Saturday, July 26, 2008

Desvio metafórico

A metáfora é um desvio. Da qualidade do desvio, quando se trata de poesia, depende a qualidade do poema. Há desvios que iluminam aquilo de que se desviaram. Outros desvios, provavelmente a maior parte, deixam à mostra a indigência do pensamento e do sentir, do entendimento e da experiência, tornando mais nítida a indigência daquilo de que se desviaram.

Em vez de se desviar da realidade numa metáfora, talvez seja preferível, para começar, enfrentar essa realidade: tentar entendê-la, captá-la, penetrar na sua aparente simplicidade. Investigar. Reflectir. Não é pela fuga artificial à aparente simplicidade do real que se acede à poesia. Os subterfúgios, se a fuga ao real na metáfora é prova da incapacidade de ver, de entender e de sentir, cedo se revelam o que são: subterfúgios para encobrir o vazio do entendimento e do sentir.

À poesia não se acede mecanicamente, pelo uso superficial de processos tidos por literários. Se a metáfora é usada como tentativa de disfarce – que seria poético – da realidade a que só se acedeu superficialmente, que só se confrontou superficialmente - a metáfora é inútil, pura brincadeira inconsequente.

Se se aspira a ser poeta pelo uso de uma linguagem artificialmente elaborada, para criar à peu de frais a ilusão de que se possui muita cultura, o resultado final não é a poesia mas apenas uma imitação do que é a poesia.

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