Thursday, December 11, 2008

Invasão

Cada palavra uma complicação, um mundo. Episódios, cenas, confusões, umas atrás das outras, umas dentro das outras. Por isso achei preferível calar-me e fazer por não ouvir tudo o que se diz. Evitava a companhia de outras pessoas, gostava de estar em casa, só. Olhava para a parede. Fazia por não pensar. Ia a caminho do silêncio, fazia por criar à minha volta o vazio, no espírito. Não era fácil. As palavras atacavam-me de todos os lados, não renunciavam. Eu punha a mão no rosto impertinente da palavra que se aproximava de sorriso nos dentes, que tentava seduzir-me. Empurrava-a sem piedade para o precipício do nada. Logo a seguir surgia outra palavra e eu repetia o processo: mão firme na cara da palavra, empurrão para o despenhadeiro de onde não se volta. Mas elas voltavam, renasciam das cinzas, não desistiam de me atacar. Cansado, eu sentava-me na cama. Distraía-me de ter cuidado e as palavras, então, reorganizavam-se com mais subtileza e manha, era um exército experiente e tenaz a querer invadir a minha solidão. Tanta insistência era despropositada. O que é que elas queriam? Queriam, cheias de ambição, forçar a entrada. Vinham com o seu mundo, o seu sentido, os pesadelos e as mágoas, os risos e as alegrias de que era necessário desconfiar. Cada palavra uma caixa repleta de surpresas, cheia de sentimentos contraditórios. Mais tarde eu adormecia. Mas a luta repetia-se quotidianamente. A invasão do sentido, a agressão, o desplante, não paravam. Um dia eu seria capaz de as enfrentar friamente, sem ir alem da superfície. Deixaria de ver para além da sua materialidade insignificante, não teria necessidade de me cansar a empurrá-las para fora da minha vista. Seria como olhar para o vazio sem sofrer a ausência do mundo. Por ora faltava-me ainda a experiência, eu não era suficientemente forte para correr riscos inúteis, por isso tinha de me libertar delas afastando-as como se afasta uma mosca obstinada. As palavras não são pessoas exactamente, embora se lhes possam comparar.

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