Sunday, September 30, 2007

Kierkegaard's Diary

76. In our days and age book-writing has become so poor, and people write about matters which they have never given any real thought, let alone, experienced. I therefore have decided to read only the writings of men who have been executed or have risked their lives in some way.

77. Everyone today can write a fairly decent article about all and everything; but no one can or will bear the strenuous work of following through a single solitary thought into its most tenuous logical ramifications. (...)

78. I beg to be spared any and every critical review, for I loathe a literary critic as much as an ambulant barber-journeyman who runs after me with his shaving-bowl, which he uses for the beards of all his clients, and then dabs my face all over with his wet fingers.

99. If Hegel had written his entire Logic and said in the preface that it was merely an idea-experiment for the sake of argument, wherein even in many places he had shirked* something, he might well have been the greatest thinker that ever lived. As it is, he is comical.

102. (...) a system (that omnibus) is a vehicle that permits everybody to ride along. (...)



The Diary of Sören Kierkegaard, Edited by Peter Rhode, Published by Carol Publishing Group, 1993

Thursday, September 27, 2007

Quem nos inventou

Ninguém, se tu falares, te ouvirá. Passou
o tempo, apodreceram as palavras? O que
são as palavras? Pedras no regato. Pões
os pés para atravessar, do outro lado vem ao
teu encontro o rosto indecifrável, o corpo
inalcançável. Brumas. Parecem simples
no sorriso, na alegria dos rostos juvenis,
a vida e o amor. A rapariga é um mistério,
ela caminha na praça deserta do centro da
cidade e não se sabe o que ela pensa, aonde
vai. Se lhe perguntarem, ela não responde.
Se respondesse, ninguém compreenderia
o que ela queria dizer. As palavras são a
moeda do sonho, barcos que o vento empurra
para o desconhecido. E surge diante do
olhar daquele que as pronuncia um mundo
cheio de sentido. Ilusão. Consola-te com
o que tu próprio inventaste e nunca existiu.
Os poderes da imaginação. O mecanismo, a
máquina, rodas dentadas que se acariciam e
agridem mutuamente. Existe o movimento.
Diz-me, porém, o que viste no movimento,
identifica o que aconteceu em vez de não
ter acontecido nada, diz-me aonde vamos,
aonde fomos, para que serve deixarmos
o lugar onde morríamos de tédio. Que nos
chamou? Que nos convenceu de que o sentido
habita, oculto, as formas? Relações? Estendemos

o pé, pousamo-lo na pedra do regato, atravessamos
para o outro lado. De onde viemos? Aonde vamos?
Que aconteceu enquanto no espírito as nossas pernas
metafísicas avançavam na direcção do fim em vista?
Às vezes acredito na imortalidade. Os dias e as noites
repetindo-se sem fim, nada a recear, a morte não
existe, ninguém envelhece nem perde a capacidade
de amar, de sorrir. Mas a memória dos mortos
faz-me duvidar da exactidão do pressentimento.
Entendo então que morrer é um episódio sem
grande interesse: adormecemos, voltamos ao nada
infinito de onde nos trouxeram inesperadamente.
E a vida continua. As pedras duram, os rios duram,
os mares agitam-se. A mudança existe, mas a
dissolução é lenta. Se pelo menos houvesse,
depois da morte, o reino de Deus: vastas
planícies, lagos e florestas, ar frio e puro, amor
sem condições e sem limites. É com isso que
sonhamos. É nessa felicidade eterna que
começamos a pensar quando passa por nós
uma rapariga com a novidade do seu rosto,
com os seus olhos tímidos e ávidos, com as
suas pernas nervosas, tão seguras a pisar a
terra da realidade e do sonho. Onde estão
os limites? O que é que é matéria e o que é
que é espírito? Quem nos inventou conhecia
as regras da gramática, era exímio em ver as
relações entre as palavras e as frases, sabia o
que fazia. Quem nos inventou escrevia versos
à noite antes de adormecer. Ou novelas. Ou
relatórios rigorosos. A ideia da coerência não
lhe era inacessível. E pouco lhe importou, a
esse criador, que pudéssemos pôr em causa o
sentido profundo, a verdade dos seus discursos,
essas construções perfeitas. Se existes, ó
criador de tantos mundos, faz com que me
veja a rapariga que acaba de sentar-se no café
à minha frente. Faz com que ela seja capaz de
distinguir o amor da indiferença, dá-lhe um
espírito profundo. E não lhe tires para
compensar tanta perfeição os cabelos que
lhe caem nos ombros nus, nem os braços
bronzeados, nem o resto do corpo. Porque
tudo será necessário para suscitar e preservar
o meu amor. Na tarde de Verão que vai terminando
desviaram-me do tédio os pensamentos vãos. Não
resisti ao instinto de sobrevivência?
O silêncio,
o nada, aterrorizam como o monstro
inexistente
das noites infantis? Quem pergunta não

