Sunday, June 08, 2008

Reflexões sobre a poesia (IX)

1. Há anedotas (jokes) que são ininteligíveis para quem não faça parte da sociedade ou do grupo social em que são inventadas. As pessoas ouvem e não percebem onde está a piada. Com a literatura acontece a mesma coisa. Estou a dizer, sem querer, que na mesma sociedade existem capacidades diferentes de produzir e de apreciar uma obra literária? Parece-me evidente. Graus e qualidade da experiência diferentes criam graus de competência e gostos diferentes. Escolher, recusar, hierarquizar são inevitáveis.

2. É o público, são os leitores que acabam por validar a ambição do escritor ao reconhecer que o que ele escreve é literatura. Mas o escritor pode receber essa forma de reconhecimento de muitos ou de poucos, de mais ou de menos leitores. Ser popular, vender muitos livros, significa que o reconhecimento (ou será a curiosidade? ou será o desejo de possuir o que os jornais promovem ou outras pessoas admiram?) chega ao escritor de muitos lados. Mas não significa que chegue de todos os lados. O sucesso do escritor, porém, não nos diz nada acerca da qualidade, maior ou menor, do escritor. A qualidade do escritor reconhecido é igual à qualidade do público que o reconhece. O risco de mal-entendido é enorme: os livros que são comprados podem não ser lidos, podem não ser compreendidos ou ser mal compreendidos, podem não satisfazer, por razões boas ou más, o leitor que os comprou.

3. Um escritor sem público hoje pode ter muito público amanhã. E vice-versa: um autor famoso hoje pode ser totalmente ignorado amanhã. Mas os escritores também criam leitores, para si mesmo e para outros escritores.

4. Não é só o sabão que se gasta com o uso, acontece o mesmo com a literatura. E no entanto há autores e obras que têm séculos de existência e continuamos a lê-los. Nem tudo se gasta depressa, nem tudo se gasta logo. Porque será? Será uma questão que exige uma resposta filosófica? Ou basta dizer que as civilizações evoluem e morrem mas alguma coisa subsistiu e foi preservada da destruição?


5. A linguagem da poesia pode satisfazer a sensibilidade e o imaginário de determinada sociedade ou grupo social e ficar-se por aí. Aquilo que se designa por universalidade - uma forma de consenso que não suporta o que é sentido como supérfluo e excessivamente local, que não se compadece com a inutilidade ou a insuficiência da forma - é difícil de alcançar.

6. A questão da suposta universalidade do gosto não pode ser resolvida pela referência às qualidades do objecto apenas. Parece-me que isso é evidente. A questão do gosto – a questão do prazer ou desprazer provocados pelo objecto – é sempre condicionada ao mesmo tempo pelas qualidades do objecto, por aquilo que ele é, e pelas qualidades do sujeito, por aquilo que o constitui o sujeito enquanto tal.

7. Algumas qualidades do sujeito são em parte comuns a todos os sujeitos: todos sabemos caminhar, respirar, olhar, e se nos pisam o pé sentimos dor. Mas o sujeito constituiu-se através da experiência e a experiência é sempre pessoal. Enquanto sujeito eu sou o resultado da minha experiência como sujeito: resultado de tudo o que me aconteceu, de tudo o que fiz ou não fiz, de tudo o que senti ou não senti, de tudo o que aprendi ou não apreendi, de tudo o que sei ou não sei, quer eu esteja consciente disso quer não.

8. Por essa razão a relação que se estabelece entre o sujeito e o objecto é sempre a relação entre duas entidades dotadas de qualidades do Ser que escapam à universalidade. Essas qualidades do Ser são o resultado de algumas características do objecto e do sujeito anteriores ao fazer ou à experiência que os constitui: é um livro, é um quadro, é um filme; sei ler, tenho olhos para ver. Mas se o facto de eu ter olhos me permite contemplar um quadro, não explica de modo nenhum o que eu sinto ou penso quando ou enquanto olho o quadro. O facto de eu saber identificar os caracteres do alfabeto e poder ler um livro não explica de modo nenhum por que razão eu tenho prazer em ler Camões e não tenho prazer em ler outros poetas.

9. As distintas qualidades ou modos de ser do sujeito e do objecto quando comparados com outros sujeitos e com outros objectos tornam privada e única a relação entre cada sujeito e cada objecto. Sendo única, ocorrendo apenas uma vez, essa relação entre o sujeito e o objecto não poderá nunca ser universal no sentido correcto da palavra.

10. Mas alguma coisa ficou por dizer: o objecto, o poema, é ele próprio o resultado do "fazer" de outro sujeito. Sujeito que enquanto sujeito só se distingue do sujeito que lê o poema por ter manifestado, ao escrever o poema, em grau maior ou menor, com sucesso ou sem sucesso, duas capacidades: a de escrever e, eventualmente, a de saber escrever poesia; e a de permitir ao leitor, se para tanto teve, ao escrever o poema, o talento ou o saber necessários, confrontar-se com a verdade que o poema desvendou. Convém ainda sublinhar que é a apreciação do poema, a experiência de confronto directo com a beleza ou a verdade (é a mesma coisa, imagino) que o poema desvendou que é apreciada, usufruída. Admirar o grau de competência poética do poeta é uma experiência diferente, secundária, consequência da qualidade da experiência de leitura propriamente dita.

11. As razões que permitem falar de identidade de gosto ou de saber – identidade real ou aparente, total ou parcial - não são inacessíveis ao entendimento racional nem, consequentemente, à explicação.

12. A universalidade não existe, é um conceito utópico. O consenso que permite falar de universalidade é uma construção social destinada a criar artificialmente uma comunidade ilusória. Esse consenso estabelece-se, nos melhores casos, tendo em consideração apenas algumas qualidades do objecto e algumas qualidades ou capacidades do sujeito. Nos piores casos, o consenso nasce da simplificação abusiva e da manipulação superficial, senão política ou comercial, das qualidades do objecto e das qualidades e capacidades do sujeito.

13. É sempre mais fácil pôr de acordo cem sujeitos sobre quatro qualidades do objecto do que pôr de acordo um milhão de sujeitos sobre trinta qualidades do objecto. A universalidade das condições a priori do conhecimento e do gosto é uma utopia.

14. Acreditar que existe uma faculdade do espírito especializada unicamente em sentir prazer ou desprazer, que actuaria independentemente de outras faculdades do espírito - como a de compreender e de conhecer, por exemplo – também me parece uma ilusão teórica. Sentir prazer e desprazer não acontece à margem de outras faculdades do sujeito nem é inacessível à explicação e ao conhecimento racional. As excepções - prefiro o azul e o verde ao vermelho, por exemplo; ou as linhas curvas às linhas rectas - não invalidam a regra: eu não sou cientista e portanto nada sei do modo de funcionamento do sistema nervoso, mas isso não significa que o seu comportamento seja injustificado e inacessível ao conhecimento.

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