Monday, May 19, 2008

Reflexões sobre a poesia (IV)

1. Por que razão é que tanta poesia parece ter pavor da expressão directa, literal? Porque é muito difícil escrever poesia, chegar à poesia, usando a linguagem - as palavras, a sintaxe, etc. - de toda a gente. Claro. E nem sequer vou citar Wittgenstein a este respeito. Deve vir daí, desse horror à expressão literal, desse desprezo pela linguagem comum, a proliferação diabólica e doentia das metáforas, que seriam uma espécie de sinal exterior indiscutível e suficiente de linguagem poética, provando portanto, sem discussão nem análise suplementar, que estamos perante a poesia e o espírito superior que a criou. Outros processos são usados pelo mesmo motivo: a inversão da ordem das palavras na frase, por exemplo, distingue-se imediatamente de um tipo de discurso, de um acto de fala “normal”, e por isso cria sem grande esforço a ilusão de que o texto é poético. A rima e modelos formais com tradição literária, como o soneto, são também utilizados para que se acredite, independentemente de outras razões que haja para acreditá-lo, que o texto que nos é proposto é poético. Mas bastará usar metáforas, inverter a ordem das palavras na frase, meter as palavras dentro do invólucro do soneto para que haja poesia? Pode duvidar-se.

2. O uso que os românticos, os simbolistas, os surrealistas fizeram das imagens enriqueceu as palavras com sentidos novos. E enriqueceu a língua. As palavras e as suas diferentes combinações na frase tinham escondidas em si potencialidades de sentido inesgotáveis e que não tinham sido suficientemente exploradas. A nossa compreensão do real alargou-se nesse desrespeito pelo sentido literal. Esta constatação, no entanto, não é de modo nenhum uma apreciação estética. Um poeta pode ter contribuído para enriquecer a língua e alargar os limites da nossa compreensão da realidade sem no entanto ter sido um grande poeta, embora a capacidade de alargar os limites da nossa compreensão da realidade seja já uma característica da poesia como a entende, creio, Heidegger.

3. Não se escapa nunca ao sentido. Juntem-se as palavras, quaisquer palavras, ao acaso e logo se compreende que é impossível não perceber, ao ouvi-las ou lê-las, que elas criam e evocam imediatamente sentidos no nosso espírito. Não tem de ser um sentido claro. Mas é sentido, ainda assim. Cada palavra pode levar-nos numa direcção diferente porque cada palavra evoca sentidos diferentes. Nós não conseguimos fazer uma síntese das múltiplas direcções em que nos levam ao mesmo tempo as palavras que se sucedem estranhamente porque elas foram postas ao lado umas das outras, a seguir umas às outras, por acaso e sem intenção. Mas nem um Manual do Vazio Absoluto nos ajudaria a criar o vazio do sentido no nosso espírito enquanto ouvimos ou lemos as palavras e frases “incoerentes”. É impossível escapar ao sentido, é impossível libertar-se do sentido. Estas constatações não implicam juízos de valor sobre a qualidade ou o interesse dos sentidos assim suscitados. Mas explicam que em muitos textos que aspiram a ser poesia se encontrem as afirmações ou sugestões mais sublimes e as afirmações ou sugestões mais tolas. Como distinguir, porém, o sublime da tolice? É porque não há instrumento que permita distinguir sem erro o que é sublime do que é pura tolice que a confusão há-de continuar. Os tolos têm tanto direito a desorganizar a linguagem como os génios. E subitamente, por vezes, pode acontecer, para tornar definitiva e peremptória a nossa incapacidade de legislar neste domínio, que deparemos com tolices que são geniais (não me interrogo, agora pelo menos, sobre a eventualidade de ter começado por ser tolice o que mais tarde foi considerado genial ).

4. Tenho visto atribuir prémios de poesia que se pretendem importantes a livros cheios de tolices. Os "júris", se não fossem eles próprios constituídos por tolos, teriam feito escolhas diferentes. Mas saber o que é a poesia não está facilmente ao nosso alcance.


5. Para afirmar que um poema é ridículo é necessário “interpretá-lo”. É a nossa interpretação apenas que separa as águas do sublime das águas da tolice. Um tolo provavelmente gosta de tolices, tem esse direito.

6. O efeito de estranheza desempenha, como se sabe, um papel importante na criação literária. Essa estranheza pode ser provocada pelo uso particular que se faz das palavras, pelo recurso a uma sintaxe surpreendente, pelo uso particular que se faz das imagens, pela forma nas suas diversas aparências, que incluem a sonoridade e a disposição gráfica do texto. O conhecimento ou desconhecimento, o respeito ou desrespeito - sejam absolutos, sejam selectivos - de técnicas literárias conhecidas e de modelos poéticos que gozam de prestígio também são factores a ter em conta na avaliação da qualidade poética.

7. Pode faltar-me a capacidade, o talento, a competência para explicar por que razão só alguns textos provocam em mim o efeito poético. Mas de uma coisa parece que tenho de estar seguro: a minha capacidade de apreciar ou não apreciar, de apreciar mais ou menos, não depende da minha vontade. Mesmo que me esforçasse, não conseguiria modificar a situação. E reconheço aos outros, sem qualquer esforço, exactamente os mesmos direitos.

8. O que é a poesia, então? É uma forma de pensar. E se o pensamento não é puro, se a qualidade do pensar é medíocre, a poesia é menor ou não chega a ser poesia. Ter sintaxe é necessário, mas não basta.

No comments: