Sunday, May 04, 2008

Especulação sobre a passagem do tempo

Quem, tendo conhecido o amor e o ódio
na cidade, teve tempo para pensar na solidão
da floresta? Nela as opulentas árvores parecem
adormecidas, desde sempre indiferentes ao
vento e à chuva que atormenta as montanhas,
ao sol que entontece, febril, as desertas praias.
Mas as folhas e os frutos anunciam as estações
e nunca se enganam. À arvore que acaba de surgir
da dilecta terra as outras árvores dizem apenas:
ocupa o teu lugar, aprende a amar o teu destino.
Há sempre lugar para a nova árvore porque
as árvores também envelhecem e morrem. Nós
não damos por isso, o nosso tempo e o delas
são habitados por paixões diferentes. As
árvores vivem em silêncio, ignorando a nossa
agitação. A nossa indiferença parece-lhes
natural,
elas não necessitam do nosso olhar
para se aproximar
do distante céu. Não se
queixam. Não as perturba o
nosso destino
incerto. A árvore abatida não inspira

a compaixão das outras árvores, nem as
palavras
de consolação, nem as lágrimas.
Discretamente, a
árvore aceita o seu destino.
Nós, os homens,
acompanhamos com o excesso
dos sentimentos
os mínimos episódios da nossa
existência. Temos
fé e esperança, deixamos de
acreditar e de esperar,
inquieta-nos o desejo
e imaginamos que não nos
esquecem aquelas
que um dia amámos. É possível,
porque não?
Mas o tempo, o carro funerário do
tempo
desliza sem ruído nem percalços nas veredas
do
campo, entre as searas, pelas colinas, à beira
dos rios. Para não nos assustarmos nós fechamos
os olhos. A nossa morte, porém, acontece aos
outros, é-nos poupada a maçada do acontecimento.
Renovou-se a floresta diante
do olhar daquele que
parou o automóvel à beira da
estrada para tirar
fotografias. Ele vem todos os anos
de visita à
paisagem da infância. E comove-se
quando
contempla a imensidão
dos campos, a sua
eterna solidão. É no tempo,
indiferente à paixão e
à dor, que tudo acontece.
É nele que abrimos os
olhos e os fechamos,
reentrando nas trevas. A
existência: breve
passagem, sonho superficial
e vago.
A duração da viagem é ilusória. A
velocidade a
que tudo acontece depressa
nos deixa na
estação onde espera por nós
a morte. Recordo
o amor, o encontro, os
sorrisos de felicidade,
a ligeireza das horas
que sem tormento nos
aproximavam do nosso
destino. Quem preferia
não ter nascido? Acredita
no amor, abre os
braços e o peito àquela que
quer apertar-te
contra o coração. Concentra-te
na intensidade
do instante. Agradece o que te
deram e o
que te foi recusado. Lembro-me de
ti a caminhar,
apressada, na rua que levava à
universidade. A tua
camisa vermelha abrasava
a tarde de Verão, ias
despedir-te do amor antigo.
Eu estava à tua
espera, impaciente, e não podia
perceber. Sorris,
mais tarde, nas fotografias,
com o filho ao colo
ou encavalitado nos teus ombros.
Estás de pé,
meio amargurada e indecisa, ao lado
do automóvel
novo na fotografia a preto e branco.
No comboio,
sentados na frente um do outro, os
nossos olhares
queimavam de desejo a noite. E ao
nosso lado as
pessoas, tocadas pela intensidade
do nosso amor,
sorriam. Não, não somos tão
cruéis como nos
descrevem. O ódio e a inveja,
a mentira e a
indiferença não dominam o nosso
destino. A contemplação do amor torna-nos
felizes, faz descer sobre nós o bálsamo da
alegria.
Mas quem, ainda, se lembra de nós?
O destino dos
filhos assemelha-se ao dos
pais. O relógio
do tempo tritura todos os
sonhos e as
recordações. Se Deus existisse,
tudo seria desculpável,
a dor imunda e inútil
seria perdoada sem esforço nem revolta. Mas
Deus ausentou-se. Deus? Nunca pude imaginar
o seu
rosto. Tem coração? No seu olhar severo
brilha
a ternura sincera dos pais terrestres? Em
que pensavam, que
feições lhe imaginaram
aqueles que o inventaram ?
Os loucos que se
passeiam, sonâmbulos,
nos corredores da casa
deserta, que vão de quarto
em quarto a murmurar
palavras incompreensíveis,
provavelmente falam
com ele. Eles deliram. Porque
talvez no delírio
adquiram algum sentido a vida e
a morte, eles
deliram. A nós, que queremos
compreeender,
escapa-nos o mistério. Podíamos
segui-los,
podíamos acompanhá-los na sua
deambulação
insensata. A tentação assalta-nos.
Mas nós
afastamo-nos, incomodados. Não podemos

renunciar ao nosso destino. Que destino? Quem,
se
pudesse, não teria preferido não viver?

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