Friday, November 30, 2007

Quando toca o sino

Querias uma jovem mulher
com a sua harpa de sangue
para com ela iluminares a noite.
Só na eternidade existem os anjos
e as santas, nós vemos as sombras
e são elas que seduzem a nossa
imaginação febril. As palavras
que lançaste para o ar aonde
foram ter? Alguém te ouviu,
foste recompensado, amado?
Duvido. E se o foste, já passou,
pois nada dura, gasta-se o desejo
e o amor, o tédio e o ódio, os rios
correm para o mar arrastando
consigo a cinza dos nossos
pecados. E ainda assim amamos
a vida, essa aventura, o imprevisto
e o imprevisível, a dor e a chama
que queima o peito de alegria.
Aprendemos as palavras e os vícios,
acreditamos que existe a verdade e
a mentira, distinguimos as cores
entre si. Levantamo-nos e deitamo-nos,
os dias vão-se sucedendo e viver é
como ir de comboio a atravessar
planícies verdes onde há vacas a
pastar e casas brancas isoladas
na paisagem. Uma única palavra
de amor, sincera, verdadeira, é no
entanto tão difícil suscitá-la como
aceder ao reino dos céus imaginário.
Somos avaros ou pobres? Somos
cruéis ou impotentes? Somos a
ficção dos outros ou a nossa? E
passam os séculos, indiferentes
aos nossos sentimentos e estados
de espírito, ao nosso nascimento,
à nossa morte. Quem inventou isto?
Em vez de ter inventado outra coisa?
Aqueles que perdem o pé, aqueles que
se afogam nos rios caudalosos, aqueles
que nunca amaram nem foram amados,
aqueles que acreditam e os que duvidam.
Todos irmãos, iguais, pó dos caminhos
da montanha ou da aldeia. Contenta-te,
ó céptico, não te interrogues. Também
tu fizeste parte da história e nela
desempenhaste sucessivamente
vários papéis. Afastaste-te da estrada
que leva a uma morte tranquila,
embrenhaste-te pelas veredas da
floresta e agora queixas-te da falta
de companhia. Mas quiseste estar só,
não devias esquecer-te disso. Não
se volta atrás, soprou o vento e
apagou as pegadas do caminhante
no barro dos caminhos. Haver
princípio e fim, atrás e à frente ou
adiante, acima ou abaixo, é apenas
uma questão de fé. País da infância
tantas vezes ressuscitado e nunca
reencontrado, nunca reconhecido.
Entende-se porquê, tarde de mais
talvez, quando ao cair o sol no
horizonte nos pesa uma suave e
irremediável solidão. Mas entender
não nos salva da morte. Quantas
vezes, ao cruzar na rua uma
mulher, não imaginámos uma
felicidade doméstica sublime,
cheia de mãos ternas e sorrisos,
de uma profunda compreensão
de todos os segredos da alma?
E levava consigo o nosso devaneio
vão a desconhecida que nem nos
viu. Não soube, a tempo, apropriar-me
do amor, pensa aquele que foge de
si mesmo. Semeei ventos e colhi
as tempestades. Ou nem isso, pois
o tédio cobre como um manto diáfano
todas as irrupções do vulcão onde
fermentam as paixões e o remorso.
Construir um poema pode ser às vezes
como levar ao calvário a cruz pesada.
E para quê? A clareza dos passos,
dos movimentos, dos pensamentos.
Vamos aprendendo enquanto sofremos
ao longo do percurso que nos leva ao
lugar da purificação da dor. Purifica-se,
a dor? Coração adormecido, na sombra
do peito a mastigar imagens e frases,
a triturar o que foi visto e o que foi dito.
Cabeça pesada de tanta divagação. Braços,
mãos, pés que se agitaram. A máquina do
corpo e os seus poderes sobrenaturais.
Quando toca o sino levantamo-nos,
atravessamos a aldeia a caminho do
cemitério. E esquecemos tudo, só
as pernas nos levam rua abaixo.

Thursday, November 29, 2007

Razões e necessidades

What is the description of feeling at all?
What is the description of pain?

