Sunday, May 11, 2008

Nada

Que havia a dizer? Nada.
O cabelo nas mãos. As mãos
torciam o cabelo, retorciam.
Ataram o cabelo atrás, depois
desataram o cabelo e de novo
ele, solto, ficou nas mãos a ser
torcido, retorcido. Eu gostava
das mãos, mãos de mulher, de
rapariga, mãos ternas, esguias.
Depois havia o rosto. Logo
no início foi o rosto. Não sei
explicar. Eu olhava, ela viu-me
olhar. Aproximava o rosto,
as mãos a torcer os cabelos.
Escrevia no computador. A
meio metro de mim. Do meu
rosto, dos meus olhos. Havia
o vidro no meio a separar-nos,
é certo. Mas ela via-me, eu
via-a. E ela olhava na minha
direcção, nunca voltou as
costas, nunca torceu o corpo
para procurar outra posição.
Que posso fazer, pensava eu.
Que devo fazer, pensava eu.
Nada. Não havia nada a fazer.
As pernas cruzadas. A balançar-se.
E ela, concentrada, ia escrevendo no
computador. Sobre arte. De vestido
preto, camisola de lã branca aberta
à frente. Um fio de oiro no pescoço.
Descia até ao regaço. E eu olhava,
espantado. Que fazer? Não havia
nada a fazer. Ou havia, mas eu não
sei como se faz, como se irrompe
sem convite na vida das pessoas.
Mesmo se elas parecem abertas
à invasão, descruzam as pernas
descuidadamente, não têm receio
de aproximar o rosto, não as
incomoda que eu olhe tão atento.
Preferia ter ficado em casa. Pelo
menos não me incomodava a sua
existência. Mas não fiquei.
Nunca se sabe o que vai

acontecer, o que pode surgir.
Depois eu levantei-me. E ela
levantou-se, arrumou os livros,
saiu. Caminhava desajeitadamente,
o vestido preto mal cortado, a cair
desigual. Caminhou apressada,
entrou num carro. Eu vi-a ir-se
embora. Meti-me no carro, eram
horas. Mais à frente voltei a
encontrá-la. Parada no sinal
vermelho. Arrancámos quando
apareceu o verde. Ela cortou à
direita. Não tive coragem, segui
em frente. O grande amor da
minha vida, despudoradamente.
Não estava preparado para tanto.
Por isso nada fiz para recolher a
ternura daquelas mãos, o mel
daquele olhar. Nada fiz para ir
ao encontro daquele corpo que
me teria consolado de anos de
solidão e dos amores errados.
Na boca um sabor amargo, o
da privação, o do vazio, o
do nada que vai acontecendo
todos os dias. Uma jovem
rapariga e a montanha, o rio,
a árvore erguem-se na paisagem,
formas perfeitas da passagem e
da falta de movimento do tempo.
O cabelo, as pernas, o corpo, o riso,
as mãos, os braços. Só quem não
possui sabe o que significaria ter.
Só quem não tem sabe o que é
possuir, privilégio desaproveitado
dos nossos anos mais jovens.

SB, 23 de Maio de 2007

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