sabe responder. Quem poderia tranquilizá-lo?

Tuesday, September 25, 2007

Nostalgia

Deterritorialization

The atypical expression constitutes a cutting edge of deterritorialization of language, it plays the role of tensor; in other words, it causes language to tend to the limit of its elements, form, or notions, toward a near side or a beyond of language. (Gilles Deleuze, Félix Guatari, One Thousand Plateaus, Capitalism and Schizophrenia, translated by Brian Massumi, University of Minnesota Press, Minneapolis, 1987)


May we say that "atypical behavior", if we look at it from this perspective, "
constitutes a cutting edge of deterritorialization of typical behavior, playing the role of tensor, causing typical behavior to tend to the limit of it's elements, form, or notions, toward a near side or a beyond of conventional or expected behavior"?


Monday, September 24, 2007

A música das línguas

A música da língua. Sem prestar atenção às palavras ou ao seu sentido, sem querer entender as frases como tentativa de expressão de alguma coisa, a gente dá-se conta finalmente de que uma coisa é falar, outra coisa é a melodia do ruído. As raparigas ou os rapazes falam português de Portugal ou do Brasil ou de Angola, inglês dos Estados Unidos ou de Inglaterra ou da Escócia, francês de França ou do Quebeque, castelhano de Espanha ou do México ou da Bolívia, por exemplo. Gente de idades diferentes, com estatutos sociais diferentes, com origens sociais diferentes, de regiões diferentes, de sexos diferentes, em estados de espírito diferentes, com preocupações ou ambições diferentes, etc., etc., "falam" músicas diferentes, variações da inicial eventualmente, daquela melodia de uma língua que se instala em nós quando se aprende a falar e que não é por força uma música para sempre idêntica, uma melodia que não possa mudar. O impacto e o sentido das palavras e das frases e o impacto e sentido da música da língua são produto de órgãos distintos em funcionamento simultâneo. Duas máquinas que se pressentem uma à outra, mas quem saberia a partir disso elaborar um dicionário, um manual de estilística ou de harmonia exemplar, rigoroso, infalível, elucidativo? Ao inexplicável tentamos opor-nos querendo entender e querendo explicar. Mas neste caso como em quase todos explicamos o quê, que sabedoria ou ciência nasce das nossas pretensões? Interpretar é que é algaraviar.

Sunday, September 23, 2007

Wednesday, September 19, 2007

Orgulho


A imprensa estrangeira destacou o gesto bonito de Cristiano Ronaldo e a atitude dos sportinguistas que o ovacionaram e se dignificaram. Ferguson fez o mesmo. Às vezes o desporto é uma escola de qualidades. Em noites assim só se pode ter grande orgulho em ser sportinguista. À equipa de Paulo Bento, que não jogou nada mal, parece ter faltado a convicção e alguma sorte para empatar ou ganhar.


... it must have been disappointing for Ferguson, all the same, that Van der Sar had to make half a dozen saves in the first 45 minutes whereas Vladimir Stojkovic barely had to dirty his knees in the opposite goal.

... the Jose Alvalade, a kaleidoscope of colour, bonhomie and exuberance, is a stadium where he (Ronaldo) is applauded, not a victim of whistling, and Sporting's crowd distinguished themselves with the reception they afforded to their former player.

Guardian


(Foto do SUN, com a devida cortesia)

Tuesday, September 18, 2007

Saturday, September 15, 2007

O evidente, o normal, etc.

Na tentativa de reconstituir acontecimentos que não presenciaram as pessoas têm tendência a comparar comportamentos que lhes disseram ter ocorrido a modelos de comportamento que elas mesmas consideram "normais" e a extrair daí conclusões infalíveis, inflexíveis, delirantes. Mas a "normalidade" é pura especulação. Contrariamente ao que se pretende, não existe para cada situação um modelo de comportamento exclusivo, único, adequado, inevitável, e que seria "o comportamento normal" da pessoa "normal". Não há senão na literatura, nos tribunais e na imaturidade da nossa imaginação "actores perfeitos" segundo os códigos que consideramos "normais". Pretender o contrário é criar um "robot" humano inexistente na realidade, que reagiria sempre infalivelmente, mecanicamente, motononamente da mesma maneira em resposta aos mesmos estímulos exteriores ou à mesma circunstância. Não se vê logo que é tolice de uma psicologia ingénua e ultrapassada pensar assim? A educação que recebemos, os modelos de raciocínio que adquirimos vivendo em sociedade fizeram de nós adeptos involuntários, na avaliação do comportamento alheio, dessa temível e primária lógica da "normalidade". Bastaria revermos o nosso próprio comportamento quotidiano em circunstâncias diversas para entender que frequentemente nós mesmos agimos em total contradição com esses pretensos "códigos da normalidade" (com o comportamento do "robot") que de boa fé queremos impor aos outros para nos tranquilizarmos, os julgarmos, os condenarmos. Leia-se ou releia-se Roland Barthes, Mythologies (1957), "Dominici ou le triomphe de la littérature" em particular. Ou Le pullover Rouge, de Gilles Perrault.

Beira-rio

Coimbra





Wednesday, September 12, 2007

L'amour

Dès le premier jour que j'eus le malheur de te voir, je sentis le poison qui corrompt mes sens et ma raison; je le sentis du premier instant, et tes yeux, tes sentiments, tes discours, ta plume criminelle, le rendent chaque jour plus mortel.

Rousseau, Julie ou la Nouvelle Héloïse, "Lettre IV de Julie"

Monday, September 10, 2007

O vício perigoso da ficção



Anda toda a gente a contar histórias partindo de suposições. É assustador. O imaginário (colectivo? popular?) alimenta-se da recordação de enredos antigos. Perante a inexistência de factos seguros, inventa uma ficção à medida da sua inteligência e entendimento do mundo, à medida dos seus valores e dos seus temores. Deus nos livre, se existe, de cair nas garras de tão famintas línguas, de cérebros tão primários. Não sei qual é a responsabilidade da imprensa nesta ficcionalização do drama ainda por explicar. Mas não simpatizo com jornalistas levianos e arrogantes, por isso achei deplorável o comportamento e os comentários da jornalista da RTP enviada a Inglaterra, uma atrevida que provavelmente se toma pela Marylin Monroe da reportagem. Também achei que o comportamento agressivo da entrevistadora da RTP ao Director Geral da PJ era primário e despropositado, pois muitas das perguntas nasciam de pressupostos falsos e da alusão a conflitos inexistentes - tudo apresentado no entanto como facto verídico e dramatizado abusivamente.

Saturday, September 08, 2007

Thursday, September 06, 2007

A Haute Voix

Je ne leur pardonnerai pas; ils savent très bien ce qu'ils font. Ils voudraient qu'avec le vent, l'oiseau et l'arbre, j'écrive de belles chansons qu'ils liraient le soir pour réconforter leur âme, oubliant ce qu'ils ont fait pendant la journée: empoisonné le vent, tué l'oiseau et l'arbre.

Je ne les laisserai pas en paix.
Je ne les laisserai pas polir mes mots pour les rendre incompréhensibles, je n'attendrai pas qu'ils construisent leur prison autour de moi, je ne crois pas en leur savoir, ni en leur argent, ni en leur dieu, je ne crois pas en leur victoire.

Ils m'ont élevé, ils ont essayé de me dompter, de faire de moi un serviteur fidèle, et maintenant ils sont furieux de voir que leurs efforts ont été vains, je suis devenu leur adversaire et tous leurs enseignements se sont retournés contre eux.

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Pentti Saarikoski, Où que j’aille, Choix de poèmes,
Traduit du finnois et présenté par Olivier Descargues,
Editions Pierre Jean Oswald, 1976

Monday, September 03, 2007

La seule et unique aimée

Il commençait lui-même à se rendre compte du malentendu, et la jeune adorée lui était déjà presque un fardeau. Et pourtant, elle était l’aimée, la seule et unique qu’il eût aimée, la seule et unique qu’il voulût jamais aimer. Mais, d’un autre côté, il ne l’aimait pas, car il se contentait de languir après elle. Pendant ce temps, se produisait en son for intérieur un remarquable changement. La verve poétique s’éveillait à une échelle que jamais je n’aurais cru possible. A cet instant, je compris tout et sans peine: la jeune fille n’était pas son aimée; elle était l’occasion, pour le poétique, de s’éveiller en lui; elle le rendait poète. C’est pourquoi il ne pouvait aimer qu’elle, sans jamais l’oublier, sans jamais vouloir aimer quelqu’un d’autre; et pourtant, il ne pouvait que languir après elle continuellement. Elle était embarquée avec lui, mêlée à tout l’essentiel de son être; sa mémoire, en lui, serait éternellement neuve. Elle avait été beaucoup pour lui: elle l’avait rendu poète. Mais, par là même, elle avait signé son propre arrêt de mort.

Kierkegaard, La Reprise, traduit par Nelly Viallaneix, Paris, Flamarion, 1990

"Se a situação continuar a melhorar..."

George Bush foi ao Iraque de surpresa e afirmou que "se a situação continuar a melhorar" algumas tropas americanas podem começar a deixar o Iraque... A situação melhorou? Grande novidade indeed... Bush está a gozar com quem? Quando as pessoas se apercebem de que se pode afirmar impunemente não importa o quê, nunca mais param... Lembrei-me do ministro iraquiano que, contra todas as evidências, enquanto as tropas de Bush e Blair iam avançando no terreno, continuou a reivindicar na televisão o total sucesso da oposição iraquiana aos invasores. Provocou muitos sorrisos e galhofas. Era parte do primeiro capítulo desta aldrabice macabra, vergonha das nossas sociedades que se pretendem democráticas mas são governadas por gente obscenamente poderosa. O segundo capítulo, o do ridículo de Bush, começou pouco depois. E não há, nem na América nem fora dela, quem tenha sido capaz até agora de lhe pôr termo. Dá que pensar... Mas pensar é o que nos resta - e é muito pouco. Introduzindo o absurdo no nosso quotidiano, os critérios de avaliação da realidade usados por Bush constituem uma séria ameaça para a saúde mental dos indivíduos.

Sunday, September 02, 2007

Em despeito do amor profano

Mostra prudência sábia o que é minino,
Apresenta-se manso o que é tirano,
Aparece sagrado o que é profano,
Profanando porém o que é divino.

O siso quer fingir no desatino,
A verdade pintar no falso engano,
Disfraçar o proveito em nosso dano,
Matando o natural e o peregrino.

Imóvel se afigura o inconstante
Amor, porque de falsa cor se tinge
Para que nada dê, mas nada negue.

Tal este amor se mostra e finge ao amante,
Mas tal qual este amor se mostra e finge,
Tal fica quem o busca e quem o segue.

Baltesar Estaço (poeta do século XVI)

Saturday, September 01, 2007

Mitos



On court toujours le danger en philosophie de créer le mythe d'un symbolisme ou d'un processus de l'esprit. Au lieu de dire tout simplement ce que tout le monde sait et doit reconnaître.

(Wittgenstein, Fiches, traduit de l'allemand par Jacques Fauve, Paris, Gallimard, 1970)


Perguntas que se podem fazer:

1. E a literatura e a arte em geral não vivem do mito dos "significados ocultos", de uma profundidade que só é acessível a alguns, os que "sabem ler" ou "interpretar" ou "ver", os que são capazes desse "processus de l'esprit"? E não se pode dizer que tudo o que envolve seres humanos - a "comunicar" entre si permanentemente - exige certas capacidades e acordos tácitos da mesma natureza, que se aplicam tanto à linguagem falada como ao comportamento (gestos, ruídos ou silêncios, expressões corporais e faciais)?

2. Onde começa e acaba a interpretação que é "simbólica" ou a perspectiva "simbólica" no acto de interpretar ? Como se estabelecem os limites e propriedades do que "toda a gente sabe e deve reconhecer" e o que sobra desse "conhecimento" que seria comum a todos?


little art



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Intelligence and proper sense
need little art to be expressed;
if you have something that you really want to say,
is there a need to hunt for words?
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Goethe, Faust
(translation Stuart Atkins)