Monday, October 29, 2007

Faz

E agora, José, não cantes nem chores. Senta-te e lê. Ou olha a parede e medita. A vida não é tão interessante? Complicada, é certo. Mas por isso mesmo. Não desesperes, José. Não te aborreças. Não cantes o fado. Não te queixes. Não durmas de mais. Não tomes tanto café. Anda, veste-te e vai passear pela avenida. Ou vai ao futebol. Faz qualquer coisa, ó danado. Escreve um poema épico, por exemplo. Ou um romance social. Ou erótico. Ou erótico-social, seria uma novidade, certamente, e o mercado absorve todas as originalidades sem esforços nem arrotos excessivos. José, sê bom rapaz, sê bom português, sê como o teu pai sempre quis que tu fosses. Lembra-te da tua pobre mãe. Sorri, não chores. Mas sobretudo levanta-te e corre, faz alguma coisa.

Saturday, October 27, 2007

Spleen

Tédio. E além do tédio o que há? Os bares, as discotecas. E depois volta o tédio. Se é que chegou a desaparecer. Dias de chuva, eu não saía de casa. Decidi sair. Tomei um banho quente, fui jantar a um restaurante do meu bairro, depois fui a pé até ao centro da cidade. Chuviscava. Eu tinha posto uma boina na cabeça, os chuviscos não me incomodavam. Não estava frio. Fui ao bar aonde costumo ir, sentei-me ao balcão, pedi um whisky. E fui bebendo e bocejando. Nem os cigarros tinham sabor. As mesas estavam todas ocupadas, mas a dado momento houve uma que ficou livre e fui-me sentar mais confortavelmente.

Estávamos eu, a Sandra e o Filipe. A Sandra e o Filipe namoram ou pelo menos devem dormir juntos de vez em quando. Eu estava de fora e ia olhando à minha volta. Já a tinha visto, mas não prestara atenção. Um lenço vermelho à volta do pescoço, os jeans apertados. Estava acompanhada. Apeteceu-me vê-la nua, levá-la para casa e despi-la. Não me apetecia tocar-lhe, não era isso. Apetecia-me vê-la nua. Eu também me podia despir. Ficávamos os dois nus, sentados no sofá, a ver um filme na televisão. Talvez entretanto me apetecesse beijá-la, mordiscar-lhe o bico das maminhas duras. E o tédio da minha noite podia diminuir se entretanto começássemos a conversar. Ela deve ter coisas a dizer que ninguém, excepto eu, será capaz de ouvir. Ela não o sabe, evidentemente. E eu próprio não posso adivinhar os segredos dos outros. Mas é inevitável, as pessoas encontram-se, despem-se, inevitavelmente surge a necessidade de falar. Todos nós transportamos no espírito palavras que nunca foram ditas porque nunca ninguém as quis ouvir, nunca ninguém se interessou por nós o bastante para querer ouvi-las. E havemos de morrer com o coração pesado, cheio de confissões por fazer, penas por lamentar, palavras de amor por dizer. Deprimente ter consciência disso, mas que se há-de fazer. Aliás a rapariga foi-se embora, nunca mais a vejo, a história dela acaba aqui.

A minha não. Eu continuo sentado no bar ruidoso ao lado da Sandra e do Filipe, eles falam, eu aborreço-me. Vejo o perfil de uma rapariga loira sentada na mesa a seguir à minha, quais serão os seus segredos, as suas mágoas, as suas razões para sorrir? A vida é uma comédia sem muito interesse, sem grande sentido. Não sou só eu que me aborreço, já percebi, aqui dentro há umas trinta pessoas a aborrecer-se. Vêm para aqui para não estar sós, bebem, fumam, falam. De que lhes serve? Passar o tempo, só isso. Tédio.

Se eu estivesse ligado a um grande projecto humanitário, se eu estivesse a escrever um livro, se eu fosse arquitecto de aeroportos, se eu fosse advogado de um doente mental criminoso. Mas não, nada, sou livre como um passarinho e a vida aborrece-me. Podia ter um temperamento romântico e entreter-me a sofrer com a minhas relações amorosas falhadas, esses desastres sem solução. Mas sou frio como a pele de um réptil, a minha alma não se comove, eu não tenho remorsos de nada nem lamento o que me foi tirado depois de me ter sido prometido. A loira vai-se embora, ninguém aguenta muito tempo nesta monotonia. Com ela vão-se embora duas miúdas bem giras, meninas de lábios carnudos e colares com pedras bonitas no peito descoberto. Como vou resolver o problema da minha solidão, como vou escapar ao tédio que me oprime, me reduz a nada?

Apesar da luz eléctrica, as cidades são lugares tristes, solitários. As pessoas mal se conhecem, detestam-se, ignoram-se. Não sou diferente dos outros, nem melhor nem pior. Quando chegam noites como esta, venho para aqui queixar-me da solidão e do tédio a que não se pode escapar. Em tempos vivi com uma mulher, mas com ela também me aborrecia, eu saía de casa à meia-noite para ir beber uma cerveja a um bar e deixava-a a dormir. Come on, man, de que é que te queixas? A vida é um estopada, tu não tens culpa. O amor distrai-nos da verdade, faz-nos perder a lucidez. Deve ser um truque da biologia, a espécie quer reproduzir-se. Ficamos cegos e tolos, obedecemos. Alguns nunca mais abrem os olhos. Outros não chegam a fechá-los. Sem as miragens criadas pelo amor, a realidade e a vida seriam suportáveis durante quanto tempo? Vivemos na selva, o sangue escorre em silêncio das feridas, o comunismo que fracassou e o capitalismo selvagem triunfante foi tudo o que nos deram e continuam a dar.

Não acabo o whisky, não me apetece beber. A Sandra e o Filipe continuam a conversar, eu vou pensando coisas inconsequentes. O tabaco sabe-me mal e já fumei de mais. À minha volta ninguém que suscite o meu interesse, acabou-se o recreio. Penso em voltar para casa. Em casa tenho o computador, ligo-me à internet, talvez me distraia durante uma hora ou duas das inquietações sem solução.

Lavar vidros

Thursday, October 18, 2007

Surpresa

Um amigo fala-me em Londres de uma romancista portuguesa contemporânea que eu não conheço. Mostra-me um livro dela, eu folheio-o, começo a ler aqui e ali, ao acaso, ainda meio distraído. Fico agradavelmente impressionado, intrigado, interessado. Simplicidade, intimismo, fluidez. Chama-se Ana Teresa Pereira, vive no Funchal, fala de Londres, da escrita e do amor de uma maneira que me convence e surpreende. Vou lê-la.

Tuesday, October 16, 2007

Je ne suis pas un texte

Entrei numa livraria francesa em South Kensington, folheei uns livros, comprei dois ou três, saí da livraria a repetir a frase inicial de um romance recente que tinha estado a folhear: "Je suis un texte." Um texto, eu? Somos textos, agora? Essa pirosice pseudo-intelectual ainda funciona? Estes franceses, à força de se levarem tão a sério enquanto gente com cabeça, já fazem rir.

Wednesday, October 03, 2007

Rhétorique de l’amour

Lettre XI de Julie

Je voudrais que vous puissiez sentir combien il est important pour tous deux que vous vous en remettiez à moi du soin de notre destin commun. Doutez-vous que vous ne me soyez aussi cher que moi-même ? et pensez-vous qu’il pût exister pour moi quelque félicité que vous ne partageriez pas ? Non, mon ami ; j’ai les mêmes intérêts que vous, et un peu plus de raison pour les conduire.


Lettre XII à Julie

Ah oui, sans doute, c’est à vous de régler nos destins ; ce n’est pas un droit que je vous laisse, c’est un devoir que j’exige de vous, c’est une justice que je vous demande, et votre raison me doit dédommager du mal que vous avez fait à la mienne. Dès cet instant je vous remets pour ma vie l’empire de mes volontés ; disposez de moi comme d’un homme qui n’est plus rien pour lui-même, et dont tout l’être n’a de rapport qu ‘à vous.

