Monday, May 26, 2008

Reflexões sobre a poesia (V)

Sobre poemas e barcos

1. A poesia é uma coisa? É resultado de um “fazer”, portanto não é uma coisa do mesmo modo que uma pedra é uma coisa. Uma pedra também é o resultado de um “fazer”, mas nós não pensamos nisso porque a pedra foi feita na natureza, sem intervenção humana. De uma pedra seria difícil afirmar, pelo menos nós não nos atrevemos ou julgamos que é despropositado: está bem feita, está mal feita. Quando muito dizemos "esta pedra é bela, esta pedra é bonita". Mas não entramos en discussões sobre qual é a melhor maneira para a natureza de fazer uma pedra porque as pedras não pertencem à zona do "fazer" humano. De um poema, como de um barco, porém, pode dizer-se: está bem feito, está mal feito. É um bom poema, um bom barco; é um mau poema, é um mau barco. Compreende-se o nosso direito à crítica e à avaliação: alguém, semelhante a nós, fez um poema ou um barco; ora nós gostamos muito, pouco ou nada do barco ou do poema, cuja manufactura além disso se pode aperfeiçoar.

2. Qual é o critério de avaliação, o que é que permite decidir que um barco ou um poema estão bem ou mal feitos? É por comparação com os poemas e os barcos que conhecemos que decidimos que o poema ou o barco estão bem ou mal feitos? É por comparação com uma ideia do poema perfeito ou do barco perfeito - poema e barco inexistentes talvez, mas susceptíveis de existir e que podem ser imaginados a partir da nossa experiência - que decidimos que um poema ou um barco estão bem feitos ou mal feitos, que um poema ou um barco são excelentes, nem por isso ou péssimos? Deve haver alguma verdade nestas conclusões hipotéticas. Se não tivéssemos uma ideia relativamente precisa do que é um bom poema ou um bom barco como poderíamos emitir juízos de valor acerca de poemas e de barcos? Temos de admitir, no entanto, a possibilidade de vir a ser posto diante dos nossos olhos, amanhã talvez, um excelente poema ou um excelente barco que não respeitam, e até podem pôr em causa e negar radicalmente, a ideia que nós, sabendo-o ou sem o saber, nos fazíamos do que pode ser ou é um excelente barco, do que é ou pode ser um excelente poema. Não terá acontecido isso no passado, graças ao génio de algum criador? Uma obra-prima não será obra-prima por nos ter surpreendido, por ter ultrapassado todas as expectativas que existiam ou podiam existir acerca do que pode ser uma obra-prima?


3. Se pensarmos que o que permite decidir que um poema ou um barco são bons, excelentes ou péssimos, é apenas o gosto pessoal de cada um, parece que voltamos a Kant. O gosto pode justificar-se, aparentemente: li tantos poemas, vi tantos barcos, tenho alguma competência para avaliar. O que nos obrigaria a concluir: quem leu mais poemas e quem viu mais barcos tem mais competência para avaliar e decidir o que é um bom barco ou um bom poema. Depende. Aquele que leu mais poemas ou aquele que viu mais barcos em princípio terá mais autoridade para identificar um bom poema ou um bom barco do que quem leu menos poemas e viu menos barcos. Mas há bons e maus leitores de poemas, bons e maus observadores de barcos. A incompetência ou outras paixões, despropositadas aparentemente ou objectivamente, desviam a atenção do que se considera ser essencial para que exista um bom poema ou um bom barco.

4. Qual é o critério, então, que permite considerar um poema ou um barco bons, excelentes, nem por isso ou péssimos? Quem só leu maus poemas ou só viu barcos mal feitos, pensamos imediatamente, pode ter lido muito ou visto muito mas não tem certamente a mesma competência em questão de barcos e de poemas que quem passou a vida a ver os melhores barcos e a ler os melhores poemas. Imagino que é o que se diz dos apreciadores de vinhos, de automóveis, de mulheres. O que, como se sabe, é falso. As opiniões mais variadas e contraditórias separam entre si os poetas reconhecidos e os professores de literatura na universidade entre si. A qualidade dos poemas que lemos e dos barcos que vimos, qualidade boa ou má que nos permitiu ir adquirindo conhecimentos e competência em questão de poemas e de barcos, tem de ser tida em consideração. Talvez baste para explicar as diferenças de gosto, embora provavelmente nem isso. Mas não basta de certeza para fazer daquele que leu muitos e bons poemas ou viu muitos e bons barcos o melhor especialista, alguém que detém o critério de avaliação perfeito da qualidade de um poema ou de um barco. Não me interpretem mal, porém: se não basta para fazer de nós o melhor especialista, aquele que se distingue pelo seu gosto mais apurado, a experiência adquirida na convivência com bons poemas e com bons barcos é uma excelente ajuda e pode ter um grande peso na nossa capacidade de distinguir o que é excelente do que é bom, o que é mau do que é péssimo.

5. A qualidade do gosto é, então, independente dos conhecimentos teóricos e da quantidade e da qualidade experiência? Se tivesse de apressar-me para apanhar o comboio eu respondia já: claro que sim, é mais do que evidente, pois o saber dum professor universitário não o impede de apreciar o que é mau ou péssimo ou medíocre e de desprezar o que tem uma qualidade superior. Eu próprio conheço tantos exemplos.

6. Imagine-se agora que lendo poemas e vendo barcos nós fomos além do prazer da contemplação. Imitando os professores da universidade e os engenheiros começámos a interessar-nos de maneira mais séria pela maneira como se fabricam os poemas e os barcos. Começámos a ler sobre o assunto obras escritas por especialistas, especializámo-nos, fomos adquirindo o que se pode designar por “uma competência técnica”. Uma competência que evidentemente vai além da que se adquire através da reflexão quase espontânea que acompanha a simples leitura de poemas ou a observação desinteressada de barcos. Começando a compreender o processo de fabrico dos poemas e dos barcos perdemos a inocência que em princípio caracteriza aqueles que sabem usufruir mas não pretendem aprender a técnica que permite fazer poemas e a técnica que permite construir barcos. Serve-nos para quê, essa competência? Dá-nos a ilusão do saber perfeito? É possível. Basta para fazer de nós aquele que tem melhor gosto, aquele que detém o critério mais rigoroso de avaliação da qualidade de um poema? Basta para fazer de nós aquele em cujo espírito se esconde, ignorada de nós próprios, a ideia, a imagem, o pressentimento do inexistente poema ou barco que superam todos os outros poemas e barcos? Claro que não basta. Wittgenstein confessou que não lia os filósofos ou que os leu muito pouco e no entanto é hoje considerado um dos filósofos mais importantes.

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