Monday, March 10, 2008

Língua "artística" e língua "natural"?


Manuel Gusmão refere-se, num texto citado por Osvaldo Silvestre, à literatura como sendo "o uso artístico de uma língua natural" e ao ensino da literatura como favorecendo ou permitindo o "acesso à complexidade dos usos da linguagem". O assunto é delicado e propício a mal-entendidos. Não sei se a expressão "uso artístico" da linguagem não será ela própria uma explicação parcial da crise de prestígio e de atenção que a literatura atravessa. O "uso artístico" da linguagem feito por Camões, por Eça de Queirós, por Camilo, por Cesário Verde, por Fernando Pessoa, por Sá Carneiro, por Carlos de Oliveira, por Herberto Helder, por exemplo, agrada-me porque me parece ao mesmo tempo elevado sem ser pretensioso, sensato, adequado ao assunto, justificado nas próprias obras. Mas a língua "artística" que alguns ditos poetas e prosadores actuais usam não passa de tontice fastidiosa, de exagero "literário"artificial para dar credibilidade a experiências sem qualquer interesse, de pretensão que se apresenta como complexidade profunda a decifrar quando infelizmente não há nela nenhuma "figure in the carpet" a encontrar. Presumo que é ao uso simultaneamente desajustado e "artístico" da linguagem, ao facto de não se ter em conta que por muita "artística" que seja a linguagem é o assunto que em última análise acaba sempre por ser determinante, tanto como a factores conhecidos de natureza social que se deve a diminuição actual do número de leitores. Não devíamos esquecer que apesar da crise e da persistência de certo analfabetismo, o Portugal de hoje conta com um número muito superior de pessoas com educação académica e de licenciados pelas universidades. Pessoas que mesmo se não lêem ou não lêem muito também não admiram nem se sentem inferiores a quem escreve. Se a esse público não se propõem obras que respeitem a educação recebida e a qualidade da sua experiência - que a televisão e a internet enriquecem abundantemente de "textos", literários ou não, vindos de outras culturas - não surpreende que tenha diminuído em Portugal o número dos leitores de obras consideradas literárias. A literatura é útil, ler tem utilidade, se não ninguém lia. As "précieuses ridicules" actuais creio que continuam sem entender isso.

O que é a "língua natural" senão uma ilusão nossa, de universitário na torre de marfim, quando os processos retóricos da literatura - artísticos, se se quiser, na manipulação que fazem da língua - aparecem afinal por todo o lado e são visíveis, em grau maior ou menor, no uso quotidiano da linguagem e no uso que dela se faz permanentemente nos tribunais, na televisão, na igreja, na rádio, na imprensa, nos discursos e debates políticos? O que seria o uso considerado literário da linguagem se escritores e leitores não tivessem a experiência, como sujeitos e consumidores, dessas outras linguagens, desses outros" jogos de linguagem"? A complexidade da linguagem não é, felizmente, competência exclusiva dos professores nem dos escritores - que em certos casos nem sequer produzem textos que se recomendem e têm o desmérito de induzir as pessoas em erro e de alimentar fantasias ingénuas. A complexidade da linguagem é uma resposta e uma interrogação à complexidade da experiência - ou não vale nada. Há "complexidades" que são pura fraude e não têm qualquer interesse; fazer delas objectos de adoração e interpretação é uma perda de tempo e uma perversão da inteligência inexperiente. É de lamentar que na escola não se aprenda melhor e com pelo menos algum prazer, através de textos interessantes (e importantes), a manipular a língua e a decifrar as manipulações que dela fazem os outros. Mas a crise é mais geral, mais profunda, e nos justificados lamentos actuais sobre a decadência do livro e da leitura talvez se revele algum saudosismo em relação a formas enganosas e ultrapassadas
de pensar a literatura e a cultura. Assunto sobre o qual é necessário continuar a reflectir, sem dúvida.

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