J. J. Rousseau, La Nouvelle Héloïse

Tuesday, October 02, 2007

Notícias de Gonçalo Matias

Rodrigo Matias enviou-me por email uma mensagem divertida. Não diz onde está, agradece-me a simpatia com que me tenho referido a ele e à sua obra, apreciou sem sorrir que eu me tivesse referido às suas relações com a Betty, pede-me que deixe de publicar os seus textos no meu blogue, que lhe parece confuso, porque lhe veio a curiosidade e a vontade de ter um blogue só seu, só para as suas coisas. Mas com a mania do anonimato pede-me para criar eu o blogue com o meu nome, pois ele não tem jeito para estas coisas. É aí que há-de pôr os textos que lhe apetecer, quando lhe apetecer. Depois acrescenta: "os blogues tornaram-nos independentes dos editores de livros, o que desperta em mim, que sempre detestei a literatura e ter comércio com essa gente, editores tanto como literatos, uma vocação nova e diferente. Eu não sou escritor, eu não escrevo 'literatura' porque na verdade... 'apenas escrevo', sem preocupações nem ambições tão mundanas, tão tolas". Não se importa que eu fique com os seus cadernos e os leia, mas diz que toma ele o leme do seu próprio barco e que embora o meu nome lhe sirva de capa protectora será ele a decidir o que quer publicar. Também me corrige: não gosta que lhe chamem Rodrigo e informa-me de que sempre os seus íntimos lhe chamaram Gonçalo, nome que também é seu e que prefere. Tudo bem para mim.

Fingir

Um amigo meu, pessoa culta, pensa que o famoso poema de Fernando Pessoa sobre o poeta que é um fingidor não passa de uma boutade sem grande sentido. Não estou de acordo. Os meus argumentos:

1. "O poeta é um fingidor". Como interpretar esta frase? O mundo a que se refere a literatura é sempre uma construcção, uma ficção, o que na linguagem da literatura se diz não tem nada a ver com o que acontece historicamente, realmente, e portanto o poeta é por natureza alguém que está sempre a "representar" ("je est un autre") no sentido teatral da palavra. O que é um poeta, porém? Pode ser-se poeta sem escrever poemas? Se pensamos que sim, e que a atitude poética se pode encontrar em discursos e comportamentos quotidianos que a História da Literatura nunca registará como poesia, somos obrigados a pensar que na vida considerada real (por oposição à representada na literatura) também há "fingimento", isto é, uma teatralização e ficcionalização semelhante à que encontramos na poesia. Conclusão: je est toujours un autre e a identidade verdadeira, aquela em que não existe "representação" ou "fingimento", é uma utopia. Se eu sou sempre "outro" como se explica, então, que me reconheçam e me atribuam certas qualidades, defeitos, temperamento, ideias, opiniões, etc.? Terei eu, na minha maneira de ser "outro", preservado a minha identidade "oficial", a imagem exterior ou pública que se tem de mim? É o que parece. Eu sou sempre outro embora pretendendo ser sempre eu mesmo. De qualquer modo o que aqui nos interessa agora é apenas que o poeta, o escritor, como o actor, é por natureza, sem poder escapar a isso, "um fingidor". Um fingidor que pode fingir "tão completamente", de maneira tão verosímil, convincente, perfeita, que nós tomamos o que ele nos diz pela verdade, por qualquer coisa que aconteceu, que existiu ou existe independentemente do "momento" criado pelo texto literário.

2. "Finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente". Imagino que é esta a frase polémica e que pode parecer uma "boutade". Para mim não há problema. No processo do "fingimento" poético mesmo aquilo que tem ou teve existência real fora do poema adquire na obra literária o estatuto de "representado", de "fingido". Nada na obra literária escapa às regras da "ilusão de realidade", da "verosimilhança", da "arte", do "fabricado", do "exibido" como ficção, o que torna impossível decidir que alguma parte do que é dito na obra aconteceu na realidade e outra parte é pura invenção. Para fazer distinções desse tipo temos de recorrer, com os riscos que essa decisão implica, a testemunhos exteriores à própria obra (alguém, talvez até o autor, afirma, com provas ou sem elas, que o que na obra literária é objecto de representação é autobiográfico). E qual é o interesse dessa distinção? Essa distinção entre o "autobiográfico" ou o "histórico" (o que "aconteceu de facto") e o "inventado" não é uma distinção importante para a literatura. Mas a frase polémica de Pessoa tem outras implicações: ao exibir como fingimento, como representação, a dor que de facto sentiu, o poeta está a esconder do leitor a sua vida real. Que Pessoa veja nessa atitude - dar como fingido o que de facto aconteceu - uma forma superior do fingimento não tem apenas implicações estéticas, pois o que parece é que para Pessoa o poeta é alguém que ao agir assim revela uma forma de pudor que o engrandece: apaga-se modestamente por detrás do respeito pela "função" poética da linguagem; não se propõe como objecto de piedade ou de admiração, pela sua coragem, ao leitor; nem lhe dá confiança para imaginar que sabe alguma coisa de uma outra vida sua, a "pessoal", a "real". So, if you think that reading my short stories opens the door of my heart or of my mind to you, you are misleading yourself. I love games so much, you know.

Monday, October 01, 2007

Sonata nº 27

A sonata nº 27 de Beethoven para piano. Enquanto ouvia foi-se-me enchendo o espírito de energia, de alegria. A espaços, intermitentemente. Mas quando me dei conta disso tomei consciência do que se estava a passar: renascer das cinzas, não se deixar vencer pelas contrariedades ou falta de sentido do que vai acontecendo. Falta de sentido? Expressão infeliz. Tudo tem sentido, o que não tem grande sentido é a existência, a breve existência humana na terra. Mas ia ouvindo a música e o meu coração despertava, alguma coisa escondida se revelava. O dia saltitava de jovialidade e de esperança.

Nesse estado de espírito, quando a sonata deixava de dançar e de se elevar com alegria no piano para se pôr a meditar, a duvidar, a reexaminar a questão, caiu-me nas mãos um desenho a lápis: três laranjas, umas folhas verdes de laranjeira, tudo num papel ou cartão do tamanho de um bilhete postal ilustrado. No verso havia palavras e pus-me a ler, imprudentemente. Se citadas aqui, as palavras fariam sorrir o leitor arrogante e instruído em literatura. Mas cada frase foi um pequeno punhal a cravar-se-me não sei em que parte do corpo. Resumindo, nas minhas palavras involuntariamente literárias, no meu estilo artificial: eu tinha-lhe escrito uma carta de despedida e ela achava que sim, que devíamos separar-nos. Mas alinhava umas frases ofensivas: o que sinto por ti é puro e verdadeiro, nunca mais te vou esquecer, coisas assim. E dizia ainda que nem as palavras nem os sons nem os gestos necessários à expressão do que sentia e da situação em que nos encontrávamos lhe eram acessíveis. Pois, acredito que não. Apeteceu-me perguntar-lhe: experimentaste ladrar? Mas não perguntei, ela nem sequer estava ao pé de mim. Prémios de consolação, pensei eu, esta imbecil pensa que eu necessito de ouvir os lugares comuns da ruptura, aqueles que se dizem quando já se está noutro sítio e a relação que se abandona nos pesa incomodamente. E por essas reflexões me fiquei, afastando a pena que ela adivinhava que eu ainda iria sentir “alguns anos depois”.

A tarde avançou, passei a outra coisa. Claro, o grande tópico da minha existência neste momento, naquele momento, era o abandono. Nada de original, todos os livros de poesia, todos os romances têm páginas sensíveis, eloquentes e consoladoras, ou nem por isso, sobre o assunto. Desde a Antiguidade. Desde que há documentos escritos a dar conta do que sentiram os nossos antepassados.

Eu estava portanto só na casa vazia e se abandonara, também me sentia abandonado, embora não o quisesse reconhecer ou conferir ao que acontecera mais importância e dramatismo do que o aceitável. Diante de mim tinha dois meses de férias ameaçados de recordações penosas, de solidão, de frustração. A sonata de Beethoven, porém, provava-me que les jeux n’étaient pas faits, oh non, pas encore. Muita tinta havia de correr e eu já tinha projectos para o futuro mais imediato. E se fugir à casa vazia, ao tédio, às lembranças amargas e inúteis era o que eu precisava de fazer, eu não hesitaria em meter-me num avião e ir à procura de mim mesmo e da realidade noutro lugar.

Disse um filósofo moderno que nós aprendemos as palavras, isto é, o seu sentido e o seu uso, "em certos contextos". Não é difícil fazer a transição e afirmar que tudo o que sabemos da vida o aprendemos “em certos contextos”. O amor, por exemplo, o que é o amor, o que identificamos, imaginamos, reconhecemos como sendo o amor? É um conceito que chegou até nós e começou a fazer parte de nós “em certos contextos”. E se os contextos não eram os mais adequados para tal aprendizagem? Cada um de nós tem, no que respeita a "contextos", experiências únicas e muito diferentes das experiências de outras pessoas. O conceito de amor, como qualquer outro conceito, é uma ficção da gramática que nos demora tempo a desmascarar. O que é que eu aprendi sobre o amor, com quem é que o aprendi, em que circunstâncias? Há gente a mais metida nesta história, mas parece que não e que as coisas são simples. O amor? Toda a gente sabe o que é. Basta ir ao cinema ou ler romances, poemas, olhar para os professores, os pais, os amigos, ler jornais, sei lá. Está toda a gente sempre a ensinar-nos o que é o amor, a confusão é enorme, o malentendido acaba por passar despercebido.

Onde aprendi a amar senão no desamor, disse-me eu, querendo voltar à realidade bruta e fugir à filosofia.

Fui à cozinha, tirei uma garrafa de vinho branco do frigorífico, abri-a. Enchi um copo e vim sentar-me diante da televisão sem som a ouvir um quarteto para cordas de Beethoven. Ele sabia como resolver os problemas que se criava com as primeiras frases de um sonata, de um quarteto, de uma sinfonia. Se aprendêssemos com ele a arte da concentração, a invenção, a liberdade. Se aprendêssemos com ele a ir integrando os elementos novos que querem entrar na obra, se soubéssemos reconstruir em permanência sem nos assustarmos nem perdermos a cabeça. Talvez aprendamos um dia.

(Do Caderno Azul de Rodrigo Matias)

Et puis

Vous devriez ne pas la connaître, l'avoir trouvée partout à la fois, dans un hôtel, dans une rue, dans un train, dans un bar, dans un livre, dans un film, en vous -même, en vous, en toi, au hasard de ton sexe dressé dans la nuit qui appelle où se mettre, où se débarrasser des pleurs qui le remplissent.

Vous pourriez l'avoir payée. Vous auriez dit: Il faudrait venir chaque nuit pendant plusieurs jours.
Elle vous aurait regardé longtemps, et puis elle vous aurait dit que dans ce cas c'était cher.
Et puis elle demande: Vous voulez quoi ?
Vous dites que vous voulez essayer, tenter la chose, tenter connaître ça, vous habituer à ça, à ce corps, à ces seins, à ce parfum, à la beauté, à ce danger de mise au monde d'enfants que représente ce corps, à cette forme imberbe sans accidents musculaires ni de force, à ce visage, à cette peau nue, à cette coïncidence entre cette peau et la vie qu'elle recouvre.
Vous lui dites que vous voulez essayer, essayer plusieurs jours peut-être.
Peut-être plusieurs semaines. Peut-être même pendant toute votre vie.
Elle demande : Essayer quoi ? Vous dites: D'aimer.


Marguerite Duras, La Maladie de la Mort, Paris, Editions de Minuit,1982