Thursday, May 15, 2008

Reflexões sobre a poesia (II)

1. Sabe-se a importância que Heidegger atribui à poesia. A poesia, para Heidegger, é a palavra que diz a verdade. O poeta, para ser grande, tem de ser alguém que pensa. A qualidade do pensar do poeta tem de ser igual à qualidade do pensar do grande pensador. Ambos são poetas, afinal. O pensar do grande pensador tem de ter a pureza, a densidade e a solidez da poesia e o dizer do grande pensador, consequentemente, é também poesia. A linguagem autêntica, que não está gasta pelo uso, de que não se abusou, conserva, diz Heidegger, um poder mágico, é poesia. O que é dito de maneira pura é poesia. Sabe-se que para Heidegger o mundo tecnológico actual perdeu a noção do Ser, nós vivemos um tempo obscuro de privação do Ser e de confusão. Cabe aos poetas, nesta situação, fazer-nos entrever as possibilidades de existência de um mundo que será verdadeiro.

2. O que é que eu encontro na poesia contemporânea, portuguesa mas não só, que me faça crer que aqueles que se apresentam como poetas ou são reconhecidos como poetas usam a linguagem pura, sólida e densa, do pensador? Que verdade sobre o Ser é que eles me revelam, que mundo verdadeiro, diferente do mundo tecnológico confuso, é que eles me deixam entrever? A minha realidade é resgatada por essa poesia? Prefiro não responder a esta pergunta. A capacidade que revela a maior parte da poesia actual de dizer a verdade, de falar uma linguagem pura, densa, sólida, é utópica.

3. Se Heidegger, como Wittgenstein e outros, se preocuparam menos em falar como filósofos do que em falar como seres humanos a contas com a realidade, por que razão continuam tantos pretensos poetas a querer falar sobretudo, tão literariamente e convencionalmente, como poetas? Eles acreditam provavelmente que para revelar a verdade, para iluminar as trevas ou fazer entrever o mistério, lhes basta ter sintaxe e juntar em metáforas insensatas palavras que não temos o costume de ver juntas. Nalguns casos a poesia ainda acontece. Na maior parte dos casos não acontece nada e o vazio permanece.

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