Monday, June 02, 2008

Reflexões sobre a poesia (VII)

1. Um poema constrói-se com unidades de sentido. As palavras são unidades de sentido. A pontuação é uma unidade de sentido. O verso é uma unidade de sentido. As sílabas são unidades de sentido. A sonoridade é uma unidade de sentido. A palavra, unida a outras palavras, perde parcialmente o seu valor de unidade de sentido independente ou simples para entrar na constituição de unidades de sentido compostas, que são as frases. Acontece o mesmo com as outras unidades de sentido: inseridas no grupo ou na totalidade, todas as unidades de sentido perdem e ganham sentidos e importância no poema.

2. Uma palavra pode impor-se na frase como unidade dominante, contribuindo de maneira mais importante do que as outras palavras a que está unida para o sentido dessa frase e para a importância dessa frase ao lado das outras frases do poema. As frases a que me refiro não são períodos, isto é, não se terminam forçosamente com um ponto final. As frases a que me refiro podem ser frases que nem sequer são frases perfeitas ou que se completaram respeitando as regras e a coerência exigidas pela gramática.

3. As várias frases do mesmo período, por sua vez, entram em relação umas com as outras. A importância que tem cada frase enquanto unidade de sentido no conjunto das frases do mesmo período e, de maneira mais alargada, no conjunto das frases do poema, é impossível de definir teoricamente de maneira peremptória e definitiva: cada caso é um caso particular, a ser avaliado em si mesmo.

4. A memória, racional e afectiva, que nós adquirimos, no passado, do sentido e do uso das palavras e das frases interfere com a nossa recepção das palavras e das frases que lemos. A nossa relação com as palavras não se esgota na interpretação do seu sentido "literal" ou mais evidente.

5. As palavras têm forma e a forma das palavras também tem sentido, embora seja difícil ou impossível explicar ou definir esse aspecto do sentido. As palavras são ossos com carne à volta, a carne dos sentidos que cada um de nós, na experiência, lhe foi pondo à volta. O sentido das palavras tem a ver com a sua forma de existência material, física. A nossa experiência das palavras não é apenas experiência do seu sentido literal ou definido pelo dicionário. É na frase provavelmente que se entende melhor que o sentido literal ou mais evidente das palavras pode sofrer tranformações significativas.


6. Um poema é uma unidade de sentido fechada formalmente, materialmente, em si mesma. É um acto de fala particular que ocorre no contexto global da língua. Nessa unidade fechada algumas palavras e algumas frases podem impor-se como mais determinantes do que outras pelo papel dominante que desempenham na construção do sentido final do poema. Impõem-se diferentemente a leitores diferentes, em tempos e provavelmente espaços diferentes ao mesmo leitor porque a língua não é um bloco de granito insensível ao carácter privado da experiência nem ao acumular das experiências. A importância que atribuímos às palavras e às frases do poema, a essas unidades de sentido parciais do poema, acaba por ser o que influencia (ou cria) a nossa interpretação pessoal e circunstancial do poema. O que significa que eu posso fazer, em momentos diferentes, leituras diferentes do poema, ora mais influenciado por certas unidades de sentido, ora mais influenciado por outras (ou pelo meu estado de espírito). A leitura de um poema é de cada vez para mim uma experiência particular. Mas temos de admitir que nas várias leituras que fazemos de um poema haja coincidências, uma constância no que respeita à interpretação que fazemos do poema. Admitir o contrário também não nos fica mal: relendo, descobrimos às vezes que tínhamos lido mal ou erradamente. Que a noção de errado e de certo seja discutível e problemática não invalida que seja assim que sentimos que as coisas se passam.

7. Interpretar não resulta de escolhas ou avaliações feitas conscientemente, embora ter alguma consciência das razões por que sentimos e interpretamos como o fizemos seja natural. Há poesia que obriga a reflectir – quem “entende” os poemas de Rimbaud, de Trakl ou de Celan, para só citar casos extremos, o bastante para explicar o que sentiu? – mas em muitos casos o momento da reflexão confunde-se com o momento da interpretação do poema. Não é razão para surpresas: como a camponesa dos sapatos de Van Gogh, que usava os sapatos sem estar a pensar “eu uso estes sapatos”, nós vamos vivendo sem pensar que vivemos, espontaneamente – embora nunca deixemos de pensar, o que, como se sabe, aborrecia bastante Alberto Caeiro...

