Monday, March 17, 2008

O marginal, o bom e o mau, etc.

Li o comentário recente do Henrique Fialho no Insónia, que eu tinha citado há dias a propósito de um texto em que o Henrique comentava um post de Pedro Mexia (post de que só conheço o que o Insónia citou). O Henrique volta ao assunto e e eu também, com mais algumas reflexões.

Quando escrevi há dias que se se pudesse definir a literatura caracterizando-a como "aquilo que por natureza é marginal", não havia a escrever sobre ela nos jornais as pessoas que lá encontramos, devia ter escrito também que se a literatura fosse por natureza marginal não havia tantos escritores. Identificar "marginalidade" com "literatura" apenas porque quem escreve se sente em conflito com os valores atribuídos à maioria, ou frustrado e ressentido e em desacordo com a sociedade em que vive, por exemplo, é ambíguo e exagerado, além de pouco convincente aos meus olhos. Continuo a pensar que "escrever", a "literatura", não são por natureza actividades "marginais". Posso tê-lo pensado há muito tempo, não o penso hoje. O que há é "literatura marginalizada" - o que é vago, amplo, e não é a mesma coisa. Que significa ser "marginal" ou "marginalizado"? Marginal é o que vive nas margens e marginalizado é o que foi posto nas margens. Podia dizer que tudo aquilo que eu (ou um grupo mais ou menos coeso de pessoas) não leio (não lemos), tudo o que não me (nos) interessa na vida, é vítima de marginalização da minha (da nossa) parte. Creio que é o único critério razoável de entendimento da "marginalidade". A "literatura de cordel" e outras formas de "literatura marginal" (sobre este tópico a revista Santa Barbara Portuguese Studies tem pronto para publicação um volume organizado por Arnaldo Saraiva) são marginais em relação a quê? Em relação aos gostos e códigos culturais das pessoas que escrevem as histórias da literatura, à sociedade que arruma os textos escritos em gavetas diferentes, ao poder e aos valores da maioria "esclarecida". É natural: a sociedade necessita de tranquilizar a dissidência esforçando-se por criar consensos. As divergênias assustam-na: há risco de algazarra e confusão. Faz parte da vida em sociedade quererem aqueles que nela têm poder e direito à fala hierarquizar tudo o que nela acontece e estabelecer como "bom" o que corresponde aos valores e ambições dessa sociedade. Trata-se de evitar confusões e a "desordem", de definir o que é excelente e desejável. Por essa razão e para que isso se concretize existem os "prémios" e as "marginalizações"- escolhas de quem tem o poder na sociedade. Mas tudo tem o seu tempo, há evoluções, mudanças, adaptações e desadaptações, interesses particulares (por vezes excepcionalmente ocasionais) a influenciar a selecção. E nós podemos situar-nos em relação a essas hierarquizações diferentemente em épocas diferentes da nossa existência, sendo ora ou em parte marginalizadores, ora ou em parte marginalizados. Nada deixa de mover-se nunca, a estabilidade é uma ilusão. E todos somos, de algum modo, parte desse poder que oprime, embora possamos ao mesmo tempo situar-nos ou imaginar que nos situamos à margem.

Os grandes escritores e as obras que eu considero importantes ensinaram-me a ver, a entender, a interrogar, a duvidar, a decidir, a viver de maneira que considero "melhor"; deram-me coragem para pensar o que penso, sentir o que sinto, e ir mais além ainda; mas pôr a nu, elucidar, incentivar, tornar mais claras as coisas não é indício de marginalidade. A "marginalidade" de Baudelaire, de Verlaine, de Rimbaud não faz de todos os escritores, nem sequer da maioria, marginais. E Paul Celan e Trakl foram marginais? O percurso solitário de Pessoa faz dele um "marginal"? Teríamos de definir a "marginalidade" de maneira muito particular para responder que sim. Parece-me que é assunto para discussões mais aprofundadas.

