Friday, July 18, 2008

O jogo das identidades

Que importância tem a identidade colectiva na elaboração da identidade individual? Por outras palavras: que papel desempenha naquilo que eu sou e penso ser o facto de eu ser português ou francês ou inglês? Uma sólida e moralizada identidade nacional provavelmente protege-me das crises de identidade individual que eu possa atravessar. Se faço parte de uma sociedade bem organizada e que pensa, com realismo, bem de si própria, posso correr riscos no meu projecto de realização pessoal, pois nessa sociedade uma segunda ou terceira ou quarta oportunidades não me são recusadas. Na sociedade portuguesa actual, com a confusão de valores e a crise das instituições a que se assiste quotidianamente, é difícil sentir-se bem individualmente e olhar para o futuro com um mínimo de tranquilidade. Os mitos antigos continuam a alimentar em parte os discursos públicos e o nosso imaginário, mas de que adianta hoje orgulhar-se de D. Afonso Henriques, de Camões e dos Descobrimentos?

O FMI diz que Portugal vive acima das suas possibilidades. Vasco Pulido Valente diz, no Público, hoje, que "a desigualdade continua porque o país não produz, não exporta, não investe e não poupa". As confusões do futebol têm um ar de feira ou arruaça popular capaz de desanimar quem quer que ainda tenha alguma consideração pelas instituições. Ser português é de momento apenas um problema e uma doença, um problema e uma doença para os quais parece não haver qualquer solução satisfatória.

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