Wednesday, May 28, 2008

Reflexões sobre a poesia (VI)

Ainda os barcos e os poemas

1. Qual é o critério que permite imaginar, reconstruir mentalmente, o que seriam um poema perfeito, um barco perfeito? Provavelmente não é necessário nem possível ser tão exigente. Saber de que partes é feito um poema, de que partes é feito um barco, em contrapartida, é importante. Identificar as diferentes peças, partes, unidades que compõem o todo – barco ou poema - é já indício de alguma competência. Essa competência, para ser competência adequada, implica o conhecimento e identificação detalhados das peças, das partes, por um lado; e o conhecimento das técnicas ou processos que permitem juntá-las de maneira apropriada no todo que é o barco ou o poema. Esta actividade que consiste em juntar as diversas peças entre si num todo obedece à natureza dos materiais utilizados, que têm de ser ligados entre si no lugar apropriado - num lugar exacto deles, num lugar exacto dos materiais a que são unidos, num lugar exacto do objecto acabado - e de maneira adequada às funções que cada uma dessas partes vai desempenhar no todo. Por outro lado preside à construção desse objecto que é o poema ou o barco a consciência do objectivo em vista, a consciência da finalidade e da utilidade do objecto.

2. Já se entrevê que há muito menos liberdade na “maneira apropriada” de juntar as peças no caso do barco do que no caso do poema, porque o barco é construído para navegar - e não, por exemplo, para voar – e as razões pelas quais é escrito um poema são incertas, difíceis de identificar com clareza ou certeza. Um poema pode ser escrito com as intenções e fins em vista mais diversos - ou sem razões nem objectivos claros, conscientes pelo menos. Podíamos especular aqui sobre a construção de um barco que não fosse construído para navegar mas com outra finalidade, mas afastar-nos-íamos do que estou a tentar compreender e explicar.

3. O facto de se ter a competência que atrás fica referida confere-nos a capacidade de avaliar com competência de especialista a qualidade de um barco ou de um poema? Parece inegável que teremos alguma competência para o fazer. Mas o facto de sermos dotados de alguma competência não significa que estejamos dotados da máxima competência nem sequer de uma competência suficiente. Podemos ter essa competência superior, nada o impede, mas ela não deriva forçosamente de termos alguma competência para compreender como se faz um barco, como se faz um poema. Fica portanto por resolver a questão principal: o que é que nos dota do poder de distinguir um bom barco ou um bom poema de um barco ou de um poema banais?

4. Outra pergunta que tem de fazer-se: o facto de termos a competência que atrás fica referida confere-nos a capacidade de construir um barco ou um poema? Ter a competência que permite entender com rigor o mecanismo de fabrico de um barco ou de um poema não me parece que nos apetreche com a capacidade de construir um barco ou poema senão rudimentarmente, pois para construir um bom barco ou um bom poema exigem-se outras formas de competência. Que outras formas de competência? A competência técnica apurada do engenheiro ou do arquitecto no caso do barco. A competência apurada do poeta no caso do poema. Uma competência que é da ordem do fazer e não apenas da ordem do compreender. Fica no entanto por resolver a questão principal anda neste caso: o que é que constitui a competência “apurada” que permite construir (desenhar e depois construir ou mandar construir) barcos como os que utilizavam Eric Tabarly ou Alain Colas, poemas como os que escreveram Goethe, Holderlin, Rilke, Celan, Cesário Verde, Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Herberto Hélder? Para me livrar da pergunta apetece-me responder: estamos finalmente a falar de “arte”, da capacidade artística.

5. Esqueci-me de falar da qualidade dos materiais. Para poder usá-los adequadamente e com sucesso não basta saber identificá-los nem à maneira como se unem a outros materiais; é preciso conhecê-los a fundo. Parece-me que isto é verdade tanto para os barcos como para a poesia. Não há razão para entusiasmos, porém: conhecer a fundo a qualidade dos materiais permite usá-los de maneira apropriada e pode ser a condição necessária para sermos capazes de construir um barco ou um poema que sejam respeitados como tais. Mas ainda neste caso o que é necessário para atingir a excelência não é forçosamente suficiente para fazer surgir a obra-prima. É preciso mais do que isso. O que é que é preciso, então? Resposta que considero insuficiente porque não a sei explicar, mas que me liberta da pergunta incomoda: é preciso “arte. Só que eu não sei explicar o que é “a arte” ou só o sei intuitivamente e rudimentarmente, falando sobretudo do que a arte me faz sentir e relacionando o que sinto com a maneira como os materiais estão - como eu os vejo estar- organizados na obra.

6. A qualidade dos materiais tem de ser adequada à construção do objecto a que eles permitem dar a forma final de objecto único, de “coisa”. Mas o que pode ser válido para um barco não é válido para a literatura da mesma maneira. Se por qualidade literária se entendesse apenas o que entendiam os retóricos clássicos, com as distinções rigorosas de níveis estilísticos, por exemplo, uma boa parte da literatura actual, provavelmente a mais importante e a mais interessante, que se constrói com elementos – palavras, frases, pontuação, nível estilístico, sintaxe, forma de composição, temas - antes considerados estilisticamente banais ou vulgares, não seria considerada arte.

7. Ia-me esquecendo de lembrar que o Titanic, o superbarco, naufragou.

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