Não há de facto critério científico nem universal, Henrique, que permita distinguir a boa literatura da má (talvez seja mais fácil distinguir o "maior" e o "menor", o "grande" e o "pequeno"). Nem é necessário, a meu ver, preocupar-se tanto com essas classificações. É mais fácil - e parece-me que aceitável - dizer "para mim é bom", "para mim não presta". Repare que eu tinha escrito há marginais chatos e marginais interessantes, marginais inteligentes e marginais estúpidos, portanto ser marginal só por si, I'm sorry, não significa nada. O "valor" precisa de razões suplementares. E só há dois tipos de literatura: a boa e a má. Depende da capacidade, da necessidade e dos gostos de cada um. Literatura boa, ou "grande", ou maior, para mim é aquela que me interessa; e literatura má ou "pequena" ou menor é, não exactamente aquela que não me interessa, mas aquela que a minha experiência e conhecimentos me levam a considerar como rudimentar ou insuficiente - ou me impedem, independentemente da minha vontade, de considerar "grande". Haverá outra maneira de decidir? Mas o que é insuficiente e desinteressante para mim hoje não o teria sido ou não o foi há alguns anos, provavelmente. E se há pessoas que gostam actualmente daquilo de que eu não gosto embora possa ter gostado, a hipótese de haver consenso ou "verdade" complica-se. Não vejo onde está o problema. Não há classificações nem definições absolutas nem intemporais neste domínio. O bom e o mau serão sempre relativos e discutíveis. Cada um de nós tem o seu percurso a fazer, a sua vida para viver. E como coexistimos no mundo com pessoas de idades, experiência e educação muito diferentes da nossa, é natural que não estejamos de acordo em muita coisa. É importante? Se não aspirarmos a estar de acordo em tudo com toda a gente, se não sofrermos por ver o mundo tão dividido em gostos e opiniões, se não andarmos à pancada com quem gosta da literatura que não nos interessa, não vejo onde está o problema. A História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes considera que as narrativas de naufrágios não são boa literatura, nem sequer exactamente "textos literários", mas apenas "documentos"; e o neo-realismo merece-lhe as mesmas considerações. Imagino que não é fácil discordar do que as Histórias da Literatura afirmam porque o "saber" inspira respeito e exige humilde subserviência; mas entretanto a gente cresce, reflecte, aprende mais alguma coisa, perde o medo de discordar. O que parece marginal a outros pode não ser marginal para nós; o que a eles lhes parece respeitável, nós marginalizamo-lo com o nosso desinteresse. Se somos professores de literatura ou críticos literários podemos dar conta a quem nos ouve ou lê da opinião dominante ou oficial, de opiniões diferentes da nossa; mas também é normal que argumentemos a favor da nossa própria opinião e perspectiva. É entre essas duas "verdades", na medida em que for possível estabelecê-las e evocá-las, que tudo se joga.

A literatura pode ser o lugar real ou imaginário da nossa "marginalidade". Mas isso não faz da literatura enquanto tal uma actividade marginal ou para marginais - nem faz de nós seres marginais. Quanto à questão de ser a linguagem ou o estilo a marca de um grande escritor só posso estar de acordo se essa linguagem e esse estilo "falarem" de alguma coisa que se me imponha como importante - ou, eventualmente, sejam tão surpreendentes, mas talvez seja a mesma coisa, que reinventem, ressuscitem, transfigurem genialmente aquilo de que "falam". Confesso que surpresas dessas, porém, são raríssimas. Hjemslev parece-me que esclareceu estas questões de maneira inteligente há algum tempo ao explicar que a "forma" é "conteúdo" (a forma tem sentido, é uma parte do sentido, amalgama-se com o sentido das palavras e das frases) e o "conteúdo" é "forma" (faz parte das qualidades formais da obra, amalgama-se com aquilo que de maneira mais primária se considerava até há pouco como "a forma como coisa oposta ao "conteúdo").

P.S. Não tinha lido o post indignado de João Barrento contra Pedro Mexia acerca de Gabriela Llansol. O facto de as pessoas que João Barrento cita lerem Llansol faz dela uma grande escritora e deles a medida do mérito literário? E eu e o meu vizinho e os meus primos não contamos, só contam os amigos de João Barrento? Que falta de lucidez.

No comments: