Tuesday, January 15, 2008

Dieu le sait


Comecei a ler um livro de um escritor português muito conhecido e traduzido. Leio por obrigação, mas admiti que podia, lendo, mudar de ideias a respeito do escritor. Duvido que mude de opinião. O monólogo interior depois de James Joyce está ao alcance de qualquer estudante de literatura que saiba escrever, portanto inspira piedade ver um escritor que visivelmente ignora as suas limitações praticá-lo sem parar e por vezes em frases mal escritas - para acumular banalidades sem interesse. Misturar dois ou três fios de intriga, não respeitar as regras tradicionais de pontuação só seria interessante se o assunto em si, o assunto do livro, fosse interessante. Não é interessante, é uma estopada. Histórias de famílias burguesas nem contadas para as caricaturar têm já qualquer interesse, prova-o o escritor. A burguesia portuguesa nunca teve qualquer interesse. Quem escreve sobre ela assim também não. O escritor, quando sai de casa, devia prestar atenção ao que se passa na rua. Duvido que o faça, porque das pessoas comuns, que não são velhas tias nem avós nem generais, por exemplo, parece-me que ele só vê a carapaça exterior, as suas personagens são como insectos a esbracejar numa caixa de vidro. O que interessa mais o escritor é o universo das familias burguesas. Aí há gente, nesse universo bolorento os insectos assemelham-se a gente com interioridade, destino e desígnios. Velhas decadentes mas elegantes, generais a cavalo ou a pé em retrato na parede da sala, coisas assim, velhas famílias nacionais. Lugares comuns: o escritor não vai ao fundo de nada, limita-se a cronicar - como se falar dessa gente de maneira superficial pudesse ser interessante. O escritor fala das criadas de servir, de que nunca se esquece, como os generais e as velhas tias falariam delas. Estava a ler e perguntei-me: o que é que está por detrás desta prosa abundante e esforçada, deste estilo infantil, enfadonho e gasto, que transpira suor por todos os poros e não vai a lado nenhum aonde valha a pena ir? Porque é que as pessoas escrevem, acreditam no poder de sedução de algumas frases, publicam livros com a sua fotografia de pensativo na capa, embelezam e exageram tudo com ingénuos intuitos artísticos, dão entrevistas em que falam de ter escrito e do que escrevem? Porque é que as pessoas perdem tempo e se enchem de ilusões inúteis e prejudiciais a ler a prosa ou a poesia desnecessárias de alguns escritores tidos por consagrados? Porque não vão ao futebol, ou à praia, ou a um bar beber cerveja em vez se preocuparem, sem sentido crítico nem sensatez, em ser estupidamente cultas? Dieu le sait. Mas há sempre um catedrático disponível, um louco ou uma louca, que acha muito proveitoso e interessante. Que Deus, se existe e tem piedade da vaidade dos escritores, proteja aqueles que andam perdidos no caminho da vida. Eu, se voltasse à universidade agora e lá reencontrasse alguns dos meus professores - eu disse "alguns" - não os levava a sério, havia de achá-los doidos varridos.

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