Monday, April 21, 2008

"Reality is a bitch"


Há dias entusiasmei-me e comprei insensatamente três livrinhos de Jean Baudrillard em tradução inglesa. Uma coisa antiga para dar cabo do Foucault (nestas questões os intelectuais assemelham-se a qualquer merceeeiro disposto a acabar honestamente e convictamente com a competição; estamos a falar de visões do mundo), outro sobre "as minorias silenciosas", e enfim uma obra divertida, mas por razões diferentes das que se imagina: O Crime Perfeito. Eu não sei se referir-me uma vez mais ao delírio da razão e da imaginação de alguns académicos franceses, repetindo contrariado e pesaroso para mim mesmo que o ser humano francês é por natureza um animal culto, letrado, um intelectual. Vão lá dizer a um francês (esta generalização não abrange todos os franceses, evidentemente; é uma figura de estilo) que uma pedra é uma pedra ou que uma vaca é uma vaca. Se ele abrir um livro de Francis Ponge ou de René Char para nos provar o contrário, talvez não seja grave. Mas se ele se decide a divagar a partir de Saussure e a imitar Lacan e Derrida, estamos feitos. Qual seria o interesse do mundo e da nossa existência se uma vaca fosse apenas uma vaca e uma pedra apenas um calhau? Para um intelectual, nenhum. Mas Lacan ensinou-nos que tudo o que existe faz parte de uma língua secreta onde nenhum átomo de ente escapa ao sentido simbólico, onde as aparências que se manifestam são sempre significantes de um significado distinto do que nós imaginaríamos.

Em resumo, a vaca não é uma vaca nem a pedra é uma pedra. Parece que o são, mas por pouco tempo ou só para gente sem inconsciente e sem inteligência, pois uma vez integradas nas nossas narrativas sem sentido evidente transformam-se em engano e ilusão, em instrumento do erro e do desajuste em relação à verdade última, a única, a profunda, a que se deve ter em conta. Até podemos comer a carne da vaca, mas é bom que tomemos consciência de que ignoramos, com toda a inocência, o que é que estamos a fazer. Aliás quem é que relaciona o bife que ainda parece sangrar no prato com a ex-coxa provocante de um animal que se nos assemelha por ter olhos, boca, pernas, etc? Ninguém. Claro, é impossível designar com clareza o que é que a vaca - e deixemos de lado o bife, por agora - é exactamente, o que é que a pedra é exactamente, uma vez transformadas ambas em personagens das nossas narrativas obscuras e manhosamente estruturadas. A realidade para lá da realidade é um mistério intransponível. A linguagem do inconsciente será para sempre um enigma. Nada a fazer. Mas isso, evidentemente, não é razão para que nos deixemos iludir com a aparente legibilidade do real, com a aparente simplicidade do mundo. Alberto Caeiro era meio atrasado mental, de qualquer modo. Nós não somos simplórios, pois não? Baudrillard faz parte desta confraria combativa de intelectuais franceses - e isto é como o espiritismo, os seguidores têm surgido em todas as universidades estrangeiras - que tanto tem contribuído para nos livrar da perigosa e perniciosa ingenuidade com que abrimos os olhos para o mundo, isto é, para o que nós acreditávamos (ainda acreditamos, depois de tantas leituras?) que era a realidade.

Não posso citar o livro, infelizmente, porque infringiria as leis do copyright e não quero dissabores. Alás eu aconselharia a leitura integral da obra em Francês na praia este Verão - ou numa discoteca durante a noite, entre copos e corpos meio nus. Logo na página 3 da edição anglo-americana li que a verdade o que quer é entregar-se à gente. E quer entregar-se nua. Nua, nuazinha, sem vergonha, a porcalhona, diz Baudrillard mais ou menos. Nua, diz ele, não sei se perturbado, como a Madona num filme que a terá tornado famosa (e que eu nunca vi). Esse striptease, diz Baudrillard, é o striptease da realidade, que literalmente se desveste, oferecendo-nos com uma generosidade que é puro maquiavelismo a ilusão da sua nudez. É tudo trafulhice para incautos: não há nudez que alguma vez se deixe observar, é necessário desenganar-se a esse respeito. Já desvestida, a realidade vai surgir-nos ainda e de novo embrulhada noutra pele, nem sequer capaz, essa segunda pele, esse segundo vestido, o da nudez ou falsa nudez, de nos erotizar. Para terminar esta arguta análise - que me impressionou e deixou pensativo, a abanar a cabeça, a pensar como ele tem razão - Baudrillard conclui que a realidade é uma bitch, nascida de uma foda que envolveu a estupidez e o calculismo. A realidade, concluí eu também, seduzido e reconfortado, de facto é uma grande puta, faz que se dá mas nunca se dá, faz que se mostra mas nunca se deixa ver. Este livro, bem lido e bem comentado, dá para meia dúzia de semináros na universidade e para mil papers. Eu fico-me por aqui.

Não creio que Baudrillard venha a ter muito sucesso comigo, mas continuarei as minhas leituras - e sabe-se lá, a gente aprende e desaprende até morrer. Uma última pergunta: como querem que eu concilie o respeito, ou pelo menos a atenção e o interesse que me inspiram muitas reflexões de Derrida, com o narcisismo doentio, infantil, enfadonho, didáctico, de que ele dá repetidamente provas ? Numa comunicação que ele fez num colóquio sobre Jame Joyce achei-o de um narcisismo ridículo, complacente na sua lentidão, e fiquei a pensar se ele não tomava toda a gente por menos inteligente do que ele e por ignorante ou estúpida. Assisti uma vez a uma conferência dele que durou 3 horas e adormeci ao fim de uma hora, esgotado de paciência, farto de esperar que ele enfim se apressasse um pouco e dissesse alguma coisa antes de eu me ir embora. Em certos momentos a máquina mental do filósofo, sente-se ao lê-lo, parece que gripou e deixou de funcionar e que ele, Derrida, se deleita, numa jouissance surpreendente ou talvez obscena, num mastigar que agora não avança mesmo, a manipular enfim "o brinquedo" da linguagem na presença do leitor. Herança do estruturalismo que ele, Derrida (ver Counterfeit Money, por exemplo), pensou ter desconstruído e ultrapassado?

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