Tuesday, May 13, 2008

"On Late Style"

Adorno utilizou a designação "late style" a propósito das últimas obras de Beethoven (Adorno também se refere a Goethe, no entanto). Numa obra publicada em 2006 (On Late Style, Vintage Books, New York) Edward Said, que faleceu em 2003, retoma e desenvolve o conceito de "late style" usado por Adorno. A intuição de Adorno parece-me que tem muito sentido. Uma breve citação do seu ensaio "The late style" (in Beethoven, The Philosophy of Music, Standord University Pess, 1998, tradução de Edmund Jephcott) deixará entrever porquê com relativa clareza:

"The maturity of the late works of important artists is not like the ripeness of fruit. As a rule, these works are not well rounded, but wrinkled, even fissured. (...) They lack all that harmony which the classicist aesthetic is accustomed to demand from the work of art, showing more traces of history than of growth. (...) The force of subjectivity in the late works is the irascible gesture with which it leaves them. It bursts them asunder, not in order to express itself but, expressionlessly, to cast off the illusion of art. Of the work it leaves only fragments behind, communicating itself, as in ciphers, only through the spaces it has violently vacated. Touched by death, the masterly hand sets free the matter it previously formed. The fissures and rifts within it, bearing witness to the ego's finite impotence before Being, are its last work." (sublinhados meus com azul)

As características que Adorno descobre em "late works" podem surgir em determinada época como tendência da arte dessa época e sem ter nada a ver com a idade dos autores - tratar-se-á simplesmente de uma reacção saudável contra processos de construção da obra de arte excessivamente fiéis a uma coerência que já perdeu capacidade de surpreender e de revelar seja o que for de importante. A arte progride através da desordem, não através da obediência a códigos. Quando esses códigos (modelos estéticos) já se tornaram académicos, o autor que procura a expressão abandona-os.

Por outro lado, e mais importante, é interessante constatar que um grande autor pode evoluir, amadurecer, produzir obras geniais respeitando certas regras básicas da construção artística. Os génios têm a capacidade de usar as regras aceites e têm o saber e o talento de as ir transformando, de ir fazendo evoluir o modelo; só os autores menores são incapazes disso, daí serem menores. Que na fase final da sua produção, depois de ter respeitado
e feito evoluir os modelos recebidos do passado, um autor desvalorize o respeito absoluto de regras que antes terá respeitado, a mim não me surpreende. Ao agir assim, um autor confirma que de facto existem regras, modelos de construção da obra de arte; e que aquilo que produzem aqueles que respeitam essa regras merece, se considerado de valor suficiente, essa designação: é "arte". Mas ao libertar-se, como Beethoven, das regras antes respeitadas, o autor que procede dessa maneira está a dizer-nos: a arte é artificial, é coisa social, obedece a regras de construção que lhe são impostas por ser arte; a arte não pode obrigar-me a limitar a minha necessidade de expressão, no entanto. A impressão que me fica é que a dado momento o autor que evoluiu e que tem consciência do carácter social e histórico de toda a arte, a dado momento deixa de preocupar-se em "produzir arte", em fazer parte na sociedade do grupo dos "produtores de arte" . Ele já o é e sabe que a importância da arte não lhe vem da submissão à sociedade nem da admiração que a sociedade possa manifestar pelo que é considerado "arte"; para ele a arte ransformou-se numa segunda natureza. O meio de expressão tão praticado tornou-se um meio de expressão natural. E com ele o autor pode agora compor, criar em liberdade, sem se importar com o que possam pensar ou dizer aqueles que decidem que isto é arte e aquilo não. A coerência a que obriga a obra de arte é limitadora a vários níveis. Há aspectos da realidade e da experiência que só tardiamente tiveram o direito de entrar na obra de arte literária (as classes populares só entram como assunto sério no romance com o Naturalismo; a poesia de Cesário Verde foi desprezada em vida do poeta). Adorno qualifica o último estilo de Beethoven como "irascível". Creio que quem sabe que vai morrer pode irritar-se por ter passado tanto tempo a produzir obras que obedeciam excessivamente às regras daquilo que se considerava arte. Também não me surpreende que nas fissuras, nas pausas, nas mudanças bruscas que substituem a "narrativa" que antes se prosseguia harmoniosamente e respeitando certas regras de desenvolvimento, o autor irascível que vai morrer esteja a abrir as portas para os outros e não apenas para si mesmo. É a negação da arte como forma de obediência à tradição artistica, é o grito de libertação da arte em relação à arte, aos compêndios, às regras, à ordem reinante na sociedade.

Que aqui e além Beethoven recorra, nessas obras do estilo tardio, a certos processos convencionais, mas usando-os superficialmente e sem respeitar o uso mais sério e mais apropriado que antes terá feito deles, como pretende Adorno, pode indicar que esses processos facilmente identificáveis dentro da retórica musical são agora usados ironicamente ou mais superficialmente, ganhando assim outra significação, contribuindo para, com o que mais visivelmente se escapou do respeito às regras em vigor, para o surgir de uma arte nova. Ou serão um cimento rudimentar, que não mereceu muito esforço a Beethoven, para ligar as novas partes da obra "fragmentada" entre si? O desejo ou a obrigação de coerência desapareceu em grande parte? A coerência tornou-se menos visível? Não obedecendo aos mesmos princípios de construção artistica, Beethoven ajudou a libertar a música dos códigos vigentes e anunciou a arte moderna.

Auerbach dedica um capítulo de Mimesis aos "bas couleur de bruyère" a que é feita referência em To the Lighthouse de Virginia Woolf que me parece ter alguma coisa a ver com estas reflexões sobre o "late style" de Beethoven. A importância que é dada a um detalhe tão insignificante (a cor das meias) é indício de uma evolução estética: "on croit (...) que n'importe quel fragment de vie, pris au hasard, n'importe quand, contient la totalité du destin et qu'il peur servir à le représenter. On a plus de confiance dans des synthèses obtenues par l'approfondissement d'une circonstance quotidienne que dans un traitement global, ordonné chronologiquement, qui suit son object du commencement à la fin, s'efforce de ne rien omettre d'extérieurement important et met en relief les grands tournants de la vie pour en faire les articulations et l'intrigue". (Paris, Gallimard, 1968, raduzido por Cornélius Heim).

Pode acontecer, se é que não acontece fatalmente, que a única forma de sobrevivência da arte seja conseguida através da negação e do repúdio da própria arte.

No comments: