Friday, June 06, 2008

Reflexões sobre a poesia (VIII)

so far as I am concerned, poetry and any other
art was and is and forever will be strictly and
distinctly a question of individuality

e. e. cummings


1. As palavras: objectos, folhas da árvore. Caem uma a uma na página ou no ouvido. Cada palavra é uma imagem. Um desejo ou um remorso. Sangue ou água, emoção ou tédio, serenidade ou inquietação. Uma palavra necessita de outras palavras? Sim e não. Dar-se com outras palavras começa a complicar as coisas para a palavra. Nem todas as relações são recomendáveis, nem interessantes, nem significativas, nem compreensíveis. Que não sejam, à primeira vista, compreensíveis as relações entre as palavras não é grave; mais tarde talvez as relações se justifiquem, esclareçam, animem.


2. Eu tenho dificuldade, actualmente, em relacionar as palavras umas com as outras de maneira que me pareça justificada e produtiva. A tendência a repetir relações antigas é enorme e parece-me desprovida de interesse. Mas há jovens poetas que fazem com as palavras e as frases o que a música contemporânea faz com os sons: interrompem as relações que pareciam querer prolongar-se, deixam as palavras e as frases em relações aparentemente (e realmente) incompletas. E então nós prestamos atenção a essas palavras e frases que se recusam a entrar em relações antigas umas com as outras ou a prolongar doentiamente e inutilmente essas relações. E o milagre do sentido novo tem lugar. É como a música contemporânea: a sintaxe mudou, as melodias antigas, pequenas narrativas conhecidas, são interrompidas em qualquer parte, no meio; ao mesmo tempo as relações entre os sons surpreendem porque são inesperadas (não esperadas, exactamente), novas, não usuais.

3. Já não sei ou não sei de novo como pôr "poeticamente" as palavras em relações que se justifiquem, que signifiquem alguma coisa que ainda não se saiba, que façam sentir alguma coisa. A minha capacidade de surpreender creio que subsiste na ligação entre as frases, mas as frases que eu uso são internamente repetição de frases já conhecidas ou de modelos de construção do sentido já conhecidos, que eu e outros usámos e usamos. Falta-me o talento para sair da lógica e da sintaxe da construção das frases antigas. Só sei repetir-me. As relações que eu estabeleço entre as frases (frases que em geral são unidades de sentido, pequenas narrativas ou fragmentos de pequenas narrativas compreensíveis) também me parece insuficiente para continuar a revelar-me a complexidade e a riqueza da experiência. O que eu escrevo, agora, e renuncio a escrever, parece-me estar sempre aquém da gravidade e da profundidade do real. Talvez eu aprenda com os jovens poetas (o Bruno Béu inspirou-me, com os poemas que escreve, algumas destas reflexões) que é preciso inventar uma nova sintaxe poética, desligada das gramáticas poéticas já gastas e ineficazes. Mallarmé fez isso, Celan e Trakl também, imagino. Mas também não se pode apenas repetir o que eles fizeram. Os jovens poetas creio que perceberam isso. Vou continuar a reflectir na sintaxe da música contemporânea, talvez então entenda que as unidades de sentido podem ser palavras soltas, que não se relacionam facilmente ou deliberadamente com as outras palavras, e frases que parecem ou são interrompidas e não se terminam. Talvez combinando palavras que sofrem de solidão e não querem relacionar-se com outras palavras de maneira inteligível, preferindo guardar alguma distância e frieza em relação a elas, talvez combinando frases incompletas se possa dizer melhor o que é difícil ou impossível de dizer, o que se esconde por detrás da aparente legibilidade do real e da experiência.

4. Se eu soubesse alguma coisa acerca das leis da harmonia musical (que mudaram radicalmente) talvez pudesse explicar melhor o que quero dizer. Se eu soubesse alguma coisa da música de outras culturas e tradições talvez compreendesse melhor que da reflexão sobre a música se podem tirar ensinamentos úteis, necessários, à criação poética através da linguagem.

5. Tudo, portanto, é trabalho. Filosofia da música, filosofia da linguagem? Filosofia da sintaxe, da criação de sentido em geral? Não parece que esteja próxima a morte da arte. Que os poetas não saiam do mesmo lugar, que como as rodas do carro que se atolou na lama os poetas se limitem a patinar sem avançar em qualquer direcção só indica uma coisa: falta de saber, de inspiração, de razões sérias para escrever e para aspirar a dizer a realidade poeticamente. Distância, desinteresse em relação ao Ser. A consciência dos problemas técnicos (do “fazer”) não basta para que se acrescente alguma arte nova à arte que já existe, conhecimento ao conhecimento que já temos.

6. Leia-se este excerto de Mimésis, de Auerbach (o capítulo inteiro é importante para o que nos interessa aqui
):

... beaucoup d’écrivains relatent pour eux-mêmes dês événements sans importance et sans influence sur la destinée de leurs personnages, ou plutôt ils les utilisent comme points de départ pour développer leurs thèmes, pour créer des perspectives au sein d’un milieu, ou d’une conscience, ou d’un arrière-plan historique; ils ont renoncé à représenter l’histoire de leurs personnages avec la prétention d’être complets.*

Na literatura contemporânea a importância dada a aspectos da realidade que em si mesmos são banais contrasta com o tratamento dado a esses acontecimentos insignificantes ou banais no passado. Recorde-se, seguindo ainda Auerbach, e embora pareça que não vem a propósito, que o povo e o universo das classes populares só entram na literatura como tema sério com o Naturalismo. É impensável imaginar o teatro de Corneille debatendo os problemas dos mineiros de Germinal. Para a novela pícara a personagem do pobre só conta como fonte de cómico.

7. As referências a aspectos insignificantes da realidade ou da experiência, a detalhes que são ou parecem ser banais, multiplicando-se, tornaram-se na arte moderna mais eficazes do que uma representação que desde o início enuncia o acontecimento importante e se concentra em seguida em desenvolvê-lo sem se afastar dele nem nunca o interromper significativamente. Na realidade uma poesia que se pretenda moderna não simplifica deliberadamente a complexidade do real e por isso não hierarquiza de antemão os acontecimentos. É porque começa por tratar todos os acontecimentos, todos os aspectos da realidade e da experiência como iguais que o poema pode vir a descobrir a importância do que à primeira vista parecia insignificante. A obra não deixa de perseguir o sentido mais profundo dos acontecimentos representados, das experiências evocadas. Mas não o faz identificando imediatamente o acontecimento - o sentimento, a experiência - importante e aplicando-se em seguida a desenvolvê-lo concentrando-se na lógica aparente da sua maturação. O que é importante é perseguido, procurado, investigado, e finalmente revelado na sucessão de referências a detalhes em si mesmos insignificantes, isto é, desprovidos à primeira vista de qualquer importância. Mas nem sequer se pode falar de revelação se por revelação se quiser entender que o poema acabou por clarificar de maneira inequívoca o sentido do que perseguia ou alguma coisa. Não será por isso que o sentido de um poema não se pode resumir?

8. A insignificância do insignificante é sempre aparente. A nossa atenção, preocupação, investigação, têm a capacidade de reabilitar o que por hábito ou distracção passa por insignificante. Não será essa uma das razões e utilidades da poesia? Também é uma das explicações para a existência de tanto lixo poético - porque para resgatar o insignificante da sua aparente insignificância não basta ter sintaxe nem,
além de ambição e ilusões, metáforas.

9.
Toda a arte devia ser, além de outras coisas, experimental, isto é, insegura de si? Na música contemporânea mais avançada (mais experimental? ) a melodia e a sintaxe da obra são inicialmente difíceis de captar porque a sucessão dos sons (mais longos, mais breves, mais fortes mais suaves) é imprevisível e provavelmente só a audição repetida da obra permite sentir que há melodia, isto é, que estamos perante qualquer coisa que se assemelhe a uma narrativa que faz sentido. A audição repetida da obra permite entender que as unidades musicais que se sucedem e combinam de maneira surpreendente, pondo em prática uma sintaxe imprevisível (não conhecida ou familiar), são unidades musicais que antes só se combinavam respeitando outras regras de harmonia, de composição: as tradicionalmente aceites. A revolução terá começado com Arnold Schoenberg, Alban Berg, Anton Webern, como se sabe.

10. Na literatura mais moderna não estará a acontecer qualquer coisa de semelhante? O que é aparentemente banal, insignificante em si mesmo, deixou de ser apenas elemento secundário e de menor relevo ao serviço do grande tema ou tópico principal da obra, do seu princípio organizador, e adquire, na obra para cuja construção contribui, uma autonomia que lhe confere dignidade, profundidade, importância em si mesmo. E é a nossa própria percepção da realidade que deste modo é modificada, aperfeiçoada, alargada. A literatura educa-nos, obriga-nos a ver por detrás da insignificância do que é aparentemente modesto e insignificante uma riqueza de sentido que a preguiça, o hábito, a distracção, a educação recebida não permitiam discernir. É uma revolução de tipo marxista.: o pobre, o humilhado, aquele que se desprezava, renasce da situação que injustamente não o tinha em conta e surge à luz do dia investido de um poder e importância antes invisíveis.

11. Que não haja mal-entendidos, porém: o insignificante que se tornou tema importante da obra não perdeu o seu carácter de tema aparentemente menor, de tópico aparentemente insignificante. Se isso acontecesse estaríamos de novo perante a estética do passado, pois o detalhe de menor significação teria acedido assim, através da obra, à dignidade de tema maior. Na arte moderna a unidade de sentido menor não perde a sua menoridade, mas junto a outras unidades de sentido, a outros detalhes de importância também menor, contribui para a grandeza e importância da obra. A obra pode ser composta por elementos de significação considerada menor, mas como totalidade acabada impõe-se como revelação de um sentido que em si tem a importância e profundidade de sentido que no passado só era conferido aos grandes temas, aos grandes problemas, aos acontecimentos que marcam uma existência ou a experiência.

12. O que parece informe pode ser uma forma ainda desconhecida de organizar a experiência e de criar a obra.

13. Uma destas noites, num sonho, ouvi dizer ao Lobo das Estepes: a poesia de Fernando Pessoa revelou-me muita coisa, mas hoje cansa-me e aborrece-me, já percebi a lógica mental e o mecanismo de construção dos poemas dele. Uma voz de mulher saída da sombra murmurou: essas coisas não se dizem, está bem? Eu continuei a dormir, desinteressado da conversa. Todas as personalidades, uma vez conhecidas (algumas não se deixam conhecer, felizmente) são monótonas.

14. Escrever a história da poesia sem se preocupar antes de mais nada em querer saber e em explicar o que é poesia para quem a escreveu e para quem a leu não seria uma coisa espantosa? Coisas espantosas acontecem todos os dias.

15. Quanto à frase de cummings que citei no início: o problema é que ser uma "individuality" não está facilmente ao nosso alcance, tudo tende a fazer de nós pessoas de senso comum, que vemos, entendemos, pensamos, aceitamos, usamos e usufruimos, confortavelmente, segundo modelos que nos são fornecidos e que se tornam uma espécie de segunda natureza raramente posta em causa. Vamos indo, não é? Distraídos, mas vamos indo.

*Paris, Gallimard, 1968, traduit de l’allemand par Cornélius Heim. Publicado em alemão em 1946.

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