Thursday, May 01, 2008

Eça e o Romantismo português

O Brasileiro Soares, romance de Luís de Magalhães escrito em 1883, é uma espécie de versão modesta de Madame Bovary. Lê-se bem. É breve, límpido, sem novidades nem grandes complicações de intriga (quem conhece este tipo de narrativa pode passar rapidamente pelas páginas em que se repetem os lugares comuns da evolução das personagens no romance de adultério). O mérito do romance, porém, segundo Eça de Queirós, que escreveu uma carta-prefácio para o livrinho (1836), reside na reabilitação da figura do “brasileiro”, isto é, do português que emigrou para o Brasil pobre e voltou de lá rico. Eça aproveita a ocasião para desancar no Romantismo português e para fazer o elogio dos processos realistas.

Diverti-me a ler o que Eça escreveu no prefácio ao romance de Luís de Magalhães. Logo na primeira página do prefácio Eça refere-se ao “Maneirismo Sentimental que entre nós representou o Romantismo” e fez-me logo pensar em Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco. Não sei se a crítica de Eça visava Camilo, mas o romance que citei prova que Camilo sabia pelo menos tão bem como Eça quais eram os vícios do Romantismo português, “esse maneirismo sentimental” de que Silvestre da Silva, o personagem principal de Coração, Cabeça e Estômago, padece com tanto estilo e sofrendo tantas desilusões até tomar juízo e se casar com uma menina da província.

O prefácio de Eça é interessante e faz sorrir quando fala dos “Mestres do Romantismo”, que “obedeciam de instinto a um Idealismo nevoento, à teoria da Alma profundamente separada do Corpo, e à consequente divisão dos ‘tipos’ literários em Ideais e Materiais, segundo eles personificavam o Sentimento, coisa nobre e alta da Vida, ou representam a Acção, que ao Romantismo aparecera sempre como coisa subalterna e grosseira”. A figura do brasileiro - injustamente, segundo Eça – era, para essa má literatura romântica que o tomava como personagem, “o homem que mais evidentemente simbolizava a Acção, aos olhos turvos do Romantismo". E Eça ironiza: “este mesmo cavador endinheirado comovia o Romantismo até à Elegia quando ele era ainda o triste emigrante, parando uma derradeira vez na estrada, para ouvir o ruído do açude entre as carvalheiras da sua aldeia; quando ele era o pobre embarcadiço, de noite, no mar gemente, encostado à borda da escuna Amélia, erguendo os olhos chorosos para a lua de Portugal...” Mas quando regressava do Brasil, “com o dinheiro que juntara carregando todos os fardos da escravidão – o saudoso emigrante passava logo a ser o brasileiro, o bruto, o reles, o alvar. Desde que ele deixara de soluçar e ser sensível, para labutar duramente de marçano nos armazéns do Rio, o Romantismo repelia-o como criatura baixa e soez. O trabalho despoetizara o triste emigrante. E era então que o Romantismo se apossava dele, já rico e brasileiro, para o mostrar no livro e no palco, em caricatura, sempre material, sempre rude, sempre risível – não por um justo ódio social contra um inútil que engorda, mas por aversão romanesca ao burguês positivo, videiro e ordeiro, que não lê versos, que se ocupa de câmbios, que só olha a lua quando ela anuncia a chuva, e só repara em Beatriz e Elvira quando elas são roliças e fáceis.”

Eça desenvolve a sua tese e a crítica ao Romantismo dando-nos o retrato do personagem oposto, aquele que essa má literatura romântica propunha à nossa admiração: “Em contraste com este ‘materialão’ estava o homem de poesia e de sonho, magro, altivo, malfadado, eloquente, e ‘trazendo (como diziam a sério os estilos de então) um inferno dentro do peito' ”. Este, continua Eça, "permanecia pobre, ou desdenhava liricamente o dinheiro; a sua ocupação especial e única era a Paixão; por ele as mulheres pálidas, todas de branco, iam chorar, agarradas às grades dos mosteiros”.

Eça conhecia bem a literatura portuguesa. E distancia-se dela apresentando-nos um retrato caricatural do Romantismo. A lição deste breve prefácio é, para nós, hoje, um documento interessante. E não é só por nos falar dos erros ou dos vícios do passado. Os homens "da poesia e do sonho" têm hoje aparências diferentes. Mas a realidade do real e o real em si mesmo, com a sua brutalidade por explorar, passa-lhes ao lado, interessa-lhes pouco; eles prefererem a linguagem pasteurizada e inconsequente do que imaginam que é a poesia. E assim vão passando o tempo, infantilmente iludidos.

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