8. A arte só me interessa na medida em que me dá - revela, etc. - alguma coisa que eu não tenho ou não sei. A arte só me interessa se responder a uma necessidade minha ou me revelar que eu, ignorando-o, tinha essa necessidade por satisfazer. Aquilo de que precisamos, as necessidades que temos, o que nos falta, não falta forçosamente aos outros. As nossas insuficiências e interesses mudam com o tempo e a experiência. O que nos dá prazer a nós pode não dar prazer a outras pessoas, apesar de certo consenso que nos permite estar juntos numa sala de cinema ou num estádio a ver um jogo de futebol sem que surjam, em geral, conflitos graves. E se as editoras vendem centenas ou milhares de livros é porque há algum consenso de necessidades ou de gostos nos compradores. Pode ser um consenso imaginário, que depois, na leitura, se desfaz, porém.

9. Uma grande parte, talvez a maior parte da poesia que hoje se escreve parece-me inútil e portanto desnecessária - parece-me a mim, do que se passa com os outros não sei nada. Não me refiro apenas à poesia portuguesa, pois na americana, na espanhola ou na francesa, etc., não encontrei ainda razões para ser mais optimista. Pode ser por ignorância, eu não pretendo conhecer tudo - mas estou aberto a sugestões. O passado foi melhor? Não acredito muito nisso. O “cult value” de que goza a arte (reler Walter Benjamin também vem a propósito) provavelmente explica que se encantem ainda com nada pessoas que se habituaram a respeitar o que se considera artístico e que se deleitam na mastigação e digestão de bombons que podem parecer espirituais e orgânicos quando na realidade são enjoativos e vomitados pela exibição narcísica do nada. Um nada que nem sequer é o vazio, que é puro nada sem substância nem interesse.


10. É impossível que o lugar (o continente ou o país, por exemplo) onde se dizem as palavras, o lugar onde se escrevem os poemas, não tenha a ver com o seu sentido quando os poemas são escritos. A interpretação de um poema também não escapa a esta regra: o lugar onde se lêem ou ouvem as palavras condiciona a interpretação que fazemos delas. É uma questão de competência, inexplicável talvez mas real. Tem a ver com o hábito, com a facilidade ou dificuldade com que as coisas acontecem, com a frequência: quem vai à ópera ou ouve em casa (no continente, país, aldeia ou cidade onde vive) quartetos para cordas regularmente não está na mesma situação que quem só o faz esporadicamente por falta de ocasião ou gosto para fazê-lo mais frequentemente. Lisboa não é Roma, o Porto não é Londres, Coimbra não é New York. Apesar de tudo o que, hoje mais do que nunca certamente, contribui para a uniformização, o sentido das palavras e a noção do belo e do sublime variam em grau maior ou menor não só segundo as pessoas e as classes, mas também segundo o lugar do mundo onde se está. A educação que se recebeu, o grau de desenvolvimento intelectual e cultural, o estado da economia, tudo interfere com a nossa capacidade de produção e de apreciação dos produtos culturais. Para contrariar o que acabo de dizer há pessoas que vivem em países que não existem e esses países que não existem acabam por ser lugares da experiência que parece escaparem aos condicionalismos dos países que existem.

11. Para quê perder tempo em minúcias? Não basta dizer que em todos os actos de fala e na interpretação de todos os actos de fala é a experiência, que inclui ou é saber, que inclui a competência técnica, que decide tudo?

