Thursday, August 23, 2007

Lower class culture


Em 1958 o tipo de comportamento referido abaixo era atribuído a indivíduos de "lower class culture"...

"Many of the most characteristic features of lower class life are related to the search for excitement or "thrill." Involved here are the highly prevalent use of alcohol by both sexes and the widespread use of gambling of all kinds-playing the numbers, betting on horse races, dice, cards. The quest for excitement finds what is perhaps its most vivid expression in the highly patterned practice of the recurrent "night on the town." This practice, designated by various terms in different areas ("honky-tonkin'," "goin' out on the town," "har hoppin'"), involves a patterned set of activities in which alcohol, music, and sexual adventuring are major components. A group or individual sets out to "make the rounds" of various bars or night clubs. Drinking continues progressively throughout the evening. Men seek to "pick up" women, and women play the risky game of entertaining sexual advances. Fights between men involving women, gambling, and claims of physical prowess, in various combinations, are frequent consequences of a night of making the rounds. The explosive potential of this type of adventuring with sex and aggression, frequently leading to "trouble," is semi-explicitly sought by the individual. Since there is always a good likelihood that being out on the town will eventuate in fights, etc., the practice involves elements of sought risk and desired danger."

W. Miller, “ Lower class culture as as a generating milieu of gang delinquency”, Journal of Social Issues, XIV (1958), 11-12. Citado por Erwin Goffman in Interaction Ritual, Essays on Face-to-face behavior, Pantheon Books, New York, 1967

Monday, August 20, 2007

"Out of contact"?

"Psychiatrists have failed to provide us with a systematic framework for identifying and describing the type of delict represented by psychotic behavior. At present there is a rather special and hardening language in psychiatry, involving terms such as 'flattened effect', 'posturing', 'manneristic movement', 'out of contact', and others, which solves the problem of having to write up clinical notes in a hurry but which provides the practitioner with a handful of thumbs. The moralistic language in the social sciences built around the incredible notion that persons should be in good, clear, direct or open communication with one another is, if anything, worse - as if communication were a pill one ought to swallow because it was good for the tummy.
(…)
Few professions, may I add, have so well been able to institutionalize, to sell on the social market, their own fantasies of what they were engaged in doing."

Erwin Goffman, Interaction Ritual, Essays on Face-to-Face Behavior, Pantheon Books, New York, 1967

Saturday, August 18, 2007

Mais dúvidas




"there is not such thing as The woman... (...) the definite article stands for the universal. There is no such thing as The woman since of her essence (...) she is not all"
(Lacan)

"a woman is a symptom (...) of the polymorphous perversion of the male" (Lacan)


Mais uma vez duvido. Acho que entendo o que Lacan quer dizer. Mas a questão da "masculinidade" tem sido discutida recentemente em termos semelhantes. Num caso como no outro trata-se de desempenhar um "papel", "un rôle", como se diz em sociologia. Eu sei que uma mulher pode irritar-me se adopta comportamentos (linguagem, trejeitos, maneiras de vestir) em que a feminilidade acaba por se revelar de tal maneira uma máscara e um exagero que a gente perde a paciência e o interesse. Mas o mesmo se pode dizer dos homens e da masculinidade. Como se decide, porém, quais são os limites a partir dos quais há "excesso"? Cada um de nós é diferente dos outros, portanto não há regra que sirva a todos. A questão também se pode alargar a outras formas de assumir uma "identidade": crianças, pessoas de idade, deficientes, podem levar tão longe a necessidade de se assumir e reivindicar como tais que nós, perante tão perfeita "representação", não podemos evitar sentir o "excesso" e ficarmos irritados. E de novo surge a mesma pergunta: quando é que começa a haver "excesso", quando é que começa a sentir-se que há artifício e jogo? E já agora: quando na questão da identidade interferem os "traços" característicos de uma profissão, assumida ela própria de maneira tão "excessiva" que os romancistas e os dramaturgos sentem a necessidade de caricaturar, o problema não é semelhante? Mais sobre o mesmo: José Gil e Eduardo Lourenço acreditam que os portugueses se distinguem dos franceses e dos alemães, mas adoptando a perspectiva de Lacan não seria mais correcto dizer-se que "there is no such thing as the Portuguese"? Como tudo isto é divertido quando se pensa nisso de certa maneira...

Às vezes a maneira de ver e de pensar que tentam impõr-nos os pensadores que nos guiam é tão artificialmente teórica. Se nós, homens e mulheres, crianças, adultos e pessoas de idade, pessoas saudáveis e doentes, professores e locutores de televisão perdêssemos enfim as nossas "manias", nos despíssemos dos nossos excessos, poder-se-ia dizer com acerto que atingimos enfim a perfeição, o "grau zero" do ser, e que o mundo ficou mais pacificado? É possível, não sei, mas a pergunta parce-me fútil. A grande questão é outra: mulher ou homem, se conseguíssemos, sem deixar de os ser, ser também e sobretudo pessoas...

Friday, August 17, 2007

Tudo errado





"the being of the body, certainly, is sexed, but this is secondary (...) experience shows [that] it is not upon these traces that the jouissance of the body - insofar as the body symbolizes the Other - depends"
(Lacan)

Ao reler isto, achei que está tudo errado:

1. O corpo "simboliza"? E simboliza "o outro"? Que charada complicada é essa? Tocamos símbolos, beijamos símbolos, sonhamos com símbolos? Admito que "o outro" seja, como tudo o que existe, uma "mercadoria" com determinado valor no mercado (valor impossivel de definir, mas marcado socialmente e marcado pela minha fantasia). Isso não o reduz no entanto a um símbolo, não o elimina como indivíduo.

2. O corpo do "outro" - e o "valor" que lhe atribuímos - não tem nada a ver com o grau da excitação, da "jouissance", do prazer? Toda a gente sabe que isso é mentira. Se há outros factores a ter influência no "valor" (erótico? sentimental?) de que se reveste a pessoa, as qualidades particulares de um corpo também desempenham um papel importante no que acontece.

Não se pode acreditar seriamente em nada do que os outros dizem...

Lisboa

Tuesday, August 14, 2007

If I could

"If I could tell you, I would let you know."

R. D. Laing, "The Politics of Experience" (1967)

Ainda o corpo e o espírito


Sobre este assunto ver mais abaixo Love and the soul, 8 de Agosto. Não cito mais Lacan porque as teorias poético-científico-freudianas do mago francês à volta do "falo", da "castração", etc., não me convencem. O problema com muitos pensadores é o excesso de coerência a que se sentem obrigados e que os leva a elaborar sistemas pretensamente perfeitos de explicação do mundo ou de partes da nossa realidade a partir de uma ou duas intuições felizes. Têm de construir uma casa para tentar meter-nos lá dentro. Deviam ter-se ficado por uma porta, uma janela, uma parede, já não era mau.

Sunday, August 12, 2007

para inglês ver

o saco azul no lado esquerdo do corpo e no
direito da fotografia de roma é prova irrefutável

não é que eu não tenha sido amado
mesmo quando tentam escapar-se

das garras do amor que nos têm elas
nunca conseguem e andam à deriva

pelas ruas aonde as levámos a passear
depois telefonam-nos de noite em pânico

não conseguem viver sem nós para tentar
provar-nos que nos enganamos e que são

elas as mais fortes arranjam um amante
e tentam trair-nos com ele ou fazem de

conta só para inglês ver mas as fotografias
não mentem a farsa é mais do que evidente

e inspira piedade claro que por orgulho elas
não querem admiti-lo portanto não é que eu

não tenha sido amado antes pelo contrário
insistia o rapaz sentado no canto do jardim

qualquer pobre de espírito pode ser amado
por aquela que nós amámos mas isso não

é prova de que fomos esquecidos nunca
o seremos e o tormento há-de intensificar-se

pedras no céu, ccb

Wednesday, August 08, 2007

Love and the soul


"the being of the body, certainly, is sexed, but this is secondary (...) experience shows [that] it is not upon these traces that the jouissance of the body - insofar as the body symbolizes the Other - depends" (Lacan)

"there is not such thing as The woman... (...) the definite article stands for the universal. There is no such thing as The woman since of her essence (...) she is not all" (Lacan)

"a woman is a symptom (...) of the polymorphous perversion of the male" (Lacan)

"man's sexual desire is ultimately narcissistic and the object(s) of his desire are precisely those imaginarily detached body parts, those objects a - breasts, buttocks, mouths - that trigger his desire and his masturbatory jouissance. In short, it is because the man, as defined by the phallic function, relates to an object a rather than to a human Other that 'there is no sexual relation' " (J. Scott Lee)

"noting in his 1973 television interview that a woman 'yields' (se prête) to man's perversion, Lacan adds that this involves her in the notion of 'masquerade'. Many women do, after all, to some extent play along with men's fantasies of them, and in this way they themselves directly enter, although not completely (pas-tout), the phallic function. In fact, 'masquerade' apparently characterizes both the feminine and the masculine roles with regard to the sexual relation, since both women and men find themselves in the position of semblance in the course of their inevitably failed sexual encounters."

"Lacan's account of the phallic function as that which structures human sexuality in accordance with an 'other's satisfaction' different from bodily jouissance has two consequences: neither woman nor the sexual relation exist. Crucial to the argument of Encore is that each of these failures of existence find an admittedly inadequate substitute. In place of the impossible sexual relation, we find love. In place of the nonexistent woman, the Other sex, we find the soul" (J. Scott Lee)

"while the ideology of love promises a real relation between the lovers, a unity in which two become one, what love delivers is just a variant of the sexual relation's impossibility. Thus is comes as no surprise that Lacan insists 'when one loves, it is not a matter of sex ', and this is one reason why 'the jouissance of the Other is not a sign of love' " (J. Scott Lee)

Ver Jonathan Scott Lee, Jacques Lacan, The University of Massachusetts Press, Amherst,1990

Monday, August 06, 2007

Escritores?



A missão social do escritor tende a confundir-se com a sua vocação espiritual, com a sua vocação comercial, com o seu destino: sem escriturário ou folhetinista que escrevesse o guião das cenas quotidianas de acordo com as leis estatais, os credos religiosos e ideológicos, etc., a existência humana reduzia-se à caótica ditadura da biologia e às suas consequências impossivelmente referenciadas (nem sequer mentalmente, num estado pré-verbal). Por isso eu não gosto da maior parte dos escritores e abomino em particular os escritores populares, que vendem muito, dão regularmente entrevistas, escrevem crónicas nos jornais mais lidos, contam quando deixaram de fazer chichi na cama, o que liam quando eram pequeninos, o que pensam enquanto nadam na piscina. Eu quero lá saber o que eles pensam, quando é que eles se divorciaram, o que eles fazem. Eu não os conheço nem os amo. Por isso não me aborreçam com mariquices narcisistas. No panteão das minhas autoridades aceites ou reconhecidas não há nenhum escritor contemporâneo português e famoso. Até tenho pena de quem os lê, para ser sincero. Embusteiros. E tenho pena de mim mesmo por ter demorado tanto tempo a perceber com clareza o logro em que vivi durante tantos anos.


O silêncio não é obrigatório. Mas escrever devia ser como fazer bolos, encher garrafas de vinho ou pneus, vacinar crianças, assar peixe nas brasas, dar beijos. Isto é: escrever deveria fazer-se de maneira tão natural, espontânea e justificada que não suscitaria elogios despropositados. Alguém felicita ou premeia alguém por respirar, por fazer pão, por se levantar da cama de manhã? Para quê, então, tanto alarido e gastos inúteis com condecorações presidenciais a gente que escreve e publica livros? Tudo isto cheira a negócios obscuros que a polícia de costumes poderia investigar.

Penso estas coisas como coisas importantes. Que me importam as desinteressantes divagações mentais de outras pessoas quando elas se formalizam, se corrompem em imitação de qualquer coisa que a sociedade adora - sem reflectir e sem sentir - sob a designação de “obra literária”? Os escritores banais, que são a quase totalidade, só têm interesse como sintomas. Através deles, neles, é posto a circular pomposamente, isto é, “artisticamente", isto é, com complacência, ignorância, arrogância, vaidade, uma gama de produtos vulgaríssimos e nada genuínos, coisas que facilmente se consomem em vez de prestar atenção ao que se está a passar e que é sempre difícil de identificar.

A literatura imita a realidade ou inventa-a? Impõe-a, desculpa-a? Confunde-a, deturpa-a, assassina-a? Provoca-a, nega-a?

O que é que nasceu primeiro, foi o ovo ou a galinha? Isto é, foi a literatura ou foi a realidade, foi o professor ou o romancista? Foi a galinha ou foi o galinheiro?

Sunday, August 05, 2007

Finalidades

- Se nada sobrevive, para quê escrever?
- Algumas coisas têm sobrevivido. Os diálogos de Platão, por exemplo.
- E vão sobreviver até quando?
- Até agora pelo menos sobreviveram.
- E basta?
- Basta. Foram-me úteis a mim e a muita gente.

Lisboa

Wednesday, August 01, 2007