Tuesday, June 10, 2008

As ficções de Fernando Pessoa

My life consists in my being content to accept many things.

Wittgenstein, OC, 344


1. Para Fernando Pessoa, a vida, tudo o que se faz na vida, não é um sonho exactamente; é ficção. Do sonho pode acordar-se para a realidade, mas a ficção é permanente porque não há lugar para onde escapar-se dela. Entende-se que Alberto Caeiro tenha querido educar-se: a tendência, para ele como para Álvaro de Campos e para os outros heterónimos de Pessoa, é ver em todas as coisas não o que elas são, mas outra coisa.

2. Querer ser outra coisa, como Álvaro de Campos, por exemplo, que, em acessos de histeria conhecidos e assumidos, diz que é ou quer ser objectos ou pessoas que não é, estar em situações em que não está mas é como se alucinadamente estivesse, trai um excesso ou um vazio do Ser? Ambos, provavelmente, mas a impossibilidade de fixação num sentido, numa identidade, parece ser o estado ou condição a que não se pode escapar. As imagens de Camilo Pessanha, que passam pela retina e não se fixam, provavelmente eram já indício de uma "doença" semelhante e da mesma confusão e insuficiência do Ser que no entanto transborda de si mesmo. Mas Camilo Pessanha não foi tão longe e permaneceu romântico.

3. Ver em tudo não o que é mas outra coisa transforma o mundo e a existência numa espécie de carrossel de pesadelos. Pesadelos porquê? Porque o espírito sabe que ao olhar para o que existe nunca vê o que lá está, sempre vê outra coisa. É verdade que Heidegger fala do Ser que permanentemente se esconde quando parece revelar-se: por detrás do Ser que se desvelou, outras manifestações do Ser se escondiam. E quando se revelam é sempre para se ocultarem por detrás de outras manifestações do Ser que entretanto vieram lá de trás, da sombra, para ocupar o lugar da frente e por sua vez o ceder imediatamente a outras manifestações do Ser.

4. A proliferação doentia dos sentidos ressurge ou ilustra-se no uso da metáfora. Quem recorre à metáfora prova que não escapa a em tudo ver ou querer que se veja outra coisa. Para dar a ver ou explicar o que se vê, chama-se outra realidade, mostra-se outra coisa. Muda-se de assunto, afinal. Compreende-se o uso do processo para dar materialidade e existência visual aos processos mentais, aos conteúdos da consciência. Mas esse uso da metáfora é apenas um dos seus usos.

5. A poesia de Alberto Caeiro pode ser que seja um testemunho interessante e importante do cansaço de séculos e séculos de civilização, isto é, de séculos e séculos de descoberta e acumulação de sentidos, tudo inspirado e justificado pela necessidade de encontrar o sentido da vida, a coerência da existência, a razão de ser do mundo. O real, investigado, amplifica-se, os seus limites deixam de ser perceptíveis e acessiveis à nossa necessidade de organização e de pensamento claro. Por detrás de cada árvore, de cada folha de árvore, de cada rio, de cada montanha, de cada rua, de cada pessoa, acenam-nos outras manifestações do Ser do mundo, outros significados, outras imagens, sensações, expressões, sentidos. Considerar que tudo é ficção é considerar que o Ser do mundo em si mesmo nos é inacessível como realidade, que nós só conhecemos o mundo através das representações alucinatórias que dele temos ou fazemos - influenciados, condicionados e limitados pelos conceitos, pela nossa dependência da linguagem, do uso das palavras com que, superficialmente quase sempre, nomeamos e queremos impor ordem no mundo. Sem alucinação, sem a ficção que a cobre e oculta, o que é a realidade? Compreende-se que haja quem acredite em Deus. Mas Heidegger faz-nos acreditar que o mundo e a realidade do mundo não são uma ficção. O real esconde-se, furta-se. Mas nós por vezes surpreedemo-lo, depois deixamo-lo escapar-se outra vez. Tudo isto dá muito que pensar, evidentemente.

6. É essa talvez a fraqueza da poesia de Fernando Pessoa. Para ele tudo é ficção, o que é uma maneira de não levar a vida a sério e de a depreciar. Boa desculpa para não viver. A queixa é permanente. Como modelo de pensamento usado repetidamente no processo de construção do poema pode ser considerado frágil. Todas as estéticas têm os seus limites. Será esse o limite da estética de Fernando Pessoa? Porque tudo é ficção, a existência é uma comédia sem sentido, sem objectivo, sem justificação, sem utilidade. A própria comédia que se recusa a ser drama é uma ficção do sujeito, o que explica que a vida seja vista por Pessoa e os heterónimos não como tragédia (clássica ou romântica) mas apenas como uma espécie de brincadeira gratuita em que os deuses nos meteram. Compare-se esta permanente e a dado momento cansativa atitude irónica e destrutiva de Pessoa e dos heterónimos (sem esquecer Bernardo Soares, evidentemente, nem o brilhante exercício dialéctico de O Banqueiro Anarquista, afinal uma crítica simultânea do projecto anarquista, da revolução comunista e do capitalismo) com a atitude de Holderlin, de Rilke, de Trakl, de Celan, poetas para quem a alegria e a tragédia existem de facto. O esforço de Alberto Caeiro, que aspira a sentir sem pensar, pode ser uma indicação de que Pessoa estava consciente do problema. Mas Caeiro tenta resolver a questão da proliferação dos sentidos - que acabam por tornar o mundo um lugar confuso e sem sentido, o lugar da ficção que não se pode levar a sério - eliminando a reflexão e o sentir que é "errado". Caeiro aspira a uma coincidência ingénua, infantil, com o Ser porque essa coincidência, tornada possível pela eliminação da reflexão e do pensar filosófico, resgataria o real na sua pureza, eliminaria, podemos pressupor, a fiçção. Para Caeiro toda e qualquer reflexão é deformação da realidade, traição da espontaneidade e pureza do viver. Traição em relação ao que deveria ser o nosso destino: vivermos sem a consciência que, contra a nossa vontade, problematiza todas as nossas experiências, problematiza todos os nossos contactos com o real.

7. Como já sugeri acima, parece-me que há na poesia de Fernando Pessoa (e não distingo os heterónimos porque nessa outra ficção encenada por Pessoa só acredito um pouco) uma atitude em relação à experiência que se pode tentar elucidar recorrendo às reflexões de Heidegger sobre a poesia como "desvendar" ou "desvelar" do Ser
(aletheia: "the uncovering of beings") , como "exposição" do Ser que enquanto se "expõe" não deixa nunca de se esconder. Renunciar a viver porque a vida, que é ficção, não tem sentido nem pode ser levada a sério, acusar a realidade de não ser realidade mas ficção, pode ser uma tentação compreensível, mas parece que é uma solução precária, altamente discutível e que não resolve o problema. Os gregos da Antiguidade Clássica encararam a dificuldade de uma perspectiva mais humilde e mais humana. Trágica.

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