Sunday, December 28, 2008

Católicos e Protestantes: as razões da Reforma segundo Max Weber

A historical question then arises however as to the reason for this particularly strong predisposition of the economically most developed regions toward a revolution in the Church. And here the answer is by no means as simple as one might at first believe. Certainly, the casting aside of economic traditionalism seems to be one phenomenon that was bound to lend strong support to the tendency to call into question religious traditions and to rebel against traditional authorities. But what is often forgotten is that the Reformation meant less the entire removal of ecclesiastical authority over life than the replacement of the previous form of authority by a different one. It meant, in fact, the replacement of an extremely relaxed, practically imperceptible, and scarcely more than formal authority by an infinitely burdensome and earnest regimentation of the conduct of life [Lebensfuhrung], which penetrated every sphere of domestic and public life to the greatest degree imaginable. Today, even peoples of thoroughly modern economic character can tolerate the rule of the Catholic Church- "punishing heretics, but treating sinners gently," a principle that applied even more strongly in the sixteenth century than it does today; but the rule of Calvinism, as exercised in the sixteenth centuy in Geneva and Scotland, at the turn of the sixteenth and seventeentt centuries in large parts of the Netherlands, in the seventeenth centuy in New England, and at times even in England, would be for us simply the most unbearable form of ecclesiastical control over the individual that it would be possible to imagine.

What the reformers in the countries with the highest economic development disapproved of was not that there was too much but rather that there was too little ecclesiastical and religious control of life.

Max Weber, The Protestant Ethic and the “Spirit” of Capitalism, 1905/1920

Friday, December 26, 2008

"Clever beasts invented knowing"

Once upon a time, in some out of the way corner of that universe which is dispersed into numberless twinkling solar systems, there was a star upon which clever beasts invented knowing. That was the most arrogant and mendacious minute of "world history,” but nevertheless, it was only a minute. After nature had drawn a few breaths, the star cooled and congealed, and the clever beasts had to die. - One might invent such fable, and yet he still would not have adequately illustrated how miserable, how shadowy and transient, how aimless and arbitrary the human intellect looks within nature. There were eternities during which it did not exist. And when it is all over with the human intellect, nothing will have happened. For this intellect has no additional mission which would lead it beyond human life. Rather, it is human, and only its possessor and begetter takes it so solemnly - as though the world's axis turned within it. But if we could communicate with the gnat, we would learn that he likewise flies through the air with the same solemnity, that he feels the flying center of the universe within himself. There is nothing so reprehensible and unimportant in nature that it would not immediately swell up like a balloon at the slightest puff of this power of knowing. And just as every porter wants to have an admirer, so even the proudest of men, the philosopher, supposes that he sees on all sides the eyes of the universe telescopically focused upon his action and thought.

in The Nietzsche Reader, edited by Keith Ansell Pearson
and Duncan Large, Blackwell Publishing, 2006, p. 114

Monday, December 22, 2008

Reflexões ingénuas sobre a linguagem (2)




1. As maquinações do desejo provavelmente são inexplicáveis. Ou não temos coragem de assumir as razões ou não temos capacidade de as entender. Como há mil interpretações e justificações possíveis para os nossos actos e decisões, a filosofia e a literatura florescem. Sem linguagem que nos permite especular, como seria a nossa existência? Mais verdadeira? Mais confusa? Seria insuportável não poder explicar, não poder justificar-se?

2. Antes de morrer, Schumann, que atravessava grave crise mental, quis reescrever toda a sua música. Achava que o que tinha escrito estava fora do tom. O que é o tom, então, e qual é a importância da tonalidade na organização da sintaxe musical? Aplicada à linguagem falada e escrita qual seria a consequência de tamanha dúvida e remorso?

3. Aqueles que nos adulam, e os que dizem que nos amam ou que nos odeiam, não deviam estar tão seguros de si quando falam connosco. Os aduladores, se não estamos temporariamente ou definitivamente corrompidos pela vaidade, é fácil ignorá-los, ouvi-los sem lhes prestar muita atenção ou dar crédito. Nos casos em que é o pretenso amor ou o pretenso ódio que se exprimem directamente e veementemente através da linguagem as coisas não são tão simples. Facilmente podemos acreditar no que ouvimos. É possível que quem nos fala seja sincero, acredite no que está a dizer. Mas não seria difícil, em cada caso, provocar alguma dúvida no espírito de quem se crê tão seguro de si. A vontade de agradar ou ofender são evidentes, as palavras têm um valor que se pode considerar eticamente monetário. Mas as fronteiras entre os sentimentos são muito ténues. O que será aquilo a que chamamos amor ou ódio, o que é um sentimento exactamente? A que entidades obscuras e sem nome se referem as palavras que usamos com tanta aparente segurança como moeda de troca no comércio das relações humanas?

4. Nós dizemos a alguém “não posso viver sem ti” – mas vivemos. Alguns sentimentais suicidam-se, mas são a excepção rara. Que valem as palavras, então? Não se podem levar à letra, pelos vistos. A poesia medieval galaico-portuguesa já glosou ironicamente e sarcasticamente o tema: o poeta morria de amor mas em breve, farsante, ressuscitava. A nossa consciência da pouca validade das palavras ditas surge noutros poemas galaico-portugueses da Idade Média em que o narrador se queixa dos embusteiros que enganam as mulheres dizendo-lhes que as amam quando na realidade só querem aproveitar-se delas. Por causa desses falsos amadores, diz um poeta, sofrem aqueles que amam de verdade, sinceramente. Quem nos garante, no entanto, e quem garante àquela ou àquele que ouve as palavras de amor, que quem as pronuncia não é apenas um exímio e talentoso trapaceiro? Ou alguém que simplesmente não sabe o que diz e diz não importa o quê?

5. Interpretar as frases de uma língua em sentido literal é ao mesmo tempo necessário, tem de se começar por aí, e muito arriscado. O dicionário não tem em conta outros elementos indispensáveis à compreensão da mensagem, nem pode prever as intenções dos interlocutores. A situação em que surgem as palavras, a personalidade e a competência de quem as diz e de quem as ouve, são no entanto elementos que não podem nunca deixar de ser tidos em conta. Além disso, e independentemente das outras condições já referidas, as palavras adquirem importância e sentidos diferentes quando se juntam a outras palavras, quando estão em companhia. O sentido literal é apenas a primeira cara com que nos aparecem as palavras e as frases e por isso, mesmo se nos induz em erro ou se revela imperfeito à partida, seria difícil querer evitar essa etapa ou querer diminuir a sua importância.

6. A linguagem nunca é totalmente clara, se é que alguma vez o é satisfatoriamente. Os mal-entendidos nunca terão fim: por deficiência, à partida, da própria linguagem; muitas vezes por incompetência ou competência imperfeita de quem usa a linguagem; e porque, conscientes apesar de tudo dessa insuficiência da linguagem - e talvez da sua própria incompetência - os seres humanos têm tendência a utilizar as debilidades da linguagem em seu proveito, a priori ou a posteriori. Ainda assim vamos indo, surgem edifícios novos todos os dias em qualquer parte na cidade, abrem-se estradas, joga-se futebol, a tuberculose deixou de ser uma doença a que não se pode escapar, Obama já prometeu fechar o campo de concentração de Guantanamo. Apesar de tão imperfeita, a linguagem serve, tem servido para alguma coisa – e nem sempre para destruir, para mentir e deformar, para subjugar, nem sempre para complicar o que deveria permanecer simples.

7. Será possível um dia fazer um back-up completo do cérebro humano semelhante ao que hoje se faz do disco duro de um computador? Seria divertido por mil razões.

Monday, December 15, 2008

Parvoíces

Não sei que fazer com as pessoas que, tomando-me por mais parvo do que sou, me vêm contar histórias inverosímeis. Querem dinheiro, querem favores, querem aproveitar-se da situação para levar a cabo os seus projectos manhosos. Convidam-me para jantar ou para tomar café, eu pergunto-me logo porquê, mas dou-lhes o benefício da dúvida, quem sabe, talvez queiram conversar comigo e passar algum tempo na minha companhia por amizade. Engano-me. Eles não têm consideração pela pessoa que eu sou, devem imaginar que eu sou tolo, pensam que é fácil convencer-me de que sou uma pessoa importante, por exemplo, coisa que eu não sou, nunca fui, nunca serei. Sentam-se na minha frente, fazem umas caretas, movem o corpo na cadeira, começam o processo da sedução. E então põem-se a falar. Com alguns cuidados, mas não os necessários, pois eu vou-me apercebendo do andar da carruagem, vou tomando nota, vou aguardando pelo momento da verdade. Nada a fazer, eles não têm cura nem salvação. É só interesse, é só manha nos sorrisos e nas falsas confidências, é só adulação, é só subterfúgio. Que fazer, digam-me, com gente assim, sem escrúpulos, sem miolos, sem vergonha? Quando chego a casa, meio irritado por ter perdido o meu tempo com pessoas que não souberam aproveitar a oportunidade que eu lhes dei de arrepiar caminho e de se redimir, devia escrever-lhes: quem é que você acha que é para acreditar que me pode enganar tão facilmente com as suas histórias estúpidas, com os seus sorrisos teatrais, com as suas estratégias doentias de débil mental? Quem? Mas não faço nada. Devia cortar relações com gente assim definitivamente. Mas tenho pena deles, o mundo é imperfeito, nós, seres humanos, somos muito imperfeitos. E perdoo-lhes. Não me vão ver tão depressa, não aceitarei convites para ir jantar ou tomar café, é certo, mas não tomo medidas mais drásticas. Fico em casa ou vou sozinho ao café ou jantar ao restaurante, pelo menos sei com o que posso contar. O espectáculo degradante da luta mesquinha pela vida deprime-me. Apetece-me muitas vezes e cada vez mais fugir para longe, para muito longe, nunca mais os ver. Mas ainda não chegou o momento, tenho de suportá-los ainda durante algum tempo. Eles não me impedem de me concentrar no essencial, não me desviam do meu caminho, não conseguem fazer-me duvidar. Se eles percebessem isso. Mas eles sabem uma coisa: por distracção, por indiferença, ou num gesto brusco de generosidade nascido do cansaço, acontece-me às vezes dar-lhes o que eles pedem. E eles ficam convencidos de que foram brilhantes, de que não foi muito difícil dar-me a volta. Unem-se uns aos outros, conversam em segredo nas minhas costas, criticam a maneira desabrida como às vezes, farto de assistir aos episódios em que sua ambição vai tentando perverter o decorrer das coisas, os meto na ordem. Bom proveito, penso eu. Às vezes desabafo sozinho em casa, enquanto vou da cozinha para a casa de banho: o que é que eu estou aqui a fazer no meio desta cambada de imbecis sem princípios nem cultura nem bom senso? Puta que os pariu, deixem-me em paz. De qualquer modo, quando me vem a vontade de fugir, de me afastar de vez desta podridão, sou obrigado a cair em mim: onde é que há gente diferente, que não ande constantemente a intrigar para proteger e promover os seus interesses, mesquinhamente? O mundo está cheio de vícios. Vivemos no meio do vício, da ignorância, da estupidez. É melhor fecharmos um pouco os olhos para não cairmos na tentação de dar um pontapé em tudo, de denunciar na praça pública a podridão em que eles se atolam e nos querem atolar. Algumas pessoas vão tentando remar contra a maré. Mas são uma minoria ridícula. E dessa minoria ridícula nem todos entenderam ainda suficientemente os requintes malvados da ambição à procura de satisfazer-se. A vida continua, nada muda. As coisas já eram assim quando nós chegámos, continuarão assim quando nós nos formos embora para sempre.

Thursday, December 11, 2008

Invasão

Cada palavra uma complicação, um mundo. Episódios, cenas, confusões, umas atrás das outras, umas dentro das outras. Por isso achei preferível calar-me e fazer por não ouvir tudo o que se diz. Evitava a companhia de outras pessoas, gostava de estar em casa, só. Olhava para a parede. Fazia por não pensar. Ia a caminho do silêncio, fazia por criar à minha volta o vazio, no espírito. Não era fácil. As palavras atacavam-me de todos os lados, não renunciavam. Eu punha a mão no rosto impertinente da palavra que se aproximava de sorriso nos dentes, que tentava seduzir-me. Empurrava-a sem piedade para o precipício do nada. Logo a seguir surgia outra palavra e eu repetia o processo: mão firme na cara da palavra, empurrão para o despenhadeiro de onde não se volta. Mas elas voltavam, renasciam das cinzas, não desistiam de me atacar. Cansado, eu sentava-me na cama. Distraía-me de ter cuidado e as palavras, então, reorganizavam-se com mais subtileza e manha, era um exército experiente e tenaz a querer invadir a minha solidão. Tanta insistência era despropositada. O que é que elas queriam? Queriam, cheias de ambição, forçar a entrada. Vinham com o seu mundo, o seu sentido, os pesadelos e as mágoas, os risos e as alegrias de que era necessário desconfiar. Cada palavra uma caixa repleta de surpresas, cheia de sentimentos contraditórios. Mais tarde eu adormecia. Mas a luta repetia-se quotidianamente. A invasão do sentido, a agressão, o desplante, não paravam. Um dia eu seria capaz de as enfrentar friamente, sem ir alem da superfície. Deixaria de ver para além da sua materialidade insignificante, não teria necessidade de me cansar a empurrá-las para fora da minha vista. Seria como olhar para o vazio sem sofrer a ausência do mundo. Por ora faltava-me ainda a experiência, eu não era suficientemente forte para correr riscos inúteis, por isso tinha de me libertar delas afastando-as como se afasta uma mosca obstinada. As palavras não são pessoas exactamente, embora se lhes possam comparar.

Sunday, December 07, 2008

Reflexões ingénuas sobre a linguagem

1. Em francês diz-se lapin, em inglês diz-se rabbit, em português diz-se coelho. Aquilo a que se referem as palavras é sempre a mesma coisa, o mesmo “objecto”, mas as palavras são diferentes em cada caso. É necessária uma prova mais convincente do carácter arbitrário, na origem, da relação entre uma palavra e o seu referente? A relação entre a palavra e o referente pode parecer natural porque nós aprendemo-la em vez de apreender outra: o que se apreende no berço, inocentemente, tem tendência a ser visto e sentido como “natural”, como a única solução possível, como a palavra de Deus sobre o mundo. Mas como o prova a existência em línguas distintas de palavras diferentes para o mesmo objecto, essa relação é artificial, é aprendida, nasce de uma convenção. Esta simples observação tem enormes consequências na minha maneira de entender o mundo e tudo o que me acontece.

2. O acordo ortográfico, a que não tenho prestado grande atenção porque é uma coisa supérflua para mim, parece que quer que eu escreva predileção em vez de predilecção. Quer que eu tire da fotografia mental que tenho da palavra uma letra: o c. Não estou de acordo. Acho um abuso. Eu aprendi o que aprendi e não estou disposto a mudar as coisas só porque os detentores do poder político decretaram que eu devo fazê-lo. Já agora, não querem tirar mais nada? Se eu escrever prdileção não me afasto muito do que de facto pronuncio quando digo a palavra, por isso tirem também o e. Só que a palavra tem uma cara e o que me estão a pedir é que mude a cara à palavra. Eu sei que a cara das pessoas vai mudando com o tempo e a gente habitua-se a isso. Mas as palavras não são pessoas exactamente, embora se lhes possam comparar. Continuarei a escrever predilecção.

3. Os analfabetos não distinguem uma cadeira de uma mesa nem uma árvore de uma montanha ou de um banco de jardim? Claro que distinguem. Além disso, mesmo sem saberem ler nem escrever, podem falar, namoram, fazem filhos, jogam futebol, aparecem na televisão, ajudam a apagar os incêndios, insultam os árbitros. Por exemplo. Qual é a utilidade da linguagem escrita, então, em que é que a existência de quem não sabe ler nem escrever é menos profunda, mais desorganizada ou mais absurda do que a de quem sabe? Estou aqui sentado no café a escrever, mas podia estar apenas aqui sentado no café a pensar em tudo o que escrevi ou noutra coisa. Qual seria a diferença? Não sei, não me apetece pensar no assunto. Se eu não soubesse escrever não podia contar o que contei, é certo. Mas o que é que se perdia por isso?

Tuesday, December 02, 2008

Cellist Matt Haimovitz Plays Ligeti mvmt I

To safeguard an easy life

When the first cities were formed from families, the lawless liberty of the nobles caused them to resist any checks and burdens: witness the aristocracies in which the nobles rule as lords. Later, when the plebeians become numerous and grown warlike, the nobles were obliged to bear the same laws and burdens as the plebs: witness the nobility in democracies. Finally, to safeguard their easy lives, the nobles were naturally inclined to submit to a single ruler: witness the nobility under monarchies. 

Giambattista Vico

Sunday, November 30, 2008

Parker String Quartet plays Ligeti for NAXOS records

Um poema de Bruno Béu

lux aeterna, depois de ligeti

escrevo isto porque é importante
dizer-te que acabaram as velas
cá em casa e se a luz um dia
faltar fico completamente às escuras

Saturday, November 29, 2008

Um poema de Susana Miguel


há muito tempo que conversamos sobre as coisas
que não têm um lugar fixo nos móveis. a moldura é pequena
e mesmo assim, nela a imagem, a única a lembrar-nos
o apartamento e alguns objectos que aconteceram
naquele dia. às vezes, as plantas eram colocadas no chão
da varanda, perto da sombra causada pela roupa do estendal
ou ao lado da estante de pinho, no quadrado da sala.
temos de dar um lugar certo às coisas, um lugar onde
possam morrer para depois ficarem aqui, presas aos olhos
como uma luz sépia a confundir-nos o corpo todo e
a parte mais funda da terra. não havia mais nada
para dizer e tu inventavas as horas da tarde e o bairro
da tua rua era uma extensão de pessoas a esquecer
promessas e a olhar ao cimo, as duas torres da igreja.
naquela manhã pouco importaram as conversas. ela deixara
o quarto meticulosamente arrumado e a sopa ainda
ao lume. ninguém diria que teria sido possível vê-la
morrer assim, de pulsos cortados.

Thursday, November 27, 2008

Frágeis consensos



Um autor, um livro, podem ser descobertos ou redescobertos ciclicamente por gerações sucessivas. Em vida do autor ou depois de ele ter deixado de escrever. Que significa ser “descoberto” ou “redescoberto”? Significa que em vez de ler e passar à frente, a outra coisa, o leitor se detém, intrigado, e voltará mais tarde aos textos com atenção, curiosidade, interesse, interrogações. O que confere a um texto essa capacidade de suscitar e merecer a atenção que lhe dá existência já é mais difícil de explicar e depende da formação, competência, experiência e interesses do leitor. Como os leitores divergem na formação, nos interesses e na experiência, o mesmo texto pode não merecer qualquer atenção ou merecer atenção sincera em graus diferentes e por razões diferentes. E é assim que se vai escrevendo a história literária, se vai construindo, corrigindo, fazendo e desfazendo aquilo a que chamamos “o canon”. Consenso na formação, na experiência, na competência, nos interesses são a origem da história cultural de um país.

Mas os consensos, como as democracias, não nascem da superioridade, nascem da existência de maiorias. E as maiorias, por vezes ou em certos aspectos, têm razão, estão acima da suspeita de incompetência, e outras vezes não têm razão e limitam-se a partilhar conhecimentos e opiniões que para quem não faz parte dessas maiorias democráticas são contestáveis ou fruto de alguma forma de imaturidade, alienação ou incompetência.

Os consensos, em questões de literatura, são tão políticos e ideológicos como o consenso politico propriamente dito. Embora eventualmente nos queiram fazer crer o contrário. Separar opiniões, politicas ou culturais, das razões ideológicas e da competência que as justificam é um erro de perspectiva alimentado pelo carácter supostamente excepcional e particular, específico, das actividades ditas culturais: nenhuma actividade humana escapa às leis da competência, do saber, nem à ideologia entendida num sentido amplo (não no sentido de oposições simplistas do tipo esquerda/direita, liberalismo/socialismo, evidentemente). E não servirá de muito discutir ou entrar em polémicas: situados em lugares diferentes na galeria dos espectadores, na assembleia das diferenças de classe e de interesses, na escada do tempo, cada indivíduo ou grupo terá as suas razões válidas para escolher o que escolheu, valorizar e desvalorizar o que valorizou e desvalorizou. O mundo não é um espaço uniforme, nele coexistem os tempos mais diversos, alguns estão no início do percurso da aprendizagem e do conhecimento, outros estão no meio, outros estão no fim, sem que se possa esclarecer com rigor em todos os casos a posição de cada um.

Querer explicar uma sociedade sem ter em conta que ela é constituída por indivíduos e grupos sociais que apesar de coexistirem no mesmo espaço geográfico, político, cultural, são dotados de competência e de interesses diferentes, e que além disso se encontram em tempos diferentes na escada do tempo é um curioso mal-entendido.

P. S. Referindo-se a estas observações, Carlos Almeida lembra-me no seu blogue a existência de Stanley Fish - e podia ter-me lembrado também a de Wolfang Iser e outros. Acontece que estive há dias num exame preliminar de PH.D. e que ao ouvir discorrer, entusiasticamente, inteligentes colegas latino-americanos mais jovens não me senti forçosamente membro obediente da comunidade de interpretação a que teoricamente ou institucionalmente pertenço. Donc, je ne suis pas d'accord avec Fish sur ce point - ni sur d'autres, pois eu vejo o texto de um lado e o leitor do outro, sim, mas ambos cheios de potencialidades imprevisíveis e nenhum deles auto-suficiente. A relação do leitor com o texto é uma relação condicionada nos dois sentidos, não num só. Por outro lado a minha noção de "competência" não tem nada a ver com "competência universitária" e só parcialmente corresponderá a qualquer comunidade. A chamada "competência universitária" e aqueles que a tentam imitar sem fazerem parte do grupo têm frequentemente uma característica muito particular: a preocupação de conferir legitimidade e vestimenta de cerimónia à interpretação banal dos textos confere elevação e complexidade despropositadas àquilo de que se quer fazer assunto e tese, complica o que é simples e passa ao lado do que é importante, recorre à citação abundante e despropositada de Freud, de Nietzsche, de Derrida, de Benjamin, etc., para explicar situações que a linguagem e a sabedoria mais comuns podem explicar sem cair no ridículo da solenidade inadequada. As universidades e os jornais estão cheios de especialistas da alma com muito estilo mas cuja sabedoria e gosto não ultrapassa muitas vezes o grau de entendimento e de experiência de qualquer doméstica mãe de familia ou consciencioso contabilista comercial, tomados ambos aqui apenas como tipos sociais eventualmente inexistentes.

Friday, November 21, 2008

Sobre os mortos

Honrar os mortos é honrar os vivos. Os antigos gregos honravam ou aviltavam os mortos segundo o respeito ou desrespeito que tinham mostrado, no seu comportamento, pelas leis da cidade. Não somos cães, não é?

As palavras ditas diante dos mortos conseguem às vezes ter sentido e transmitir emoção verdadeira. Mas quando se escreve sobre os mortos cai-se quase sempre numa banalidade confrangedora. Encontrar palavras para a dor, para a perplexidade, é muito difícil. Por isso o discurso sobre a dor é em geral pobre: em vez de nos calarmos, falamos em vão. A experiência directa da morte é chocante porque a morte acontece com a mesma ilusória banalidade com que se fecha uma porta ou uma folha cai de uma árvore.

Thursday, November 20, 2008

Tadeusz Kantor, avant-garde theater

Há muitos anos assisti, no Festival de Avignon, duas vezes, à representação da peça Que Crèvent les Artistes. Kantor estava de pé à entrada do palco, de fato escuro, como um chefe de orquestra atento e silencioso. Numa das noites alguns espectadores, como havia falta de lugares, foram sentar-se nuns degraus muito perto da cena. Kantor interrompeu o espectáculo e mandou-os sair de lá. A segunda vez que assisti ao espectáculo não tinha bilhete, mas como tinha conhecido uma pessoa que fazia parte da troupe ajudei a levar um cesto com fruta e pude entrar. Na minha vida toda devo ter visto uns 3 espectáculos de teatro realmente importantes e por isso inesquecíveis. A peça de Kantor em Avignon foi o que mais me tocou. Kantor fez-me compreender, entre muitas outras coisas, que o teatro não tem de ser escrito, pois pode ser construído com os actores.

Sunday, November 16, 2008

There are no educators

As a thinker, one should speak only of self-education. The education of youth by others is either an experiment, conducted on one as yet unknown and unknowable, or a leveling on principle, to make the new character, whatever it may be, conform to the habits and customs that prevail: in both cases, therefore, something unworthy of the thinker - the work of parents and teachers, whom an audaciously honest person has called nos ennemis naturels. One day, when in the opinion of the world one has long been educated, one discovers oneself: that is where the task of the thinker begins; now the time has come to invoke his aid - not as an educator but as one who has educated himself and thus has experience.

Nietzsche, "The wanderer and his shadow"

Tuesday, November 11, 2008

Subtilezas

Na primeira página do jornal O Público de hoje, dia 12 de Novembro, leio, num título em letras maiores do que o texto da notícia, que "Sócrates diz estar preocupado com dificuldades sentidas pelas empresas". Tudo bem, Sócrates terá dito isso. Na mesma página leio outro título: "cinco dezenas de empresas fugiram ao pagamento de um milhão de euros em impostos". No texto desta última notícia acrescenta-se que "o Ministério Público, a Direcção de Finanças de Lisboa e a GNR identificaram hoje, na Grande Lisboa, mais de cinco dezenas de empresas, maioritariamente do sector da construção, que estarão envolvidas na emissão de facturas falsas e que terão conseguido fugir ao pagamento de um milhão de euros em impostos." A minha perplexidade era inevitável: no primeiro caso, o título da notícia distancia-se de Sócrates, que diz que está preocupado... mas não se sabe bem se está. No segundo caso a informação sobre quem diz que as empresas fugiram ao pagamento de impostos vem de organismos governamentais, mas é apresentada no título como sendo uma verdade indiscutível. Não sei o que é que terá justificado a diferença de tratamento, visto que Sócrates, como se lê no corpo da notícia, também terá dito que "o Governo está preocupado com as empresas e tudo fará para as ajudar a enfrentar as dificuldades". Subtilezas de jornalistas.

Wednesday, November 05, 2008

The American way: survive, multiply, transform...

“I interpret this remark [truth is a mobile army of metaphors”, Nietzsche] along the lines of my discussion of Davidson’s treatment of metaphor in Part II of Volume I. I take its point to be that sentences are the only thing that can be true of false, that our repertoire of sentences grows as history goes along, and that this growth is largely a matter of the literalization of novel metaphors. Thinking of truth in this way helps us switch over from a Cartesian-Kantian picture of intellectual progress (as a better and better fit between mind and world) to a Darwinian picture (as an increasing ability to shape the tools needed to help the species survive, multiply, and transform itself).”

Richard Rorty, Philosophical Papers, volume II,
Essays on Heidegger and others. Cambridge
University Press, 1991

Friday, October 24, 2008

Why?

Como é que a "forma" é "significante" e "expressiva"? Porquê? Quem é que decide, como é que se avalia?

Sunday, October 19, 2008

"Significant Form"

WHAT DISTINGUISHES a work of art from a "mere" artifact? (…) To reply, "Its beauty," is simply to beg the question, since artistic value is beauty in the broadest sense. (…) In the words of a well-known critic, Mr. Clive Bell, " 'Significant Form' is the one quality common to all works of visual art." Professor L. A. Reid, a philosopher well versed in the problems of aesthetics, extends the scope of this characteristic to all art whatsoever. For him, "Beauty is just expressiveness," and "the true aesthetic form ... is expressive form." Another art critic, Mr. Roger Fry, accepts the term "Significant Form," though he frankly cannot define its meaning. From the contemplation of (say) a beautiful pot, and as an effect of its harmony of line and texture and color, "there comes to us," he says, "a feeling of purpose; we feel that all these sensually logical conformities are the outcome of a particular feeling, or of what, for want of a better word, we call an idea; and we may even say that the pot is the expression of an idea in the artist's mind." After many efforts to define the notion of artistic expressiveness, he concludes: "I seem to be unable at present to get beyond this vague adumbration of significant form. Flaubert's 'expression of the idea' seems to me to correspond exactly to what I mean, but alas! he never explained, and probably could not, what he meant by the 'idea.' "

There is a strong tendency today to treat art as a significant phenomenon rather than as a pleasurable experience, a gratification of the senses. This is probably due to the free use of dissonance and so-called "ugliness" by our leading artists in all fields - in literature, music, and the plastic arts. It may also be due in some measure to the striking indifference of the uneducated masses to artistic values. In past ages these masses had no access to great works of art; music and painting and even books were the pleasures of the wealthy; it could be assumed that the poor and vulgar would enjoy art if they could have it. But now, since everybody can read, visit museums, and hear great music at least over the radio, the judgment of the masses on these things has become a reality, and has made it quite obvious that great art is not a direct sensuous pleasure. If it were, it would appeal - like cake or cocktails - to the untutored as well as to the cultured taste. This fact, together with the intrinsic "unpleasantness" of much contemporary art, would naturally weaken any theory that treated art as pure pleasure. Add to this the current logical and psychological interest in symbolism, in expressive media and the articulation of ideas, and we need not look far ahead for a new philosophy of art, based upon the concept of "significant form."

Susanne K. Langer, Philosophy in a New Key, A Mentor
Book, Published by the New American Library, New York
and Toronto, 1942, 1951


"The Engineer' s Æsthetic and architecture-two things that march together and follow one from the other-the one at its full height, the other in an unhappy state of retrogression.
The Engineer, inspired by the law of Economy and governed by mathematical calculation, puts us in accord with the universal law. He achieves harmony.
The architect, by his arrangement of forms, realises an order which is a pure creation of his spirit ; by forms and shapes he affects our senses to an accute degree, and provokes plastic emotions ; by the relationships which he creates he wakes in us profound echoes, he gives us the measure of an order which we feel to be in accordance with that of our world, he determines the various movements of our heart and of our understanding ; it is then that we experience the sense of beauty."

Le Corbusier

(sent to me by Stéphane, my preferred architect...)

Tuesday, October 14, 2008

”Por qué no te callas? ”

Parece que Herberto Helder publicou um livro com poemas "inéditos". INÉDITOS: é isso que tem sido posto em evidência. O Henrique Fialho, que é autor de um livro cheio de refexões interessantes sobre poesia (O Meu Cinzeiro Azul), já escreveu sobre o assunto palavras sensatas e convincentes. O Manuel Domingos também. Eu acho que Herberto Helder é um poeta importante, evidentemente, mas o poema inédito que Sérgio Lavos cita no blogue Auto-Retrato – blogue que eu respeito e leio com prazer - merecerá tanta preocupação? Eu não vi nada de "inédito" no poema do Herberto Helder.

O poema citado de Herberto Helder e os poemas do mesmo estilo publicados antes por muitos outros poetas incluem-se num registo conhecido: o do ”porque não te calas?” Isto é: deixa-me falar a mim, que sou poeta - e tu reduz-te à tua insignificância porque não percebes nada do assunto. É um tópico frequente entre os poetas e entre os críticos de poesia que têm os seus poetas preferidos e recusam os que não aderem ao código que lhes serve de norma.

Porque perdem os poetas e os críticos tanto tempo a vituperar ou insultar os outros poetas, os que são maus e nem poetas são afinal, em vez de utilizar a lucidez, a sabedoria, a experiência e competência linguística próprias para escrever os melhores poemas, aqueles que não serão banais e hão-de suscitar por séculos sem fim admiração sem limites? O poema de Herberto Helder citado pelo Sérgio não resolve a questão, limita-se a relançá-la - e portanto, mesmo se o que o poema diz é acertado e justificado, é um poema falhado ou um poema apenas interessante sobre a própria incapacidade poética do seu autor. O tópico que ele trata é tão velho como a própria poesia e já se encontra na poesia medieval galego-portuguesa. E não há mal nenhum nisso. Mas tanto barulho acerca de inéditos que nada acrescentam à obra de Herberto Helder nem à poesia portuguesa contemporânea é sintoma de enorme confusão e de falta de assunto.

A poesia de Joaquim Manuel Magalhães, também citado pelo Sérgio, que considera Magalhães um dos raros poetas que depois de Herberto Helder teriam escrito uma poesia diferente e digna de atenção, está cheia de diatribes semelhantes às do poema citado de Herberto Helder contra os outros poetas, contra os críticos, contra as pessoas irritantemente "boçais" e "vulgares" que o poeta, ser imaculado e de excepção, tem a infelicidade de cruzar na rua durante as suas deambulações metafísico-estéticas pela cidade. A poesia de Magalhães é um cocktail bizarro elaborado a partir da poesia de Jorge de Sena, de Ruy Belo e de Vitorino Nemésio (a secção da agressividade vem directamente de Jorge de Sena, o desprezo pela vugaridade das pessoas banais vem daí e também aparenta Magalhães ao romancista Lobo Antunes). A versão segundo a qual Magalhães teria operado um "retorno ao real" (whatever that means...) na poesia portuguesa contemporeânea, que algumas pessoas fazem correr por aí e que Sérgio Lavos retoma, não tem qualquer fundamento nem sentido, só é prova de muita falta de leituras e vontade de inventar histórias.

Nem sequer os blogues cortaram ainda o cordão umbilical com a história da literatura tal como ela tem sido e é contada pelos velhíssimos e muitas vezes superficiais, apressados e infundados manuais de papel que vão amarelecendo irremediavelmente nas estantes das bibliotecas e de algumas livrarias?

A vontade de manter vivo o canon e de o reconstruir regularmente nasce do respeito que nos ensinaram a ter pelas pessoas mais velhas e supostamente experientes, estudiosas e sábias. Nasce do medo do caos e do medo da desordem que seria viver num país sem história, sem escritores e sem outros ídolos canonizados. Nasce da necessidade de ter património cultural nacional, da necessidade de ciência e de certezas para nos sentirmos seguros e na posse de alguma coisa. Nasce da necessidade de ter um fio e uma meada. O que alguns escritores ainda não entenderam foi a insignificância actual, no contexto mais geral da existência, da sua própria grandeza. Quanto aos críticos, antes de fazerem generalizações, leiam tudo ou pelo menos leiam um pouco mais, trabalhem em full time, façam um esforço - em vez de se limitarem a repetir ou citar os críticos que só leram (obliquamente) meia dúzia de livros dos amigos ou dos ídolos já reconhecidos mas pretendem ter lido tudo o que foi publicado.

P. S. Acabo de ler as reflexões de Sérgio Lavos sobre o que eu tinha escrito aqui e gostaria de eliminar de vez algum malentendido que possa ter subsistido: a) os comentários que o Sérgio tinha feito acerca da poesia de Herberto Helder, que também eu considero um poeta importante, nunca estiveram em causa para mim; b) o que Herberto diz no poema citado pelo Sérgio não me chocou nem me pareceu injustificado, embora me pareça vago de mais e nada original.

Como foi no blogue de Sérgio Lavos que eu encontrei um dos poemas inéditos de Herberto, o poema que li no Auto-Retrato surpreendeu-me e serviu-me sobretudo de pretexto para reflectir sobre as questões que o Henrique e outros tinham levantado (nomeadamente a da importância que se tem dado em alguns casos ao "ineditismo" dos poemas de Herberto saídos agora).

Haverá poeta, por grande que seja, que não tenha escrito pelo menos dois versos ou um poema a escarnecer da poesia que outros escrevem ou dos críticos de poesia? Mas alguns poetas abusam no desprezo que manifestam por bocas que não sejam a sua e no contentamento de si. Não creio que seja caminhando por essa vereda que se chegue à poesia.

É preciso sorrir: a nossa visão do mundo e a nossa decisão de nos expressarmos de determinada maneira entram sempre em conflito, mais explícito ou mais subtil, mais polémico ou menos agressivo, com as dos outros. E não é por termos mais seguidores (não são forçosamente leitores, mas enfim) que alguma "imortalidade" nos será concedida, embora haja quem se oxigene nesse balão de vento artificial.

Não se tratava portanto de reduzir a obra de Herberto Helder ao poema citado pelo Sérgio, nem de excluir HH do parentesco eventual com Novalis, Holderlin e outros grandes poetas. Tratava-se de constatar que mesmo Herberto Helder pode escrever esse tipo de poema sem ter criado com ele nada de inédito, antes pelo contrário.

Nos anos 60 Mário Castrim inventou e dirigia o
Diário de Lisboa Juvenil, onde se publicou muita coisa de que se perdeu a memória. Embora 30 anos possam parecer muito tempo a algumas pessoas, talvez haja semelhanças entre o que aí se passou e o que aconteceu no Diário de Notícias dos anos 90 que o Sérgio evoca. Mas quem tem paciência para ir ver que de então para cá as coisas não evoluíram, em muitos domínios, tanto como se pensa?

Thursday, September 25, 2008

Her sitter jeg

Mónica
(1949-2008)


Jeg har villet skrive om mange ting i disse papirer men ikke gjort det. Jeg har hat god grund til å frykte det verste og heller tie. Vårt liv og vår tid kan gå sin gang for mig, alt kan gå sin gang for mig. Her sitter jeg.

Knut Hamsun, På Gjengrodde Stier, 1949

Monday, September 22, 2008

A writer

When I am asked what I do I try to avoid an answer. Besides, who dares to say of himself that he is a writer? At best he can say: I have written some books. Now and again I even think that I am unable to define clearly what the subject of my work is, or what distinguishes real literature from mere writing, the kind that anyone is capable of, even if he never went to school to learn his letters.

Ivan Klíma, Love and Garbage, Vintage International
(translated from the Czech by Ewald Osers)

Saturday, September 20, 2008

The Master Builder


"Ibsen had come to Gossensass in July 1889 . . . On the outskirts of the town there was a valley named the Pflerschtal, with a stream flowing through it and a view of mountains and glaciers. While walking here, Ibsen saw a girl seated on a bench with a book. He came and sat beside her, and learned her name, her parentage, her home residence and the fact that in Gossensass they lived so near together that his windows looked into hers."


Henrik Ibsen to Emilie Bardach 11 years later:

“Accept my most deeply felt thanks for your message. The summer in Gossensass was the happiest, the most beautiful, of my whole life. I scarcely dare to think of it—and yet I must think of it always. Always! Your truly devoted H.I.”

http://www.sparrowsp.addr.com/theatre%20pages/master_builder.htm

Wednesday, September 17, 2008

Poesia

- Nunca percebi por que razão é que você não lê poesia.
- Poesia? O que é a poesia?

Sunday, September 14, 2008

Democracia universal

Como os Estados Unidos se consideram responsáveis pelo que se passa no mundo em geral e o mundo em geral acaba por sofrer seriamente as consequências das decisões do presidente americano, que tal permitir aos cidadãos de outros países e continentes que votem nas eleições presidenciais americanas? Era um passo mais para a institucionalização da democracia universal.

Wednesday, September 10, 2008

As palavras e as coisas

As palavras contaminam as coisas. As coisas deixam de ser coisas, transformam-se em palavras. As pessoas usam as palavras como se elas fossem coisas; iludem-se, as palavras são aparências erradas das coisas, falsas coisas que nada têm a ver com as coisas. Para não discordarem excessivamente, as pessoas trocam palavras em vez de trocarem coisas. É menos arriscado? O mundo das palavras e o mundo das coisas são distintos, mas as pessoas confundem-nos sem se darem conta disso. Na realidade as pessoas não vivem no mundo das coisas, no meio das coisas; vivem no mundo das palavras, rodeadas de palavras. O mundo das palavras é uma caverna, as coisas estão lá fora. Quando as coisas não têm palavras que as possam nomear ou dizer o que é que acontece? O silêncio? O silêncio seria indício de respeito. As coisas para as quais não há palavras escapam à domesticação comercial universal sentimental pela palavra. Como é impossível falar delas, elas subsistem como mistério, como coisas sem nome, como puras coisas, coisas genuínas não corrompidas pelas palavras. Há mais coisas do que palavras. Quem não o ignora sempre desconfia da certeza com que as palavras pretendem impor-nos o mundo como espaço limitado onde só há as coisas que as palavras dizem que são coisas, as coisas que na realidade não são coisas mas palavras.

Sunday, September 07, 2008

Friday, September 05, 2008

Wednesday, September 03, 2008

Bla bla bla

De vez em quando recebo mensagens a informar-me de que o poeta Y ganhou mais um prémio, de que grandes poetas ou contistas são Z e M, de que o romancista X "é o maior romancista da Península Ibérica" e, segundo o reputado S, "o herdeiro de Conrad e de Faulkner", bla bla bla... Eu também sei ler. E não acredito no valor dos prémios nem estou de acordo, frequentemente, com o que dizem estas prosas publicitárias, venham de onde vierem.

Monday, September 01, 2008

Sunday, August 31, 2008

The bitterness and pain of life

Nurse:

The men of old times had little sense;
If you called them fools you wouldn't be far wrong.
They invented songs, and all the sweetness of music,
To perform at feasts, banquets, and celebrations;
But no one thought of using
Songs and stringed instruments
To banish the bitterness and pain of life.

Euripides, Medea (180-213)
(translated by Philip Vellacott)

Céu com nuvens

Saturday, August 23, 2008

Maldição

A pior coisa que pode acontecer a uma pessoa é tornar-se um escritor conhecido, famoso, estudado. Nunca mais param de contar histórias sobre a sua vida e a sua pessoa, nunca mais param de interpretar tudo o que pretendem que ele escreveu, disse, pensou e fez, nunca mais param de viver à sua custa e à custa da sua vida e da sua obra como provavelmente ele nunca viveu à custa dos outros. É um destino maldito ser vítima de tantos abusos. Há escritores que prepararam para si mesmos esse futuro. Mas há muitos outros que se limitaram a escrever e a querer que os deixassem em paz.

Sunday, August 03, 2008

A casa

O que é uma casa? Carlos de Oliveira escreveu Finisterra para explicar o que é uma casa. Uma casa são as pessoas que a habitaram. Os filhos crescem, os pais envelhecem, a casa cresce e envelhece com eles. A história de uma casa é a história das famílias que a habitaram. Enquanto permanece propriedade da mesma família a casa conserva, através daqueles que a habitam, a memória das pessoas e dos acontecimentos dessa família. O lugar daqueles que partiram ou que morreram permanecerá para sempre vazio, ninguém o pode ocupar. Se a casa muda de dono, termina um ciclo e inicia-se outro. É por isso que Finisterra também é um romance sobre o poder de destruição do tempo.



Frases bonitas

No fim de um capítulo do romance The Reader, do romancista alemão Bernhard Schlink, leio esta frase: "There is no need to talk, because the truth of what one says lies in what one does." A segunda parte da frase agrada-me porque me parece corresponder à verdade; a primeira parte da frase, porém, não se justifica de modo nenhum pela segunda. Coisas de romancistas.

Thursday, July 31, 2008

O tempo

O lugar é o mesmo. As pessoas são as mesmas. Mas o tempo é outro, os anos passaram. O tempo é isso: o envelhecimento do corpo e das paixões. Ficam os restos: a memória dos anos antigos, o medo do fim que se vai aproximando. Ainda se sorri. Ainda se dizem as palavras que restabelecem as relações antigas. Mas há rostos que já não estão na fotografia, corpos de que apenas se conserva a recordação. Um dia, daqui a algum tempo, a fotografia há-de mostrar apenas as árvores da floresta, a água do lago, o jardim da casa, os quartos vazios, as mesas a que já ninguém está sentado. O amor, a paixão, as palavras, desapareceu tudo.

Å girl