Saturday, April 19, 2008

O (des)acordo ortográfico

Tenho grande condideração por Inês Lourenço: Hífen é uma revista de poesia sem par em que me honro de ter, por convite da Inês, colaborado. O poema que ela cita de Graça Moura acerca do desacordo ortográfico parece-me uma imitação extemporânea do estilo poético de Jorge de Sena, cheia dos lugares mais comuns de uma sensibilidade antiquada, pomposa, discutível. A "dignidade das letras e das gentes" talvez dependa também da ortografia; mas parece-me que depende de coisas bem mais importantes. Estou de acordo com a Inês e com outras pessoas numa coisa, porém: não tenho intenção de respeitar o acordo ortográfico. No meu caso não é por patriotismo, é porque me parece absurdo forçarem-me a escrever de outra maneira. Se é orgulho, é orgulho pessoal, não é manifestação de lusitanismo. As palavras, eu habituei-me a vê-las com determinado rosto; faltam-me a paciência e as razões para lhes dar outro. O latim já lá vai, ninguém quer saber disso, mas não me vejo a modificar a relação a que me habituei entre a palavra escrita e a palavra dita. Afirmo-o, porém, sem espírito de combate, sem rancores, sem queixas suplementares: se alguém daqui a mil anos vier a encontrar uma frase minha nas ruínas de um velhísimo edifício e a citar, não tenho dúvidas de que ela será reescrita na ortografia dessa época; é normal. Acontece até que eu me sinto inclinado a simpatizar com o erro de ortografia: pode ser uma prova de desrespeito saudável e divertida em relação à necessidade de ordem e uniformidade imposta pelas classes dominantes; a língua que nós escrevemos é sobretudo a delas, o que a meu ver explica o furor de imitação camoneana do deputado, poeta e tradutor.

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