Sunday, May 11, 2008

Reflexões sobre a poesia (I)

1. Que pretende a poesia? Criar personagens interessantes, em particular e para começar o do próprio poeta, um indivíduo que “escreve poemas”, que através da escrita reivindica um lugar na galeria de “figuras” da nossa sociedade? Assim se sai do anonimato, é certo. Mas talvez se escreva poesia para reconstruir a experiência? Isto é: para fixar o que já se perdeu ou nunca chegou a ser; para pensar, divagar, contestar; para interrogar, protestar, explicar; para investigar, construir, destruir; para corrigir, reinventar - e assim por diante, a porta das hipóteses fica aberta.

2. Agindo assim contribui-se para a existência de um universo humano com sentido, o sentido que séculos de cultura e civilização foi elaborando. Ao escrever um poema situamo-nos e situamos os outros nesse universo cheio de sentido. Para o aperfeiçoar negando-o ou criticando-o, para nos interrogarmos sobre as razões da sua existência e sobre a sua coerência, para o confirmar e provar que o seu sentido tem sentido, um sentido que se pode discutir, sobre o qual se pode discorrer.

3. O poeta faz tudo isso artisticamente. Poeticamente. O que é que isso quer dizer, porém, “artisticamente”, “poeticamente”? O que é o “poético”, além de ser tudo aquilo que já se disse atrás que a poesia, como actividade de um indivíduo que decide sair do silêncio e do anonimato para exibir a sua capacidade de organização da experiência e para fazer ouvir a sua voz, é? O que é que torna um texto poético, o que é que torna “poesia” aquilo que é dito num poema? Porque tudo aquilo que atrás se disse que caracteriza a actividade dos poetas também caracteriza outras actividades que nada têm a ver com a poesia. Ou haverá poesia aquém e além da actividade poética deliberada, a artística, a literária? Por ora pelo menos não vou citar Heidegger, a decadência ou a ausência do ser que, citando Holderlin e Rilke, ele identifica com o desaparecimento dos deuses, ficará para outra ocasião .

4. Um soneto, um canção, uma redondilha ou uma elegia de Camões são poéticos pela forma, independentemente do que digam e que torna poéticos esses textos? À primeira vista parece que sim. Mas bastará, para se ser poeta e ter escrito um poema, recorrer a um modelo, a uma forma particular de organizar a linguagem identificável exteriormente como “poética” ? É duvidoso. Se a canção, a elegia, o soneto de Camões são poesia pode ser por outras razões, menos evidentes, mais difíceis de explicar. Pressente-se desde o início que tem de ser por outras razões. O que faz um soneto, uma redondilha, uma canção, uma elegia expressões ou actos de fala susceptíveis de ser reconhecidos e eventualmente usufruídos e admirados como poesia (ou como qualquer outra coisa a que não damos nome e que merece respeito e atenção especial, mas creio que seria o início de outra investigação) é, tudo parece indicá-lo, difícil de explicar.

5. Deixemos de lado por ora as questões puramente técnicas. A minha curiosidade é de outra natureza, embora não exclua a consideração das razões técnicas - competência linguística e conhecimento da tradição literária - pelas quais um soneto, por exemplo, é um bom soneto. As razões formais contam, é inegável: os sonetos de Cesário Verde são diferentes dos sonetos de Camões; a técnica de construção, a sintaxe, o vocabulário dos dois poetas não são os mesmos. Cesário, por exemplo, termina sem hesitar uma frase no meio de um verso, escreve o ponto final e começa outra frase, modificando o ritmo dos versos e do poema a que estávamos habituados. Camões e os poetas Galego-Portugueses antes dele também praticaram com mestria o “encavalgamento”, um verso continuava-se narrativamente no seguinte sem problemas. Mas Cesário introduziu modificações nessa maneira de não se deixar limitar na expressão poética de uma ideia pela extensão convencional de um verso. Também se podia tratar neste capítulo o facto de haver poesia que privilegia de maneira excepcional o uso da palavra e poesia que precisa da frase para se afirmar como poesia (o que não quer dizer que despreze, neste último caso, a importância da palavra em si mesma, independentemente da sua inserção numa frase). Tudo isto são questões de ordem técnica ou de ordem estilística.

6 .O que é que torna “poéticas” as palavras e as frases do poema, aquilo que aspira a ser poesia e se apresenta como tal? O que é que faz "poético", merecedor da atenção dos historiadores da literatura e de quem quer que se outorga a autoridade de considerar um texto como sendo "poesia", aquilo que se escreve, que se diz ? Responder a esta questão é começar a elucidar o que é que determinada sociedade ou determinada cultura (ou, dentro delas, determinado grupo influente, para não dizermos determinada classe social) entende por “poesia”.

No comments: