementos que não podem nunca deixar de ser tidos em conta. Além disso, e independentemente das outras condições já referidas, as palavras adquirem importância e sentidos diferentes quando se juntam a outras palavras, quando estão em companhia. O sentido literal é apenas a primeira cara com que nos aparecem as palavras e as frases e por isso, mesmo se nos induz em erro ou se revela imperfeito à partida, seria difícil querer evitar essa etapa ou querer diminuir a sua importância.

6. A linguagem nunca é totalmente clara, se é que alguma vez o é satisfatoriamente. Os mal-entendidos nunca terão fim: por deficiência, à partida, da própria linguagem; muitas vezes por incompetência ou competência imperfeita de quem usa a linguagem; e porque, conscientes apesar de tudo dessa insuficiência da linguagem - e talvez da sua própria incompetência - os seres humanos têm tendência a utilizar as debilidades da linguagem em seu proveito, a priori ou a posteriori. Ainda assim vamos indo, surgem edifícios novos todos os dias em qualquer parte na cidade, abrem-se estradas, joga-se futebol, a tuberculose deixou de ser uma doença a que não se pode escapar, Obama já prometeu fechar o campo de concentração de Guantanamo. Apesar de tão imperfeita, a linguagem serve, tem servido para alguma coisa – e nem sempre para destruir, para mentir e deformar, para subjugar, nem sempre para complicar o que deveria permanecer simples.

7. Será possível um dia fazer um back-up completo do cérebro humano semelhante ao que hoje se faz do disco duro de um computador? Seria divertido por mil razões.

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