Thursday, November 27, 2008

Frágeis consensos



Um autor, um livro, podem ser descobertos ou redescobertos ciclicamente por gerações sucessivas. Em vida do autor ou depois de ele ter deixado de escrever. Que significa ser “descoberto” ou “redescoberto”? Significa que em vez de ler e passar à frente, a outra coisa, o leitor se detém, intrigado, e voltará mais tarde aos textos com atenção, curiosidade, interesse, interrogações. O que confere a um texto essa capacidade de suscitar e merecer a atenção que lhe dá existência já é mais difícil de explicar e depende da formação, competência, experiência e interesses do leitor. Como os leitores divergem na formação, nos interesses e na experiência, o mesmo texto pode não merecer qualquer atenção ou merecer atenção sincera em graus diferentes e por razões diferentes. E é assim que se vai escrevendo a história literária, se vai construindo, corrigindo, fazendo e desfazendo aquilo a que chamamos “o canon”. Consenso na formação, na experiência, na competência, nos interesses são a origem da história cultural de um país.

Mas os consensos, como as democracias, não nascem da superioridade, nascem da existência de maiorias. E as maiorias, por vezes ou em certos aspectos, têm razão, estão acima da suspeita de incompetência, e outras vezes não têm razão e limitam-se a partilhar conhecimentos e opiniões que para quem não faz parte dessas maiorias democráticas são contestáveis ou fruto de alguma forma de imaturidade, alienação ou incompetência.

Os consensos, em questões de literatura, são tão políticos e ideológicos como o consenso politico propriamente dito. Embora eventualmente nos queiram fazer crer o contrário. Separar opiniões, politicas ou culturais, das razões ideológicas e da competência que as justificam é um erro de perspectiva alimentado pelo carácter supostamente excepcional e particular, específico, das actividades ditas culturais: nenhuma actividade humana escapa às leis da competência, do saber, nem à ideologia entendida num sentido amplo (não no sentido de oposições simplistas do tipo esquerda/direita, liberalismo/socialismo, evidentemente). E não servirá de muito discutir ou entrar em polémicas: situados em lugares diferentes na galeria dos espectadores, na assembleia das diferenças de classe e de interesses, na escada do tempo, cada indivíduo ou grupo terá as suas razões válidas para escolher o que escolheu, valorizar e desvalorizar o que valorizou e desvalorizou. O mundo não é um espaço uniforme, nele coexistem os tempos mais diversos, alguns estão no início do percurso da aprendizagem e do conhecimento, outros estão no meio, outros estão no fim, sem que se possa esclarecer com rigor em todos os casos a posição de cada um.

Querer explicar uma sociedade sem ter em conta que ela é constituída por indivíduos e grupos sociais que apesar de coexistirem no mesmo espaço geográfico, político, cultural, são dotados de competência e de interesses diferentes, e que além disso se encontram em tempos diferentes na escada do tempo é um curioso mal-entendido.

P. S. Referindo-se a estas observações, Carlos Almeida lembra-me no seu blogue a existência de Stanley Fish - e podia ter-me lembrado também a de Wolfang Iser e outros. Acontece que estive há dias num exame preliminar de PH.D. e que ao ouvir discorrer, entusiasticamente, inteligentes colegas latino-americanos mais jovens não me senti forçosamente membro obediente da comunidade de interpretação a que teoricamente ou institucionalmente pertenço. Donc, je ne suis pas d'accord avec Fish sur ce point - ni sur d'autres, pois eu vejo o texto de um lado e o leitor do outro, sim, mas ambos cheios de potencialidades imprevisíveis e nenhum deles auto-suficiente. A relação do leitor com o texto é uma relação condicionada nos dois sentidos, não num só. Por outro lado a minha noção de "competência" não tem nada a ver com "competência universitária" e só parcialmente corresponderá a qualquer comunidade. A chamada "competência universitária" e aqueles que a tentam imitar sem fazerem parte do grupo têm frequentemente uma característica muito particular: a preocupação de conferir legitimidade e vestimenta de cerimónia à interpretação banal dos textos confere elevação e complexidade despropositadas àquilo de que se quer fazer assunto e tese, complica o que é simples e passa ao lado do que é importante, recorre à citação abundante e despropositada de Freud, de Nietzsche, de Derrida, de Benjamin, etc., para explicar situações que a linguagem e a sabedoria mais comuns podem explicar sem cair no ridículo da solenidade inadequada. As universidades e os jornais estão cheios de especialistas da alma com muito estilo mas cuja sabedoria e gosto não ultrapassa muitas vezes o grau de entendimento e de experiência de qualquer doméstica mãe de familia ou consciencioso contabilista comercial, tomados ambos aqui apenas como tipos sociais eventualmente inexistentes.

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