Wednesday, July 23, 2008

Je est un autre

1. A paciência que é preciso ter para nos darmos com pessoas que pensam que são aquilo que não são e que pensam que nós pensamos aquilo que nós de facto não pensamos, que pensam que nós gostamos daquilo de que de facto não gostamos. Elas não entendem e nós sabemos que elas não entendem. Apesar disso acedemos a falar com elas, ouvimo-las, deixamo-las dirigir-se a alguém que não somos nós. A vida é, deste ponto de vista, uma sucessão de mal-entendidos.

2. O erro tem os seus méritos. Através do erro a realidade renova-se: temos de reavaliá-la.

3. Como se justifica a paixão? Porquê e para quê um amor tão exagerado a um objecto - pessoa ou coisa - que nós isolámos na imensidão das possibilidades? Porque o isolámos, porque o distinguimos dos outros objectos possíveis da nossa concentração exclusiva? Não sabermos ou não querermos explicar não significa que não haja explicação.

4. O que é o isolamento? É sentar-se num café e começar a ouvir, nas mesas próximas, as discussões e conversas mais despropositadas, mais estúpidas, mais banais. Tudo com uma veemência que torna a insignificância odiosa.

5. A falta de pudor e de respeito que alguns jornalistas revelam pelas pessoas inspira-me nojo. A maneira como tem sido tratada a tragédia da menina inglesa desaparecida é um bom exemplo da actual mediocridade portuguesa: a de alguns jornalistas e a do público que lhes presta atenção. A tonta que a RTP envia a Londres e que se permite, com um ar de vedeta sorridente e segura de si, fazer suposições e comentários inadmissíveis sobre o comportamento dos pais da criança, também nos dá uma boa ideia da mediocridade que reina na sociedade portuguesa actual. Que os polícias que falharam e deviam calar a boca publiquem - para se redimir de uma frustração pessoal - livros a dizer o que imaginam que aconteceu e que a televisão corra a entrevistá-los longamente é inacreditável. É o país que temos, saído de uma suposta revolução.

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