12. A adoração que os neófitos e a burguesia por esclarecer têm pela arte é ingénua e nasce de um êxtase que tem pouco a ver com o sentido ou a revelação de sentidos provocados pela obra de arte. É arte, pronto: razão suficiente para justificar o entusiasmo. A experiência da arte provoca em algumas almas sobressaltos de distinção e superioridade em relação aos outros mortais e em relação a outras experiências. Um poeta põe-se a ouvir discos e escreve um livro de poemas sobre as suas delicadas, profundas emoções, dando em espectáculo aos outros, para que o admirem, a sua pretensa sensibilidade e perspicácia superiores. Pode ser ridículo, mas para ele foi uma forma de sobrevivência. Alguns leitores, tão ignorantes como ele, tão pouco experientes como ele em questões musicais, extasiam-se. Tudo é possível.

13. Para quê complicar as coisas? Evidentemente que a arte proporciona uma experiência que se pode designar por estética. Mas será tão difícil de entender que, sendo as palavras e as frases simultaneamente forma com sentido e sentido com forma, essa experiência estética tem duas dimensões ( na realidade quatro) que se confundem? O que torna válida, superior, importante uma obra de arte é a sua capacidade de evocar, desvendar, questionar o Ser - o que faz parte do mundo, o que existe mas necessita de ser revelado, o que existe mas dificilmente ou raramente se revela - de uma maneira que satisfaz a inteligência e que dá prazer. A arte é útil porque transmite conhecimento, experiência, porque nela se manifesta uma visão do mundo coerente ou aspectos de um visão do mundo interessante. Por que razão é que a inteligência se satisfaz nesse contacto com o enigmático Ser, nessa compreensão de um sentido particular das palavras e do poema? A inteligência ou seja o que for que em nós é capaz de admirar, de amar, detestar, de se deleitar, de sentir repugnância - admira e ama, deleita-se ou sente repugnância porque aquilo que é revelado nos é revelado de certa maneira e não de outra. O prazer ou desprazer de fazer face à verdade do Ser nasce simultaneamente daquilo que é revelado e da maneira como se processa a revelação. Haverá manual de retórica capaz de teorizar e legislar sobre esta questão de maneira a prever futuros usos da linguagem no poema, de maneira a apetrechar o leitor com uma competência infalível em questões de estética? Segundo o manual o poema será bom se... Ou será mau se... Ilusões de neófito. Cada poema é um acto de fala único, arriscado, de consequências imprevisíveis. Ou não é isso e então, se é apenas repetição cansativa do já que já é conhecido, não é nada nem devia interessar-nos.

14. Pretender que uma paráfrase em prosa é um resumo satisfatório de um poema é mostrar um desprezo incompreensível pela linguagem enquanto criadora, na sua forma, de sentidos. É considerar que as palavras do poema são vasos onde se depositou o sentido e que o sentido se pode apreender e transpor para outra forma de discurso sem que na transferência se tenha perdido alguma coisa de essencial. Reler Hjelmslev.

15. E por que razão é que o prazer e o proveito que experimentamos na leitura do discurso da reflexão filosófica ou da reflexão científica tem de ser distinto do prazer que nasce da leitura de um poema? Por que razão é que o prazer que nasce da leitura do poema tem de ser classificado à parte do prazer que nasce de outras experiências? Magia, preconceito, consequências do “cult value” que pretende aproximar a experiência estética da experiência religiosa. Preconceito para mim incompreensível de Vattimo. Mas tem de reconhecer-se que os próprios poetas se iludem quando imaginam que as palavras e frases que usam têm um poder semelhante ao da palavra balbuciada na experiência religiosa ou na experiência amorosa profunda. É que nestes casos a razão de facto ofusca-se e permite-se ingenuidades que noutras situações serão vistas como ridículas ou sintoma de loucura. O êxtase nervoso tem poderes que feliz ou infelizmente deixam de actuar quando voltamos à realidade.

16. E para acabar por agora: o que é que explica que as pessoas que escrevem poemas pensem que escrever poemas é a melhor maneira de resolver um problema, de se aproximar da verdade, de ter e proporcionar prazer? Porque é que escrevem poemas em vez de ir nadar, passear no jardim, namorar ou jogar às cartas, perorar para o café? Será o poema para algumas pessoas uma espécie muito privilegiada de medicamento, de experiência religiosa e amorosa, de realização social? Ou uma droga semelhante à marijuana?

17. E por que é que não havíamos de ter o direito de errar e de brincar com coisas sérias?

No comments: