Monday, March 03, 2008

Finisterra


Finisterra, de Carlos de Oliveira, é uma obra-prima. Se o fim oficial do neo-realismo e dos seus ideais ou utopias se torna evidente com a publicação de Signo Sinal (1979), de Vergílio Ferreira, de Sem Tecto entre Ruínas (1979), de Augusto Abelaira, e de Finisterra (1978), de Carlos de Oliveira, a atitude e o estado de espírito dos três romancistas difere radicalmente.

Abelaira, sempre silogisticamente perturbado pela existência de alternativas teóricas para a resolução dos problemas práticos, exprime em Sem Tecto entre Ruínas o desencanto com a revolução antes de ela ter chegado: andámos nós, os intelectuais de esquerda, a desejar a revolução; ora o povo, as pessoas, queriam era um carro, televisão, máquinas de lavar a roupa e a loiça; quem nos encomendou o sermão?

Vergílio Ferreira não perdeu a oportunidade de provar uma última vez triunfantemente com Signo Sinal (um romance apressado, mal alinhavado, cheio dos mais típicos lugares comuns do autor) que tivera razão em abandonar o projecto neo-realista muitos anos antes: moralizado pelo insucesso caricato da revolução de Abril, Signo Sinal desanca desabridamente, por falta de fé e por convencimento de superioridade intelectual, em tudo o que é ideologia e projecto de uma sociedade melhor; é na solidão da praia que o protagonista parece reencontrar a dignidade, algum prazer em viver e o sentido existência. Hoje essa aparente solução individualista de salvação pelo retorno à natureza através da meditação filosófica sobre o “ser” pode parecer muito ingénua, um chavão (foi o que sentiram os meus alunos que leram o romance recentemente). E tão cansativa e artificial como os lugares-comuns convencionais do neo-realismo.

Em Finisterra Carlos de Oliveira não esquece nem nega a validade da problemática social que inspirara os seus romances anteriores. Mas a maturidade e um desencanto mais sereno levaram-no a desligar em Finisterra a intriga romanesca dos problemas particulares de alguns indivíduos ou famílias com nome próprio - e a distanciar-se dos pormenores mais anedóticos das lutas de classe em que eles andam envolvidos. Em Finisterra os problemas postos pela vida em sociedade não desapareceram. Mas Carlos de Oliveira, que escreveu antes deles, fez em 1978 o que nem Vergílio Ferreira nem Abelaira conseguiram fazer em 1979: não diminuiu a importância dos problemas nascidos da injustiça social e conferiu-lhes ao mesmo tempo uma convincente dimensão filosófica. A questão da lei, a questão da propriedade, a questão do poder da ciência, a questão da organização social misturam-se, alternam e confundem-se com a obsessão frustrada em reencontrar, nas imagens guardadas, a realidade perdida, o passado. E a consciência de que tudo, a nossa existência e os objectos em que ela se torna palpável, está destinado a ser destruído, a desaparecer sem deixar traços, é uma perturbação que não elimina preocupações mais terra a terra do dia a dia.

Que sentido teria, nestas circunstâncias, continuar a fazer incidir a reflexão sobre a luta das classes deixando ainda aberta, nem que fosse apenas entre parênteses, a necessidade de lutar contra os opressores? Para o Carlos de Oliveira de Finisterra as lutas entre as classes, o factor económico, a questão da lei, a questão da propriedade privada são apenas um episódio importante e que não se pode ignorar da luta mais vasta e mais trágica que o ser humano trava com a existência. Não há aqui espaço para a fuga idílica e literária da realidade e da problemática social num individualismo de dândi, filosófico, à Vergílio Ferreira; nem espaço para os lamentos e remorsos teóricos de Abelaira relativos aos erros cometidos. Carlos de Oliveira foi na realidade o único que conseguiu, com Finisterra, transcender seriamente uma visão da realidade centrada sobretudo ou unicamente na questão da injustiça social e do poder sem denegrir ou desvalorizar ao mesmo tempo as suas preocupações, modelos estéticos e ideais de reforma social do passado. As interpretações de Finisterra que se têm aproveitado sobretudo da forma elíptica e da ambiguidade da narrativa para elaborar perspicazes divagações parece-me que têm passado totalmente ao lado do sentido imediato e da importância desta obra. Finisterra não era de modo nenhum a reconciliação de Carlos de Oliveira com uma visão mais formalista ou mais esteticista do romance ou da literatura. Não é uma obra parnasiana nem foi escrito certamente para proporcionar em primeiro lugar devaneios delirantes a jovens e talentosos investigadores universitários. Devíamos reler e tentar perceber: o pudor e rigor formal de Finisterra eram ainda negação da inútil ou inexistente arte pela arte e da prevalência alienada de mundanas preocupações estéticas sobre as graves questões existenciais. Uma preocupação exclusiva, irrealista ou exagerada da parte da crítica com a forma de uma obra literária pode revelar sintomática incapacidade de leitura, de entendimento ou interpretação dessa obra. Mas passaram anos. Já era tempo de percebermos. Olhar para a roupa e não querer ver o corpo não resolve problema nenhum.

P. S. Um dos meus alunos descobriu um livro que eu não conhecia (imperdoável): José Manuel Lopes, Foreground Description in Prose Fiction, Toronto, University of Toronto Press, 1995. Um dos capítulos é dedicado a Finisterra.

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