Friday, May 16, 2008

Reflexões sobre a poesia (III)

1. O problema quando se reflecte e escreve sobre poesia é que temos tendência a olhar para ela como um ente metafísico que escapa às regras de raciocínio, à atitude, à lógica com que resolvemos (ou não) os problemas que nos põe a realidade. Séculos de tradições atrás de nós, de manuais de retórica e de estilística, pesam e querem limitar a clareza do nosso pensar levando-nos na direcção errada. Os pesados e nem sempre inúteis estudos críticos de orientação retórica, centrados na estética e na literatura como sendo domínios meio religiosos, à parte de outras realidades, bem protegidos com o arame farpado das instituições universitárias como saber técnico altamente especializado, podem dar-nos a ilusão de resolver de maneira satisfatória o problema que põe a produção e a identificação da poesia como questão fundamental do SER . Mas a questão da existência da poesia -- que não é , como questão séria, uma questão estética em primeiro lugar, mas uma questão que diz respeito ao pensar - não se esclarece pelo recurso a explicações de ordem técnica, pois a técnica é apenas um dos elementos a ter em consideração (é necessário continuar a reflectir sobre essa questão: que papel desempenha a técnica na linguagem que tenta aproximar-se da poesia, passar por poesia?). Heidegger chamou justamente a atenção para o erro grave dos tempos modernos que consiste em acreditar que a inteligência e o espírito são a mesma coisa ou que a primeira pressupõe a existência ou salvaguarda do segundo. A inteligência está ao serviço de uma produção utilitária de saberes que querem dominar a realidade e aspiram a difundir-se (na universidade nomeadamente) para se tornar rentáveis. Mas essa inteligência transforma-se numa interpretação errada do que é o espírito, falsifica o espírito, e não convence Heidegger: "The spirit falsified into inteligence thus falls to the level of a tool in the service of others, a tool the manipulation of which can be taught and learned." (Introduction to Metaphysics) O espírito é outra coisa, é a mobilização dos poderes do que é ("the essent") enquanto ele mesmo e enquanto totalidade permanente. Onde o espírito prevalece, o Ser torna-se sempre e em permanência mais Ser. Onde a inteligência domina, só acontecem as interpretações erradas, a "emasculação do espírito: "Darkening the world means emasculation of the spirit, the desintegration, wasting away, repressing, and misinterpretation of the spirit." (Heidegger, Introduction to Methaphysics).

2. Esta tarde conheci uma rapariga que chegou ao café de bicicleta com a Náusea do Sartre na mão. Começámos a falar e ela disse: vim de bicicleta à beira mar, você conhece esse caminho? é tão bonito, foi fantástico. E o rosto dela respirava paz interior. Estiveste em contacto com a pureza do Ser nessa tua viagem, disse-lhe eu, inlfuenciado pelas palavras de Heidegger que estava a ler, enquanto olhava as belas pernas nuas que sustentatavam o seu busto. Haverá ainda muito a dizer para tornar mas claras estas questões. Mas por favor, poupem-me a longas e pesadas especulações críticas que não se preocupam seriamente em querer entender a essência do Ser, de cada manifestação do Ser, de tudo o que é. A obsessão da universidade com a linguagem e estudos dela derivados é sobretudo, senão exclusivamente, de ordem técnica, isto é, da ordem da competência professoral, esse vício, especializada no domínio do material linguísico. Poeta ou crítico que queiram resolver a questão da poesia recorrendo a estudos que priviligiem apenas a técnica não chegaram ainda a atingir o lugar da poesia, que não é religião nem literatura mas reflexão simples e árdua e frequentemente infecunda sobre o Ser e sobre a dificuldade de o vermos, de o sentirmos e de nos aproximarmos dele. No que me diz respeito, eu avalio a qualidade da poesia com a mesma insenção (ou falta de isenção) com que analiso a qualidade de um amigo, de um automóvel, de um chocolate, de uma relação amorosa. Não concedo a nenhuma forma de expressão, a nenhum objecto que se proponha aos meus sentidos, o privilégio de escapar ao meu raciocínio e avaliação crítica. Nem concedo de antemão a nada do que existe qualquer estatuto, nem sequer o estético, que o proteja da minha avaliação pessoal. Mas era necessário dizê-lo?

1 comment:

Maria Elvira said...

Excelente!