Wittgenstein, LC, IV.7

Leva o que quiseres e deixa
os restos. Alguém os aproveitará.
Noutras mãos, vistos por outros
olhos, os objectos usados
resplandecem. Gastam-se
os sentimentos nos lábios,
nas mãos, nos corpos solitários.
E nada fica. Memórias imprecisas,
espinhos, fel ou mel, cinzas. Quem
amará as jovens raparigas
sentadas no café a conversar
como elas esperam ser amadas?
Imprevisível. A alegria, a energia,
a sabedoria bastam para merecer
o amor? Eu ouvia-as, uma delas dizia:
“fiquei mesmo magoada, fiquei mesmo
triste”. Falavam de rapazes, creio,
não sei bem. A tarde ia-se apagando,
a noite caíra e eu, distraído de mim
mesmo, ia assistindo ao teatro do
quotidiano. Rapariga sensata,
além de bela e segura de si, sem
dúvida. Continuava a falar: “ele
é sensível para as coisas dele, mas
para as minhas, nada; e trata-me
mal, apesar de eu ser a pessoa
mais importante na sua vida”.
E pouco depois: “adoro estar
sozinha em casa, ele não.”
A que horas fecharia o café?
As empregadas atarefavam-se,
iam e vinham, faladoras. “O que
me custa é arranjar razões para
desistir de uma pessoa”, disse
ainda a rapariga que eu não
conseguia
deixar de ouvir.
Impressionou-me
a sua lucidez,
tanta bondade. Ela
e os rostos
juvenis das amigas
resgatavam
da insignificância o meu
fim de
tarde sem história. Conheci

meninas assim na minha
juventude?
Conheço, ainda,
quem fale assim? Não sei.


De que razão e necessidades se

faz o destino de uma pessoa?
Escolhas? Acasos? Fatalidade?
Uma vocação para a sinceridade?
Não faças nada, deixa correr.
Encontrei a ordem do universo
na desordem dos acontecimentos.
Pelo menos acreditei que sim.
Abre a boca se tiveres muita
sede ou fome. Estende os
braços se precisares de te
esconder no segredo de outro
corpo. Caminha, se o desejo
te levar a querer o que ainda
não possuis. A desordem é
apenas aparente, versão
superficial daquilo que vai
acontecendo. O nosso
destino é isso, nada mais
do que isso. Não há literatura,
nem estilo, nem rimas que
modifiquem a situação. No
fim do amor ficamos sós
de novo, despojados da
intimidade, espoliados de
tudo o que deu um sentido
profundo à nossa existência.

Foram-se embora as três

meninas que ao fim da tarde
chilreavam no café. Sem o
saber, reconciliaram-me
com a vida, com o meu futuro.

Sunday, November 25, 2007

Bicos

"Minoria activa"

Li num jornal diário que para o ex-presidente da RTP as pessoas que se revoltaram contra o processo movido a José Rodrigues dos Santos são "uma minoria activa" - e que ele próprio, Almerindo, terá sido saneado há anos de uma posição de responsabilidade por uma "minoria activa". Não seria mais ético apresentar as razões que levaram a não atribuir o lugar de Madrid ao 1º classificado e demonstrar que ao criticar tal decisão o jornalista errou ?

Londontube

I am your paparazzi, yes... :-)

Thursday, November 15, 2007

Ditadura democrática

Quem detém o poder tem tendência a abusar dele. Toda a gente sabe de nomeações para cargos importantes, desprestigiando-os, de familiares ou amigos de algumas pessoas do governo ou noutros pelouros com pouco sentido do Estado. É assim há anos, pouco interessando a essas pessoas o currículo, a experiência e a competência para a função ou para o cargo. Nalguns casos não há apenas atropelo da inteligência e da democracia, há desrespeito pela lei. É mais importante dar emprego numa embaixada à jornalista oportunista do psd, à jovem filha do senhor embaixador ou à parente do colaborador de Sócrates do que proteger os interesses do país, que são coisa vaga. Agora os responsáveis pela RTP querem demitir José Rodrigues dos Santos porque ele criticou alguns abusos dos mandarins (nomeadamente o tal 4º lugar que ganhou o concurso de Madrid). É ridículo. Portugal está a tornar-se um país de opereta dominado por oportunistas e por burocratas burros e autoritários que não admitem ser criticados nem contestados. O país é deles?

Wednesday, November 14, 2007

marcar um golo

a alegria de marcar um golo
era isso que tu querias mas
não havia golos a festejar
não havia balizas não havia
senão o vasto terreno de jogo
e tu jogavas mas era um
deambular permanentemente
a caminho do nada uma
procura inglória da meta
que também não havia
tu não desistias tu corrias
até rebentar de cansaço
e por isso levantavas os
olhos para o céu sem perceber
ou percebias mas continuavas
a fazer de conta que a aparente
futilidade do esforço seria
em breve recompensada e
com a chegada da recompensa
tu saltarias de alegria e seriam
então esquecidos todos os
passos perdidos era isso
que te fazia correr e chamavas
avançar ao movimento que te
impelia de um lado para o outro
festejar um golo há quanto
tempo não conhecias a
alegria de ver o resultado
do jogo premiar a tua fé há
quanto tempo tu nem sabias

About women

Ola Hansson tried Impressionism, Decadentism, Symbolism, and Naturalism. As an essayist, he was as well-known in Germany as he was in Sweden, and in France he gained lasting fame for his introductions to Nietzsche. (Sigrid Combuchen)


There is something so terrifyingly sad about running after and catching a woman; it is repugnant and painful from beginning to end. First there they are, both of them, man and woman, rubbing up against one another like two cats in heat, and every clandestine look they exchange, with its greedy ardor or yearning moisture or shamefaced shyness, reveals this sexual urge that physically pollutes them both. I have always been disgusted by the sight of this squalid and ridiculous flirtation at which the whole world smiles knowingly and cynically, and which has always reminded me of the foppish rooster's courtly love songs to the prudish hen. And then when the magnificent joy and great bliss that are the pitiable mating act have been attained, the story is over and there is not very much more to be gained, since nine-nine percent of the time, sooner or later you find yourself face to face with a being you have never seen before, let alone become acquainted with or longed to have for yourself, and you wake up one fine day in your bed with a strange woman beside you, and you do not recognize a single feature in her face or her soul. If she is your mistress without the special permission of our Lord, then all the painful unpleasantness of breaking up awaits you, and if you have entered into a relationship controlled by society, you will be obliged to live intimately for the rest of your life with this unknown being whom you never wanted but who now sticks to you like a bur. No matter how thoroughly you may have studied a woman, no matter if you think you know her inside and out - you can still never be really certain that one day she will not slough off her skin like an eel and suddenly stand there before you, different from the one you once knew and loved as black from white. For you see, people are not permanent and immutable things that we can take hold of and say are like this or that; secretive processes continually take place in their being that metamorphose their bodies and their souls minute by minute, processes within you and within those you have loved in your life and have embraced in tenderness, processes that neither you nor they can fathom. Are you the one who sees things differently, or is it the other who has changed and become someone else? You do not know; you only know that this woman, who came ever closer to you, until you merged with her and she with you, suddenly broke loose and now is far, far away from you and stands there like an indifferent or hated object, something with which you want nothing to do or shrink from in aversion.

This is what my experience has taught me, and now I will no longer run the risk of wholly abandoning myself to it, since then women will do us more evil than good. But for me, the opposite sex is everything, and life without it would be without meaning or sense - and I have never been able to understand how people would otherwise bother to live - so I have learned to enjoy it in another way and in my way, so that I can drink my wine pure without the dregs.

Ola Hansson, Sensitiva Amorosa, 1887, Forlaget
Geelmuyden. Kiese, Scandinavian Airlines, 1999

(Translated by Martha Gaber Abrahamsen)

Sunday, November 11, 2007

Despertar


Uma réstia de luz. As nuvens, no céu, a anunciar a chuva. Os dias e as noites sucediam-se, pálidos, monótonos. A luz irrompeu, o tédio diminuiu. Eu estava sentado num café, sem ideias, sem projectos, sem remorsos. Espírito vazio. Nada no coração, nada na cabeça. Iam passando as pessoas: mulheres, raparigas, alguns homens. Aonde vão, pensava eu. E voltava ao livro que tentava ler.


A cidade cresceu. Não conheço quase ninguém. Não vivo cá, o que pode explicar tudo. Fui-me embora há tanto tempo. Aquele sorriso, aquela réstia de luz, de onde veio? A que propósito, para quê? Não estava previsto. Comecei por não acreditar. Não vi, estava distraído, sem curiosidade, sem capacidade de me interessar fosse pelo que fosse. Esse sorriso, porém, aquele sorriso, modificou a situação. Alguma coisa mudou, eu não sabia o quê. Lentamente, sem tomar plena consciência de que o meu corpo estava a despertar, a consciência a abrir-se para o exterior. Eu não esperava nada. Não estava previsto. Previsto, só o tédio. Hesitei. No meio do caminho, já a aproximar-me de qualquer coisa que não sabia o que era, tive dúvidas. Não acreditei. Mais uma vez, pensei, um subterfúgio da necessidade de sobrevivência. Está-se indiferente, inerte, a amolecer nas horas, depois alguma coisa chama a nossa atenção e nós vamos atrás do que nos arrancou a nós mesmos, do que nos seduziu. Estratagemas. Subterfúgios. Não havia nada a esperar. Foi o que eu pensei. Depois de ter, por breves instantes, começado a acreditar. É fácil de explicar. O tédio, a falta de atenção e de convicção. No cinzento da tarde a réstia de luz, uma pequena réstia de luz veio modificar tudo, quis transformar o tempo morto em tempo de vida de novo. Eu estava meio adormecido. Indiferente. Sem projectos. Sem ideias. Sem sentimentos. Acontecia-me muitas vezes, eu estava habituado.

O hábito. Nós vivemos de hábitos adquiridos, é uma maneira de não nos cansarmos a aprender todos os dias a viver. Repetimos os gestos, os pensamentos conhecidos. Não há novidades, ainda bem, podemos descansar na rotina do que já é conhecido. Quando acontece alguma coisa nem sempre nos damos conta. Damo-nos conta mais tarde, quando o processo já está avançado, ligeiramente avançado. Gosto de viver. Amo a vida em si mesma, independentemente daquilo que ela me possa dar. E se me sorriem quando eu, melancólico, deixo o barco ir deslizando rio abaixo sem me preocupar, então eu fico alerta de novo, volto ao leme do barco, vigio o seu deslizar nas águas que seguem o seu rumo a caminho do mar.

Eu ia sozinho no barco, estava entorpecido pelo hábito e pelo tédio. Que me sorriam, o que é que isso muda, pensei. Como saber? A gente não prevê. Não sabemos nada. Alguma coisa começou a mudar em nós, no espírito, no corpo, mas nós não podemos prever o que vai acontecer. Estende-me a mão. Sorri de novo. Mais claramente. Para eu perceber. Não deixes de me olhar. Pensei isto, olhei para o rosto tranquilo que me despertara da sonolência. Ela olhava-me como se me conhecesse, o sorriso era discreto mas eu tinha-o visto, não era possível ignorá-lo. Pensei em levantar-me, ir sentar-me ao seu lado. Mas seria ela? Há quantos anos não nos víamos? Há dez? Ela tinha desaparecido da minha vida porque era o que estava previsto antes de eu a conhecer e não se podia mudar o destino. Durante alguns meses fizemos de conta que sim, que o destino ia ser mudado. Ela amava-me, eu amava-a. Mas não era possível, eu sabia-o. Sabia-o melhor do que ela, desde o princípio. Apesar disso deixei-me ir, não a contrariei, não me contrariei. Meu amor, sou tua, escrevia ela nas cartas que me mandava. Eu estremecia. Não podia recusar, destruir o sonho, cortá-lo pela raiz.

Pensei em ir-me embora, em fugir pela segunda vez da tentação perigosa. Pensei em ficar, ignorando o que tinha acontecido antes. Pensei: desta vez pode ser diferente. O destino dela podia ter mudado sem eu o saber. Eu não queria que tivesse mudado, ela tinha sido a minha menina querida e eu queria que ela fosse feliz. Mas podia ter mudado. Os minutos foram passando. Bebi água, pedi outro café, acendi um cigarro, cruzei e descruzei as pernas várias vezes. Tanto nervosismo. Estava a pensar. Não podia ser ela, eu estava a confundir, a alucinar. Surpreendido, evidentemente. Hesitante, era normal. Porquê? A que propósito? Tinha passado tanto tempo, eu nunca tinha tentado saber onde ela estava, como era a vida dela. Mentira. Tinha tentado, mas sem resultado. Ela desaparecera de vez, nunca mais dera sinal de vida. E eu calara-me, conformara-me.

Eu não pedi nada. Eu não estava à espera de nada, o meu corpo, o meu espírito, o coração, tinham-se afundado na indiferença como num pântano. Será possível? De novo? Ainda? Recomeça tudo uma vez mais? E vale a pena correr o risco de não acontecer nada, de o esforço e a febrilidade serem em vão? Ela pertencia a outro tempo, a uma realidade onde não havia lugar para mim. Tínhamos percebido isso, tínhamos vertido algumas lágrimas, mas cada um de nós seguiu o seu destino. E agora, de novo, o seu rosto, os seus olhos, os seus lábios. Eu devia estar a delirar. Tapei os olhos com as mãos. A solidão prolongada estaria a ter efeitos que eu não previra? Tinha de ter cuidado. Tinha de voltar à realidade, deixar-me de fantasias.

O meu rosto permanecia inexpressivo. Creio que estava com medo. Podia falar-lhe, tirar as dúvidas. Mas não sabia que dizer. Ela podia tomar-me por louco se eu falasse. Eu podia olhar, agradava-me olhar e ver, deixar-me ver. Mas falar não, era perigoso. Começou a chuviscar. Estávamos sentados debaixo da placa de cimento, não tínhamos de nos preocupar com a chuva. Subitamente desconfiado da minha sanidade mental, desviei-me do olhar e do rosto que me sorriam. Primeiro sorri discretamente, é certo, para não parecer indiferente. Mas baixei logo os olhos com pudor. Não estava à espera de nada, não estava a pedir nada, que ficasse claro. Durante algum tempo tinha pensado que a conhecia, as recordações confundiram-se na minha cabeça, mas agora sabia que não podia ser ela, tinha de pôr termo ao devaneio. Sorri outra vez, mas sem olhar para ela, não queria comprometer-me. Sorri como se o que estava a acontecer ou já tinha acontecido não fosse nada, nada de importante, nada a que devesse prestar-se uma atenção particular.

A cidade no dia cinzento, ameaçava chover, depois começou a chuviscar, as miúdas e os miúdos das escolas a circular por ali, a sentar-se nos cafés, agarrados aos telemóveis e aos sonhos invisíveis, agarrados uns aos outros. Deixei-me estar. Sentia-me bem. Tranquilo, calmo, sem desejos, sem preocupações. Tinha saído de casa depois de almoço e tinha comprado um carro. Era segunda-feira, davam-me o carro na quinta. Um carro pequeno, azul metalizado, com ar condicionado, leitor de cds, uma excelente ocasião. Se tiver algum problema, nós cá estamos, tinha-me dito o vendedor. A bateria, por exemplo, quando voltar no Verão muito provavelmente vai estar descarregada. Telefona-nos, não se preocupe, nós vamos lá e pomos o carro a trabalhar. Comprei o carro. Para poder movimentar-me, sair da cidade de vez em quando, estava farto de estar em casa a aborrecer-me ou a ler, nos cafés não havia ninguém com quem eu pudesse conversar, já tinha percebido. Às vezes acontecia alguma coisa: um rosto, um corpo, uma maneira de andar e de estar chamavam a minha atenção. Mas depois não se passava mais nada, eu ficava sentado a olhar, a vida não mudava. Agora tinha um carro, podia ir a Lisboa, a Salamanca, a Madrid, aonde me apetecesse, quando me apetecesse.

A rapariga pousava o olhar sereno nas árvores da praça, em quem passava, continuava a sorrir discretamente. Via-se que era feliz, alguma coisa devia ter acontecido na sua vida e ela sentia-se leve, de bem com o mundo. Apeteceu-me perguntar-lhe porque se sentia tão à vontade na vida, se era sempre assim. A sua jovialidade silenciosa, a sua inocência impressionavam-me. Mas não perguntei nada porque achei que não vinha a propósito, além disso receava começar a falar e dizer o que não devia ser dito, ela podia achar-me extravagante, quem sabe se não se assustava. Não é para mim que ela sorri, disse para mim mesmo. Ela sorri à vida, provavelmente nem me vê, embora às vezes pareça que está a olhar para mim. Ela sorria a uma vida onde se sentia feliz, era apenas isso. Eu é que tinha começado a inventar histórias, apetecia-me ressuscitar pessoas e cenas do meu passado. Concentrei-me na leitura do livro. A réstia de luz alastrara, entrara pelo meu espírito e pelo meu corpo, eu sentia-me bem.

Saturday, November 10, 2007

O vento

Assobiou o vento nas janelas
da noite. E a terra, silenciosa,
dormia. Escuridão. Os olhos
do moribundo, na cama do
hospital, abriam-se, o medo
da morte confundiu-se no seu
espírito com o galopar do vento,
com as gargalhadas do palhaço,
com o estertor dos animais
degolados pelo homem.
Escravidão, a vida. Arranhão
invisível na parede do tempo.
Alegrias, esperança, a dor?
Uma lâmina de vidro, fina,
debaixo dos nossos pés
quebra-se, corta-nos, corre
o sangue. A janela caiu, o
muro tremeu. Fim do mundo.
Era o vento apenas, voz
falsamente tenebrosa. Aonde
ia? Tapava-lhe o caminho a
casa? Enfeitiçava-me a música,
explosão contida a escapar-se
pela garganta da montanha.
Depois fiquei com sono, creio
que adormeci. Sonhei?

Friday, November 09, 2007

Eça de Queirós “psicanalizado"

Num livro recentemente publicado, o Dr. Pedro Luz procede à “psicanálise de Eça”. Como Eça não se pôde deslocar ao consultório do Dr. Pedro Luz e deitar-se no divã, o psicanalista foi ao encontro de Eça na biografia que dele se tem feito e na sua obra. Eu gostava de acreditar nestas histórias delirantes contadas por psicanalistas com a alegria com que devo ter acreditado na infância na existência do Pai Natal. Não consigo. E pergunto-me qual será a pulsão inconsciente que leva pessoas presumivelmente sérias e respeitadas como o Dr. Pedro Luz a perder-se, com os deleites de uma imaginação infantil ou primitiva, nos labirintos da sexualidade de um escritor. Não sei responder. Tanta inexperiência e ingenuidade no comentário dos textos literários e tanto ardor e credulidade na denúncia de supostos vícios e "anormalidades" espantam. Será fantasma de médico pôr-se a brincar aos cientistas? Pensava eu que este tipo de "ciência", este encontro tão entusiasta de causalidades sem fundamento, estava definitivamente ultrapassado. Enganei-me. A reunião num só livro de tantas divagações vai contribuir para desacreditar aquilo que na herança de Freud ainda é digno de crédito. Aconselho a leitura de O Alienista, de Machado de Assis.

Tuesday, November 06, 2007

Why

Porque é que a televisão portuguesa é tão má, está cheia de gente tão ridícula, passa concursos sem parar, nos dá telenovelas que só interessam aos meninos e meninas betinhos sem cérebro ou a pessoas que admiram e invejam os minuciosos dramas sentimentais e económicos de uma burguesia enfadonha? Foi para chegar aqui que existiu o neo-realismo e se fez a "revolução dos cravos"?

Friday, November 02, 2007

Atravessar o rio

Li Quando Atravessares o Rio, o romance de Ana Teresa Pereira publicado pela Relógio de Água em 2007. Gostei. É uma leitura tranquila, pacificadora, eu ia lendo antes de apagar a luz e adormecer. Uma mulher que tem uma relação tão saudável com o seu corpo, que fala do amor como de um sonho que se realizou, que se deleita a descrever as insignificâncias aparentes e a intimidade de uma relação amorosa com tanto prazer e sabedoria, numa voz tão suave, sem pretensões de heroísmo, é reconfortante. Fica-se a pensar: afinal o amor existe, há mulheres que sabem o que é o amor, se eu conhecesse uma mulher assim... Mas há outras coisas: a confusão entre a realidade e os devaneios da imaginação trasformam a leitura numa experiência semelhante à que se tinha quando na infância se liam as narrativas de aventuras evocadas pela mulher que nos conta a história. O mistério que envolve a narrativa também evoca a atmosfera e alguns processos dos romances policiais. Fica-me uma dúvida: só é possível amar na perfeição seres de ficção, actores, personagens míticas, inventadas? O mito é a substância do amor? A confusão deliberada entre a realidade e os delírios da imaginação (à David Lynch?) é uma forma de conferir peso de realidade ao sonho; e é um estratagema de consolação face à imperfeição da realidade e da experiência. Esta história de amor, tão perfeita, é como uma aventura em país irreal. Provavelmente tudo o que aconteceu só aconteceu na intimidade do espirito e do corpo da mulher que conta a história. E o que aconteceu de facto, onde é que acontece? Não estamos sempre a criar ficções a partir de outras ficções? Ana Teresa Pereira é exímia na prática desse processo.